Brasil

Entenda: pais influencers usam filha com paralisia cerebral para 'engajar' e cometer crimes

João Victor Souza | 26/06/24 - 11h51
Divulgação

Igor de Oliveira Viana e Ana Vitória Alves dos Santos, o casal de influenciadores investigado por crimes contra a filha de apenas 2 anos e com paralisia cerebral, em Anápolis (GO), fingiam brigas para comover seguidores e ganhar mais engajamento nas redes sociais. A informação foi passada pela delegada Aline Lopes.

A Polícia Civil comunicou que os pais da menina se separaram amigavelmente há aproximadamente um mês, mas fingiam ter uma relação conturbada nas redes sociais para garantir criação de conteúdo. Ainda de acordo com a polícia, eles tinham um acordo verbal de que Igor moraria com a filha. Os seguidores, sensibilizados com a situação, enviavam doações em dinheiro para ajudar nos cuidados com a criança.

“Eles estavam juntos até pouco tempo. Nesse último mês eles se separaram e essa separação se deu de forma amigável, mas eles estariam chamando uma briga pública entre os dois, de forma a gerar mais engajamento”, explicou a delegada.

Entenda o caso

Denúncias de que a menina de dois anos estava sendo negligenciada e que não possuía condições de higiene levaram a investigação da polícia contra os pais dela. A apuração dos fatos foi iniciada na última quinta-feira (20), em Anápolis, interior de Goiás.

A delegada teve acesso às imagens compartilhadas por Igor na internet, quando ele mostrava a rotina da filha, mas em alguns momentos também debochava da criança. Em um dos vídeos investigados, ele chama a filha de inútil após pedir que ela vá ao mercado. O influenciador passou a ser suspeito de maus-tratos e por causar constrangimento à criança. 

A polícia afirmou que novas denúncias surgiram, com a alegação de que o dinheiro doado pelos seguidores também era desviado para benefício dos pais. Até a tarde desta terça-feira (25), Aline Lopes confirma que já existem mais de 30 denúncias contra o casal, inclusive de pessoas próximas.

Uma das denúncias afirma que Ana Vitória, mãe da criança, fez uma cirurgia plástica com dinheiro doado para a filha. Com isso, os dois são investigados por estelionato e desvio de proventos de pessoa com deficiência, sendo Igor de forma direta e Ana Vitória na modalidade de omissão.

“Tudo que acontecia com ela, a exposição, o desvio, aconteceu enquanto morava com a mãe também. Então, ainda que ela não seja autora direta, se ficar comprovado que ela não atuou para impedir o que o pai vinha fazendo, ela também pode ser responsabilizada pelos mesmos crimes, mas na forma omissiva”.

'Vontade de largar no orfanato'

Igor usou o argumento, em entrevista ao g1, que a filha não tem PIX e que o dinheiro era enviado para a conta dele, portanto, ele não era obrigado a gastar apenas com a menina. Sobre os vídeos ironizando a filha, o pai alegou que a criança “é chata” e que já deu muito trabalho para ele, tendo vontade às vezes “de largar na porta do orfanato”.

"Minha filha não tem PIX, então se eles foram trouxas, a culpa não é minha. Eu não sou obrigado a usar o dinheiro que eles mandam especificamente com a minha filha. Eu também tenho necessidade de serem supridas. Também sou um ser humano. Eu não imaginava que uma criança que tem 10% do cérebro funcionando fosse tão chata e pudesse me dar tanto problema. A vontade, às vezes, é de largar na porta do orfanato e deixar alguém se virar, alguém tomar conta".

A delegada explicou que os deboches do pai expõem uma situação de constrangimento para a filha.“Você não está fazendo uma brincadeira, você está expondo e causando constrangimento, não só a ela, mas a todas as crianças com deficiência, além da fala problemática no final. Tem outras postagens em que ele inferioriza a menina, causando constrangimento a ela pela condição de pessoa com deficiência”, destacou a delegada.

O que fez o Conselho Tutelar

A menina foi retirada da residência pelo Conselho Tutelar e levada para a casa da avó paterna. No boletim de ocorrência, consta que, durante o momento em que o Conselho fazia a retirada da criança, o pai se comportou de "forma debochada", com piadas e observações de "mau gosto".

"Ele debochou muito, dizendo que graças a mim agora ele vai ficar mais famoso do que ele já é. Chegou a fazer caretas imitando a criança. Foi de um absurdo tão grande que me revoltou de uma forma que eu não sei nem explicar a indignação que eu senti", lamentou a conselheira Grazielle Ramos.

Em entrevista ao g1, Igor afirmou que debochou da conselheira tutelar em resposta a um suposto deboche dela. O influenciador explicou que não pode ver a filha e que, agora, apenas a mãe tem acesso à criança.

Defesa de Ana Vitória

Em nota, a defesa explicou que Ana Vitória já se apresentou à polícia e prestou esclarecimentos. Ela informou que não pode fornecer mais detalhes sobre a investigação pois ela ocorre sob sigilo, porém diz que está convicta na inocência da influenciadora. Veja na íntegra:

"A defesa da Sra. Ana Vitória Alves dos Santos, vêm por meio desta esclarecer que a Sra. Ana Vitória já se apresentou espontaneamente junto a delegacia de proteção à criança e adolescente – DPCA da Cidade de Anápolis/GO, para prestar todos os esclarecimentos que o caso requer.

Informamos ainda que para proteção da integridade da menor S.A.V, bem como por se tratar de inquérito policial que tramita sob sigilo, a defesa e os envolvidos estão impedidos de prestar informações mais detalhadas sobre a investigação; ressaltando que todas as provas necessárias a elucidação dos fatos serão fornecidas a autoridade Policial que preside o inquérito.

Por fim, a defesa informa que está convicta que ao final das investigações o caso será esclarecido a sociedade, sendo que a investigada provará sua inocência".

*Com informações do g1