Texto de David Gertner, professor e escritor:
"Durante séculos, a fórmula “culpado até que se prove o contrário” representou um abuso do poder e uma violação da justiça.
Por muito tempo, as sociedades modernas se orgulharam de afirmar o oposto: todos são inocentes até que se prove a culpa. Não se tratava apenas de uma norma jurídica. Era também um princípio civilizatório.
Ele reconhecia que a verdade exige investigação, contexto, escuta e ponderação.
Antes da sentença, vinha o processo.
Antes da condenação, vinha o direito de defesa.
Em muitas arenas da vida contemporânea, porém, a ordem parece ter se invertido.
O julgamento começa pela conclusão.
A acusação chega antes da escuta.
E qualquer tentativa de contextualizar, ponderar ou compreender os fatos corre o risco de ser interpretada como cumplicidade.
Em sociedades profundamente polarizadas, a indignação tornou-se uma forma rápida de alinhamento moral — e, muitas vezes, de julgamento. Narrativas se formam em questão de horas, frequentemente a partir de fragmentos de informação, imagens recortadas ou declarações isoladas de seu contexto.
A velocidade substitui a reflexão.
A reação substitui a investigação.
E a condenação coletiva passa a oferecer uma sensação imediata de justiça, mesmo quando os fatos ainda permanecem incompletos.
Esse fenômeno não se limita à política. Ele se manifesta nas redes sociais, nas relações profissionais, nos ambientes acadêmicos e até na vida cotidiana.
A reputação de indivíduos ou instituições pode ser julgada e sentenciada em poucas horas — às vezes a partir de uma manchete enviesada, uma notícia tendenciosa, uma imagem descontextualizada ou até de algo simplesmente falso.
Uma narrativa inicial, quando amplificada por indignação e repetição, pode se transformar rapidamente em sentença moral.
Quando a primeira história que circula já aponta culpados, a verdade passa a correr atrás do prejuízo.
Quando a culpa vem antes da escuta, a justiça já foi abandonada.
O que resta é apenas o espetáculo do julgamento.
Nesse ambiente, o espaço para a dúvida — que sempre foi parte essencial da busca pela verdade — torna-se cada vez menor.
Em muitos casos, o próprio ato de perguntar já parece suspeito.
Mas a presunção de inocência nunca existiu para proteger culpados. Ela foi criada para proteger algo ainda mais frágil: a própria possibilidade de justiça.
Histórias antigas e recentes mostram como comunidades humanas, quando movidas por medo, indignação ou fervor moral, podem transformar suspeita em condenação antes mesmo de compreender plenamente os fatos.
O tribunal da multidão sempre julgou rápido.
E quase nunca esperou pelos fatos.
A cultura da culpa imediata produz ainda outro efeito silencioso: ela estreita o espaço do diálogo.
Quando qualquer nuance pode ser interpretada como traição moral, o debate deixa de ser uma busca comum pela verdade e passa a funcionar como um campo de vigilância.
As pessoas falam menos.
Pensam em silêncio.
Ou repetem apenas aquilo que sabem ser seguro.
Paradoxalmente, uma cultura que afirma defender a justiça pode acabar sacrificando justamente aquilo que torna a justiça possível: a disposição de ouvir antes de condenar.
Recuperar o espírito do antigo princípio — inocente até que se prove a culpa — não significa ignorar injustiças nem silenciar denúncias legítimas.
Significa apenas reconhecer que a verdade raramente se revela nas primeiras narrativas que chegam até nós.
Ela exige tempo.
Exige contexto.
Exige escuta.
Talvez um dos desafios centrais do nosso tempo seja justamente este: preservar a capacidade de julgar sem perder a capacidade de compreender.
Porque quando a sentença vem antes da escuta, algo essencial se perde.
Não apenas a justiça.
Mas a própria possibilidade de encontrá-la.
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