O depoimento de Daniel Vorcaro ao ministro do STF, André Mendonça, gerou tensão entre a PGR e a defesa do ex-dono do Banco Master, com alegações de intimidações e maus-tratos sofridos por Vorcaro no sistema prisional.
Vorcaro afirmou ter sido pressionado a não delatar o diretor-geral da PF e relatou experiências de transporte que configuram maus-tratos, como ficar em condições precárias e receber ameaças durante a custódia.
A PGR considerou o depoimento irrelevante e sem substância, enquanto a defesa de Vorcaro, que não se manifestou sobre o ato, enfrenta críticas por desvio de estratégia ao não incluir outros advogados na petição que solicitou o depoimento.
O depoimento de Daniel Vorcaro ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, na quinta-feira passada, irritou a PGR (Procuradoria-Geral da República) e rachou a equipe de defesa do ex-dono do Banco Master.
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O depoimento foi marcado a pedido do advogado Daniel Bialski, que entrou recentemente no caso. Ele relatou que Vorcaro teria sofrido intimidações para não delatar e maus-tratos no sistema prisional por parte da PF (Polícia Federal).
Bialski assinou a petição sozinho, sem incluir os demais advogados.
Mendonça marcou o ato para a manhã de quinta-feira. No mesmo horário, Vorcaro deveria depor à PF sobre o inquérito que apura a corrupção de servidores do Banco Central.
A PF tentou fazer o depoimento por videoconferência, mas foi informada pela Polícia Militar do Distrito Federal —que administra a Papudinha— que estava ocorrendo uma "falha técnica" na chamada.
A "falha técnica" era, na verdade, um depoimento a João Azambuja, juiz auxiliar de Mendonça. O advogado Sérgio Leonardo, que defende Vorcaro desde o início da investigação, chegou a entrar na videoconferência —à distância, da Itália—, mas ela nunca aconteceu.
A íntegra da audiência, obtida pelo UOL, mostra que o ato correu sob sigilo máximo. O juiz determinou que a gravação ficasse em um HD fora da rede, sem acesso da PF.
A própria defesa pediu para não receber cópia do vídeo para que não seja atribuída a ela um eventual vazamento. "Se acontecer algum tipo de fornecimento de imagem em algum lugar que se possa atribuir aos advogados", justificou Bialski.
Um promotor de Justiça representou a PGR na sala e registrou em ata que comunicaria o teor do ato a Paulo Gonet. Vorcaro disse que queria ter falado diretamente com Mendonça.
A PGR foi comunicada do depoimento às 22h de quarta-feira, o que também incomodou os procuradores.
O que Vorcaro disse
No depoimento, Vorcaro relatou que sofreu ameaças para não incluir o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, em sua delação. Disse ainda que não pôde citar pessoas do "atual governo".
"Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo", afirmou.
"E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar", disse o banqueiro.
Ele citou o diretor-geral da PF como exemplo dessas relações. "O próprio diretor-geral, o Andrei, que viajou para eventos comigo, com namorada, teve ingressos, teve uma relação pretérita a esse caso."
Questionado pelo juiz sobre a natureza da relação, Vorcaro a classificou como "cordial". Falou em "eventos de charuto", ir "com família em eventos do banco" e "convites para eventos de Fórmula 1".
Perguntado se citaria Andrei Rodrigues numa eventual delação, respondeu: "Ele estaria, sim, dentro do contexto dessa questão do evento de relações que eu acabei desenvolvendo". Não apresentou provas nem detalhou datas ou destinos das viagens.
Relato de maus-tratos
Vorcaro descreveu episódios ocorridos em transportes entre presídios. Disse que ficou "em um caixote por seis horas, sem ar, suando", na saída de São Paulo para Brasília.
Segundo ele, ao abrir a porta ouviu de um agente: "Isso que dá, você vai querer falar disso do chefe? Vai acontecer isso." Em outro transporte, afirma ter ouvido: "Querer mexer com os patrões, agora sua vida vai virar um inferno."
Ele relatou ainda ter sido levado de helicóptero com os olhos vendados. "Me colocaram aqueles óculos igual o do Maduro", disse, em referência ao transporte do venezuelano Nicolás Maduro para os Estados Unidos.
"E ali, a todo momento, eu sofria falas: 'Está vendo? Foi fazer merda'", afirmou. Segundo o banqueiro, um dos agentes teria comentado: "É mais fácil, de repente, jogar ele daqui."
Na penitenciária federal, contou, ficou em uma cela com a luz acesa 24 horas e passou quase dez dias sem contato com advogados. Disse que, ao chegar, foi perguntado se preferia o pavilhão do Comando Vermelho ou do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Já na sede da PF, afirmou ter sido colocado em uma cela de trânsito e ficado um dia sem comida e sem água. "Eu fui torturado psicologicamente, fisicamente em outros casos", disse.
Sem nomes
O juiz perguntou quem teria mandado intimidá-lo. Vorcaro respondeu que ninguém verbalizou uma ordem: "Não foi feita uma palavra: fulano falou para que isso seja feito."
Ele disse que os recados chegavam por advogados, que repassavam mensagens de terceiros, sem identificá-los. Questionado se algum delegado o intimidou pessoalmente, respondeu que não.
Perguntado pelo próprio advogado se já havia sido ameaçado pela PGR, também respondeu "não". Sobre a família, disse que a mãe, em Belo Horizonte, recebeu e-mails anônimos com ameaças de morte, que a defesa se comprometeu a juntar aos autos.
Ao final da audiência, Bialski pediu ao juiz que fosse aberta "uma nova possibilidade de ele poder colaborar". O juiz registrou o requerimento em ata e mandou os autos de volta ao gabinete de Mendonça.
A reação
Além do incômodo da PF, a estratégia de Bialski irritou a PGR. O órgão considerou que a defesa atropelou toda a negociação anterior em torno das tentativas de delação para tentar pressionar Mendonça.
Nesta quarta-feira, a PGR opinou pelo arquivamento do caso. Gonet disse que Vorcaro não deu "o mínimo elemento de verossimilhança" às afirmações e classificou o depoimento como "flagrantemente inócuo e esvaziado de utilidade prática".
Para o procurador-geral, o banqueiro "não noticiou fato concreto ou juridicamente delimitado". Ele acrescentou que o investigado não conhece o estágio das provas já reunidas, e fatos que considera inéditos podem já estar em poder dos investigadores.
A PF e a PGR já haviam recusado duas propostas de delação de Vorcaro, por entenderem que ele omitiu informações e não entregou provas novas.
Na defesa, a estratégia foi considerada um "voo solo" de Bialski, que tenta usar uma indisposição de Mendonça com o diretor-geral da PF a favor de Vorcaro.
A defesa do banqueiro informou que não iria se manifestar sobre o depoimento.
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