Sintoma comum pode estar relacionado a doenças respiratórias, cardíacas, vasculares, pleurais e até oncológicas
Sentir falta de ar após um esforço intenso pode acontecer. Mas quando a respiração começa a limitar atividades simples, aparece em repouso, piora com o tempo ou vem acompanhada de outros sintomas, atribuir tudo à idade, ao sedentarismo ou à asma pode atrasar diagnósticos importantes.
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A falta de ar, chamada tecnicamente de dispneia, não é uma doença em si. É um sintoma. E, por isso, precisa ser interpretado dentro de um contexto clínico: quando começou, em que situações aparece, se está piorando e quais outros sinais acompanham o quadro.
De acordo com o cirurgião torácico Dr. Alessandro Mariani, professor doutor de cirurgia torácica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e preceptor de cirurgia torácica robótica, o problema não é sentir cansaço em uma situação pontual, mas normalizar uma mudança no padrão respiratório.
“Uma pessoa pode ficar ofegante porque está sem condicionamento físico. Mas quando a falta de ar é nova, progressiva, desproporcional ao esforço ou vem acompanhada de outros sinais, ela precisa ser investigada. O erro é transformar um sintoma importante em uma explicação automática: ‘é idade’, ‘é ansiedade’, ‘é sedentarismo’ ou ‘é só asma'”, explica o médico.
As causas da falta de ar podem ser diversas. Algumas são respiratórias, como asma, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), pneumonias, fibrose pulmonar, derrame pleural, pneumotórax e câncer de pulmão. Outras são cardíacas, vasculares, metabólicas ou hematológicas, como insuficiência cardíaca, arritmias, embolia pulmonar e anemia. Também podem contribuir fatores como obesidade, descondicionamento físico e ansiedade.
“Falta de ar não é um diagnóstico. É uma pista. O papel da avaliação médica é entender o que essa pista está tentando mostrar”, explica o Dr. Alessandro Mariani.
Entre as doenças que podem ser confundidas com “fôlego ruim”, está a DPOC. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa doença é a terceira principal causa de morte no mundo e foi responsável por 3,4 milhões de óbitos em 2023. Ela pode causar falta de ar, tosse crônica, cansaço e produção de secreção.
A asma também é uma causa comum de falta de ar, chiado e aperto no peito, mas nem toda falta de ar com chiado é necessariamente asma. E nem todo paciente que já teve asma no passado deve atribuir qualquer piora respiratória à mesma condição.
“É comum o paciente chegar dizendo que sempre teve bronquite, sempre teve asma ou sempre foi mais cansado. Mas o ponto é entender se algo mudou: a falta de ar ficou mais frequente? Aparece com esforços menores? Acorda o paciente à noite? Veio com dor, febre, tosse persistente, catarro com sangue ou perda de peso? Essas perguntas mudam completamente a interpretação”, afirma o professor.
O câncer de pulmão também pode entrar na investigação quando a falta de ar aparece associada a tosse persistente, dor no peito, rouquidão, sangue no escarro, perda de peso ou pneumonias de repetição. A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indica que o Brasil deve registrar 35.380 novos casos de cânceres de traqueia, brônquio e pulmão por ano no triênio 2026-2028.
Isso não significa que toda falta de ar seja câncer. Na maioria das vezes, não é. Mas sintomas respiratórios persistentes, progressivos ou associados a sinais de alerta não devem ser ignorados.

Outro ponto de atenção são as doenças da pleura, membrana que reveste o pulmão e a parede interna do tórax. Derrame pleural, empiema, pneumotórax e espessamentos pleurais podem causar falta de ar e, em alguns casos, dor torácica. Essas situações podem estar relacionadas a infecções, doenças inflamatórias, trauma, complicações de procedimentos ou câncer.
“Nem toda falta de ar chega ao cirurgião torácico. Muitas vezes, o primeiro caminho é a avaliação clínica, pneumológica ou cardiológica. Mas quando há alterações no pulmão, na pleura, no mediastino ou na parede torácica, a cirurgia torácica pode participar da investigação, da definição diagnóstica ou do tratamento”, explica o Dr. Alessandro Mariani.
A falta de ar merece atenção quando:
A falta de ar súbita merece atenção imediata, principalmente quando vem com dor no peito, desmaio, palpitações, confusão mental, queda de saturação ou piora intensa em pouco tempo. Esses quadros podem indicar situações graves, como embolia pulmonar, pneumotórax, crise asmática importante, infarto, arritmia, edema pulmonar ou infecção grave. Nesses casos, é importante procurar um pronto-socorro.
Segundo o Dr. Alessandro Mariani, um erro frequente é tratar o sintoma sem entender a causa. “Dar um broncodilatador, um antibiótico ou simplesmente recomendar exercício pode fazer sentido em alguns casos. Mas pode ser insuficiente ou até atrasar o diagnóstico se a causa real da falta de ar não for aquela. O tratamento correto depende da pergunta correta”, explica.
Para o especialista, respirar mal não deve ser tratado como parte inevitável do envelhecimento. “Envelhecer pode mudar a capacidade física, mas não deve servir como explicação automática para todo sintoma. Quando a falta de ar muda a vida do paciente, ela precisa ser levada a sério”, finaliza.
Por Mariana Lanfranchi
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