Nordeste

Dezenas de artistas baianos gravam música para Irmã Dulce

Correio 24 horas | 18/08/19 - 15h01 - Atualizado em 18/08/19 - 15h58
Alexandre Peixe, Janete (ex banda Mel), Ninha, Durval Lelys, Robson, (ex banda Mel) e Dito Martins | Betto Jr/Correio 24 horas

A Bahia se reúne num estúdio de música. Lá, repassa letra e melodia, acerta os últimos detalhes, e embarca numa homenagem à mulher que transformava a vida de seus filhos mais pobres. Num sinal de agradecimento, os artistas chegam para cantar a ela, Irmã Dulce, futura Santa Dulce dos Pobres. Com música reverenciam a mulher que, com seu acordeão, arrecadava dinheiro para ajudar os mais necessitados. No fim da segunda semana de gravações, 50 artistas, entre eles ídolos da música baiana, já passaram por ali. A Bahia começa a cantar a sua santa.

As portas se abrem e revelam artistas como Saulo, Luiz Caldas, Margareth Menezes, Durval Lelys e Lazzo - Ivete já confirmou sua participação esta semana. Outras memórias vivas da música baiana, como Marcionílio Prado e Tonho Matéria também aparecem. A música é apenas uma, gravada em diferentes versões: a Bahia canta a sua santa.

“É mais que uma música, é a Bahia devolvendo tudo que ela fez por nós. Do início ao fim, é uma emoção que vai crescendo”, define Durval Lelys, que cedeu o estúdio para as gravações acontecerem.

Do estúdio adentro, cada artista imprime, com sua voz e sentimento, uma interpretação. A emoção aflora para falar da santa, de quem muitos foram próximos. De Margareth, por exemplo, ouvimos a força de uma voz que parece querer fazer jus à força de Irmã Dulce. De Lazzo, algo quase ancestral no tom grave pode relembrar quão ligadas estão as histórias da religiosa e da Bahia.

É uma música que nasce religiosa, mas baiana por excelência. Uma espécie de canção sacro-nagô, como define o arranjador Flávio Morgade, com piano, atabaques e agogôs, órgãos, sinos e coros, para a baiana que acolheu todos os ritmos. “A letra foi me levando por esse caminho. ‘Tocam sinos e atabaques de um povo que viu seus milagres’, diz a música”, comenta.

Jantar entre amigos

Tudo surgiu há menos de um mês, num jantar entre amigos. Começaram a falar sobre Irmã Dulce, como seria pensar uma nova, entre tantas, homenagem. Daquela noite num restauranteaté o estúdio em Jardim Armação foram duas semanas. A última segunda (12) foi o primeiro dia de gravações. O pequeno grupo rapidamente se transformou num coletivo de 50. 

A composição, feita ideia a ideia, nasceu quase imediatamente depois do encontro. O plano é colocar, como autora da música, as Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). Assim, qualquer possível arrecadação será convertida para o instituto.  

“É quase a Bahia batendo palmas para ela”, define Dito.

Primeiro, pensaram em captar apenas vozes, sem instrumentos. Só depois veio o arranjo. “A ideia é que seja uma música para pessoas religiosas, não-religiosas”, diz Durval. As vozes emprestam seu lado da Bahia e de sua própria fé. A proposta é que a Bahia possa, de fato, cantar. 

“O microfone está aberto”, continua o cantor.

Diariamente, ele, Alexandre Peixe e o produtor Dito Martins organizam a rotina de gravações. A ideia é reunir, num período de tempo ainda indeterminado e numa espécie de coletivo, o máximo de pessoas interessadas em reverenciar a baiana que será canonizada no dia 13 de outubro.

O grupo tem apoio do publicitário Nizan Guanaes, autor da letra e música. "O jeito incansável como esses grandes artistas estão trabalhando, numa alegria, numa emoção, rindo, chorando, é um milagre de Irmã Dulce", afirma. 

Irmã Dulce e seu acordeon (Crédito: Divulgação/Osid)

Quando a reportagem visitou um dia de gravações, na última quinta-feira (15), Ninha preparava-se para sua vez, enquanto lia a composição. Na noite anterior, depois de retornar do Canadá, recebeu a ligação de Durval e soube do projeto. Aceitou imediatamente. “Não podemos, nem devemos, recusar. Ela que já fez tanto por nós. Cuidou de todos nós”, disse o cantor. Às 15h, ele começa a cantar, sempre o momento de maior emoção. As palmas acompanham os acordes. 

A santa vizinha

As gravações começam as 14h, sem hora para acabar. “Ontem fiquei até três horas da manhã”, conta Durval, enquanto administra o grupo de Whatsapp onde discutem detalhes. O maestro Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz é um dos contatos recorrentes. O músico e arranjador aconselha, ajuda a escolher as melhores versões de cada artista. O plano é, finalizadas as gravações, dar início à segunda fase do projeto, quando Letieres fará um arranjo orquestral para a música, que deverá ser apresentada num espetáculo. 

“O arranjo final vai envolver orquestra, coro. As gravações, por enquanto, são feitas lá, e eu vou ouvindo” , conta. 

Os músicos guardam histórias particulares com a santa baiana. Talvez por isso cantar pra ela seja tão emocionante. Na última segunda, de frente para o microfone, Margareth deve ter lembrado da infância na casa que dividia muro com o Hospital Santo Antônio, criado de maneira improvisada por Irmã Dulce, em 1949, como um abrigo. Na calçada, costumava encontrar a religiosa, pedir-lhe benção. Um dia, Irmã Dulce entrou, impetuosa, no quintal de sua casa, onde um paciente fugitivo delirava depois de picado por uma cobra.

“Minha mãe sempre falava para a gente tomar a benção. Lembro dela ali auxiliando o rapaz. É um refinamento de amor pelo próximo”, compartilha Margareth, considerada embaixadora de Irmã Dulce.  A cantora junto com sanfoneiro Waldonys se apresentará na cerimônia de canonização no Vaticano.

A cantora Janete Dantas, ex-Banda Mel, é a segunda na fila daquele dia para cantar à santa. Ela, e Robson Morais, também ex-integrante da banda, crias da Cidade Baixa, têm muito o que falar sobre Dulce. “O que eu falo é o seguinte: é uma santa que era vizinha. Irmã Dulce era minha vizinha”, diz Janete, que a conheceu ainda criança, na Igreja de Boa Viagem, onde cantava no coral do Grupo Jovem da Igreja de Boa Viagem. Depois de gravar, pergunto a Robson qual foi sensação. Na adolescência, o cantor, criado no Bonfim, ficou completamente desnorteado ao vê-la pela primeira vez, tão pequena e tão forte.

“É uma sensação de retribuição. E não é coisa piegas. Esse tipo de coisa vem de dentro. O efeito especial é aqui dentro”, define Robson.

Depois de gravarem, os artistas ouvem juntos e opinam, geralmente com a regência de Durval. “É um trabalho artesanal. O resultado é um arquivo gostoso de se ver. Tinha que ser Irmã Dulce para que tudo estivesse sendo feito”, acredita Alexandre Peixe. Artesanal também deve ser a distribuição do conteúdo, que já é compartilhado entre os artistas e amigos nos grupos de Whatsapp. Não há, por enquanto, nenhuma intenção de juntar todas as gravações num só dispositivo. 

Do celular, a superintendente das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) e sobrinha da religiosa, Maria Rita Pontes, acompanha o processo.

“O ritmo é bem baiano, como o povo que ela assistiu. Ela acolheu todos os ritmos e assistiu a todos de todas as religiões [...] Esperamos que esse projeto nos ajude a conseguir doações, pois estamos precisando”, diz.

A música tem regido os últimos meses, desde o anúncio da canonização pelo papa Francisco, no mês de maio. No dia 13 de dezembro, por exemplo, o maestro baiano Roberto Laborda apresentará em Barcelona um espetáculo de homenagem, com a opera “Ópera Irmã Dulce”.

Coletivamente, os artistas constroem as bases do projeto. “A ideia é iluminar, não ser a luz. Por isso estamos fazendo dessa forma”, diz Dito. A luz resplandece em diferentes formas, vozes e ritmos. Aos poucos, a Bahia aprende a bater palmas, tocar tambor e cantar para a sua santa.  

Letra da música 'A Bahia Canta Sua Santa'

A Bahia inteira canta
para celebrar nossa santa
que cuidou de nós

Tocam sinos e atabaques
de um povo que viu seus milagres
foste a voz daqueles que não tem voz

Pequena e tão gigante
mãe desses Filhos de Gandhy
que entram em Roma
soltando as pombas
pombas da paz

Ouve teu povo cantando 
nas portas do Vaticano
ele tem fé, ele tem axé
ele veio a pé

É a Bahia que canta
Santa Dulce, a nossa santa
que está no céu
cuidando da gente 
diariamente

Pequena e tão gigante…..

Ouve teu povo cantando….

Quem canta: Filhos de Jorge, Ricardo Chaves, Carla Christina, Leo Macedo, Tuca Fernandes, Vitor Kelsh, Jorge Zarath, Magary Lord, Mateus Vidal, Adelmo Casé, Sérgio Nunes, Dão Black, Lazzo Matumbi, Marcia Freire, Norberto Curvelo, Átila, Marcionílio, Denny Denan, Margareth Menezes, Julio Cavalcanti, Kleber, Khill Chiclete, Ana Mammeto, Marcia Short, Joka, Tonho Matéria, Gabriel, Matildes, Aiace Félix, Saulo, Alexandre Peixe, Luiz Caldas, André Macedo, Ze Paulo, Ze Onório, Will Carvalho, Mari Antunes, Confraria da Música, Me Gusta - DH8, Tatau, Janete, Ninha, Robson, Edu Casanova, Buk Jones, Graçaa Onaserê, Felipe (Eva), Preta Gil e Ivete (entrará em estúdio essa semana)

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