Nova regra coloca o bem-estar emocional no centro da gestão de riscos e muda a forma como organizações lidam com estresse e produtividade
A saúde mental no trabalho nunca esteve tão em pauta e agora passa a ser, oficialmente, uma prioridade estratégica dentro das empresas brasileiras. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor em maio de 2026, marca uma virada estrutural ao incluir fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
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Na prática, isso significa que aspectos como sobrecarga de trabalho, pressão excessiva, metas abusivas, assédio moral e falta de autonomia deixam de ser questões subjetivas ou pontuais e passam a exigir identificação, monitoramento e controle sistemático, assim como acontece com riscos físicos, químicos e biológicos.
Segundo o médico do trabalho e especialista em saúde corporativa Dr. Gustavo Locatelli, essa mudança representa um avanço significativo na forma como as organizações encaram o bem-estar dos colaboradores.
“A grande transformação é que os fatores psicossociais deixam de ser invisíveis e passam a exigir uma gestão estruturada, com método, registro e acompanhamento contínuo. Isso eleva o nível de maturidade das empresas quando falamos de saúde e qualidade de vida no trabalho”, explica.
Até então, iniciativas voltadas à saúde mental eram frequentemente tratadas como benefícios adicionais, como programas de bem-estar ou apoio psicológico pontual. Com a atualização da norma, esse cenário muda completamente. A saúde mental passa a ser parte da governança corporativa e da gestão de riscos, impactando diretamente indicadores de desempenho e sustentabilidade dos negócios.
“Não estamos falando apenas de evitar doenças. Estamos falando de garantir que as pessoas consigam trabalhar com energia, foco, clareza e capacidade de realização. Quando isso não acontece, a perda é silenciosa, mas extremamente cara para as empresas”, destaca o médico do trabalho.
Embora muitas empresas já acompanhem indicadores como afastamentos e custos com planos de saúde, ainda existe um impacto pouco mensurado, o chamado presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas opera abaixo do seu potencial.
De acordo com estimativas do Fórum Econômico Mundial em parceria com a McKinsey, problemas relacionados à saúde mental representam um impacto superior a 12 trilhões de dólares na economia global.
Esse cenário está diretamente ligado a ambientes de trabalho com excesso de demandas, baixa autonomia, comunicação falha e lideranças despreparadas, fatores que drenam energia, reduzem a criatividade e comprometem a tomada de decisão.

Com a atualização, as organizações precisarão identificar riscos psicossociais no ambiente de trabalho, avaliar impactos na saúde dos colaboradores, implementar medidas de prevenção e controle, monitorar continuamente esses fatores e registrar todas as ações. Ou seja, não basta mais reconhecer o problema, será necessário agir de forma estruturada e contínua.
“A saúde mental deixa de ser uma questão individual e passa a ser entendida como reflexo da cultura organizacional e da forma como o trabalho é estruturado”, reforça o especialista.
Apesar de ser uma exigência regulatória, a nova diretriz também abre espaço para ganhos estratégicos importantes. Empresas que adotarem uma abordagem consistente de saúde mental tendem a observar a redução do absenteísmo, a diminuição do turnover, o aumento do engajamento e da produtividade, melhora no clima organizacional e maior capacidade de atrair e reter talentos.
“Empresas que tratam a saúde mental com seriedade conseguem transformar ambientes tóxicos em espaços de proteção psicossocial e isso se traduz em vantagem competitiva real”, afirma o Dr. Gustavo Locatelli.
Apesar do prazo, especialistas alertam que a adequação não deve ser deixada para a última hora. Isso porque a implementação envolve mudanças profundas na cultura organizacional, no modelo de liderança e no desenho do trabalho.
“A adaptação não acontece de forma rápida. É um processo que exige preparação, integração entre áreas e comprometimento da alta liderança. Quem começar antes terá mais facilidade e melhores resultados”, conclui o profissional.
Por Gabriela Andrade
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