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Diversidade divide espaço com candidatos à Casa Branca em comerciais do Super Bowl

Folhapress | 03/02/20 - 15h20 - Atualizado em 03/02/20 - 15h37
Kate Sowers - 49ers

O filme de trinta segundos não mostrava nenhuma marca ou celebridade e também não tinha a intenção de vender qualquer produto.

A estrela era um cachorro, Scout, que após ser curado de um câncer no coração viu o dono pagar cerca de US$ 6 milhões (R$ 25,5 milhões) por um anúncio no intervalo do Super Bowl deste domingo (2), para pedir doações aos veterinários que salvaram seu animal de estimação.

O empresário David MacNeil, CEO de uma fabricante de peças para carros, havia recebido no ano passado a notícia de que Scout estava doente e morreria em um mês. Foi sugerido, inicialmente, que ele sacrificasse o animal, mas MacNeil encontrou um tratamento alternativo -e eficaz- no departamento de veterinária da Universidade de Wisconsin, para quem pediu contribuições no comercial que foi ao ar durante a final da NFL.

O jogo consagrou o Kansas City Chiefs campeão da liga de futebol americano ao derrotar o San Francisco 49ers.

Ao lado do vídeo da campanha intitulada "Lucky Dog", marcas como Microsoft, Coca-Cola, Amazon, Disney, Hyundai e Facebook, além do presidente Donald Trump e dos democratas Michael Bloomberg, Joe Biden, Amy Klobuchar e Bernie Sanders, investiram milhões na compra de alguns segundos no intervalo da partida neste que é um ano eleitoral nos Estados Unidos.

O Super Bowl é o evento mais assistido da TV americana, com quase 100 milhões de espectadores -cerca de um terço da população do país- e, este ano, trinta segundos no intervalo do jogo custaram em torno de US$ 5,6 milhões (R$ 23 milhões).

Entre os políticos que aproveitaram a monstruosa audiência para divulgar suas plataformas, em 2020 as marcas investiram no ineditismo, humor e diversidade.

Facebook e Sabra, empresa que produz húmus, estrearam nos comerciais da final da NFL. A marca produtora de antepasto árabe levou às telas pela primeira vez na história do Super Bowl drag queens.
Kim Chi e Miz Cracker, ex-participantes do reality show "RuPaul's Drag Race", divertem-se ao tentar colocar um capacete por cima da peruca que faz parte de seus figurinos.

A Microsoft também trabalhou com a representatividade e homenageou Katie Sowers, primeira técnica LGBT a treinar uma equipe da NFL, o San Francisco 49ers, que estava em campo no domingo.

"Eu não estou tentando ser a melhor treinadora mulher, eu estou tentando ser a melhor treinadora", diz Sowers no filme.

O casal Ellen DeGeneres e Portia de Rossi, por sua vez, estrelaram a propaganda da Amazon, que retratava com bom humor como seria a vida das pessoas antes da Alexa, sistema de inteligência artificial que funciona em alto-falantes.

O ano de eleição nos EUA levou às telas Trump e um de seus rivais democratas, Bloomberg, que gastou US$ 11 milhões (R$ 46,9 milhões) num anúncio de um minuto sobre sua principal bandeira de campanha, a política contra armas no país.

Em tom emotivo, o filme mostra uma mãe falando da perda do filho em um tiroteio. Ele aparece com uniforme de jogador de futebol americano enquanto ela diz que Bloomberg "não tem medo do lobby" da indústria das armas e que vai lutar contra a violência armada.

O republicano, por sua vez, gastou a mesma quantia que o oponente, mas usou os 30 segundos para destacar seus primeiros anos no cargo. O comercial não faz referência ao esporte e mostra dados sobre o baixo desemprego nos EUA.

Os comerciais parecem falar de dois países diferentes. Enquanto Bloomberg destaca a violência, Trump celebra "um país mais seguro."

Em um dos bares de Des Moines, capital de Iowa, apoiadores da democrata Amy Klobuchar gritaram e aplaudiram quando o rosto da candidata estampou os televisores no intervalo do jogo.

Nesta segunda-feira (3), o estado inicia as primárias que vão desembocar na escolha do nome do partido para concorrer contra Trump.

Klobuchar está em quinto lugar nas pesquisas. O ex-vice-presidente Joe Biden e o senador Bernie Sanders, que se se revezam em primeiro lugar nos levantamentos, também investiam milhões na propaganda no intervalo do Super Bowl que foi transmitido em Iowa.

Mas a política nem sempre é bem recebida nesses comerciais. Em edições anteriores da final da NFL, alguns comerciais tentaram politizar o debate e divulgar mensagens sobre assuntos como imigração e tolerância, mas acabaram criticados pela maneira como conduziram a discussão.

Preferem humor. Depois de um hiato no ano passado, a Coca-Cola voltou ao Super Bowl em 2020 com um comercial de um minuto. No filme, o cineasta Martin Scorcese espera a resposta de uma mensagem de texto do ator Jonah Hill sobre encontrá-lo numa festa. Hill precisa tomar um gole do energético da Coca para se animar a ir à celebração.

Sua concorrente, a Pepsi, apareceu com um comercial de 30 segundos no qual promove seu refrigerante zero açúcar pintando de preto latas vermelhas (cor da Coca) ao som de Missy Elliott e H.E.R.

O tom emocional ficou mais uma vez por conta do Google, que divulgou sua ferramenta "Remember" com um filme em que um homem idoso quer se lembrar de momentos da vida com a mulher, Loretta.

Depois de pedir por "fotos do nosso aniversário de casamento" ou "nossa música", que são mostradas na tela logo após o comando de voz, ele diz para ser lembrado de que é "o homem mais feliz do mundo" justamente por ter todas essas lembranças.

A memória do astro da NBA Kobe Bryant, morto num acidente de helicóptero na semana passada, acabou tendo reflexo nas propagandas.

Estrelado por Chrissy Teigen e John Legend, o filme da Genesis, linha de veículos de luxo da Hyundai, foi editado para eliminar a imagem de um helicóptero que era exibido no comercial.

"Editamos nosso anúncio no Super Bowl para remover um helicóptero que estava nos primeiros dois segundos do comercial", disse um porta-voz da empresa ao USA Today. "O anúncio foi filmado, produzido e entregue bem antes da tragédia de domingo [passado, quando o jogador morreu]. Então cortamos por compaixão e sensibilidade às famílias."