Cientistas identificaram a causa principal das doenças inflamatórias intestinais (DIIs), como a doença de Crohn e a colite ulcerativa, o que pode mudar a compreensão dessas condições e suas abordagens terapêuticas.
No Brasil, as internações por DIIs aumentaram mais de 60% em uma década, refletindo um crescimento significativo no número de casos, com dados indicando quase 24 mil internações em 2024.
A pesquisa sugere que novos tratamentos podem ser desenvolvidos para atacar os autoanticorpos relacionados à interleucina-10, além de possibilitar a criação de exames de sangue para identificar pacientes em risco, visando tratamentos mais eficazes e menos onerosos.
Após décadas de investigação, a causa principal das doenças inflamatórias intestinais (DIIs) pode ter sido finalmente identificada por cientistas. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (10) no jornal científico New England Journal of Medicine.
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Os resultados podem reformular a compreensão dessas doenças, que incluem a doença de Crohn e a colite ulcerativa. Além disso, a pesquisa confirma que não se trata de uma condição isolada, mas de um grupo de enfermidades biologicamente distintas, impulsionadas por diferentes mecanismos subjacentes.
No Brasil, em apenas dez anos, as internações por doenças inflamatórias intestinais cresceram mais de 60%, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. O número subiu de pouco menos de 15 mil registros, em 2015, para quase 24 mil internações, em 2024.
Análise de pacientes
Pesquisadores da Universidade de Oxford, Universidade de Newcastle e Cambridge University Hospitals NHS Foundation Trust, no Reino Unido, analisaram mais de 4.900 pacientes com essas doenças.
Os pesquisadores identificaram que uma parcela significativa dos participantes apresentava respostas autoimunes a um dos guardiões do sistema imunológico: a interleucina-10 (IL-10). Isso levava à uma inflamação descontrolada que desencadeia um dos fatores de risco genéticos mais fortes conhecidos para as doenças inflamatórias intestinais.
Foram detectados altos níveis de autoanticorpos neutralizantes anti-IL10 no sangue de aproximadamente 3,5% dos pacientes, tanto com doença de Crohn quanto com colite ulcerativa, mas não em indivíduos saudáveis. No Reino Unido, isso poderia equivaler a 15 mil a 20 mil pessoas portadoras desses autoanticorpos sofrendo os efeitos das doenças inflamatórias intestinais.
Essas condições crônicas, que começam normalmente na adolescência ou no início da idade adulta, podem exigir internações hospitalares repetidas, uso prolongado de medicamentos imunossupressores e, em alguns casos, cirurgia. Além do desgaste individual, a busca por tratamento custa milhões ao sistema de saúde.
Conforme a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (HU Brasil), os sintomas mais comuns são diarreia crônica, presença de sangue ou muco nas fezes, dor abdominal, perda de peso e fraqueza. No caso da Doença de Crohn, a inflamação pode ocorrer em qualquer parte do trato gastrointestinal, sendo mais comum no final do intestino delgado e cólon direito. Já a etocolite ulcerativa acomete o cólon e o reto.
Variante genética
A nova pesquisa também descobriu que a presença dos anticorpos estava fortemente ligada à variante genética conhecida como "HLA-DRB1*01:03". A ligação entre o alelo dessa variante e uma forma grave de doença inflamatória intestinal foi identificada pela primeira vez por pesquisadores de Oxford há 30 anos.
Desta vez, os cientistas compreenderam que pessoas portadoras dessa variante têm chance muito maior de desenvolver anticorpos que bloqueiam a interleucina-10. “Há décadas que suspeitamos do importante papel da interleucina 10 em pacientes com doença inflamatória intestinal", lembra o gastroenterologista pediátrico Holm Uhlig, um dos autores principais do estudo, em comunicado.
Ele destaca que as descobertas no grupo avaliado pode abrir caminho para novos tratamentos que visam os próprios autoanticorpos ou as células que produzem esses autoanticorpos. Os cientistas também esperam que os achados possam ajudar a desenvolver um exame de sangue para identificar esse subgrupo de pacientes.
Já Sophie Hambleton, professora de Pediatria e Imunologia da Universidade de Newcastle, destaca que a base para a pesquisa foi realizada há mais de 10 anos, quando os defeitos genéticos na interleucina-10 foram encontrados em crianças pequenas com doenças inflamatórias intestinais graves.
“Ao identificarmos os pacientes precocemente e oferecermos tratamento direcionado, poderíamos reduzir a dependência de terapias contínuas e dispendiosas e prevenir complicações", conclui o imunologista clínico Rainer Doffinger, do Cambridge University Hospitals NHS Foundation Trust.
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