Trânsito

Filho de chefe do Detran de São Paulo bebe, dirige e mata jovem

09/07/16 - 18h34 - Atualizado em 09/07/16 - 18h46


"Me ajuda a deixar esse cara na cadeia. O que ele fez não tem perdão”. Esse foi o pedido desesperado de Gilberto Ribeiro, pai que perdeu seu filho de forma brutal. 

Por conta de um jovem que havia bebido e dirigia em alta velocidade, o estudante Lucas Magalhães dos Reis, de 16 anos, morreu atropelado, na manhã de de sexta-feira (8), na Lapa, Zona Oeste.

O responsável pelo acidente, o universitário Rodrigo Monteiro Sze, 20, é filho da superintendente do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) da capital, Silvia Monteiro Sze. Ele também atropelou a avó de Lucas, Vera Lúcia Gomes Ribeiro, 66, que está internada na UTI.

O adolescente ia para o último dia de aula antes de entrar em férias em uma escola técnica apenas para entregar um trabalho. A avó foi acompanhá-lo até o ponto e acabaram atropelados quando estavam em uma “ilha” cercada por blocos de contensão na Rua Jasper Negro.

Lucas acabou arremessado para a calçada.  O veículo também atravessou a ilha, bateu em um poste e só parou ao colidir em um táxi.

De acordo com a polícia, o universitário contou que vinha de uma balada na Barra Funda, Zona Oeste, e perdeu o controle do veículo. O estudante confessou que bebeu e dirigia a 80 km/h, sendo que o máximo permitido na via é 50 km/h.

No local, ele fez o teste do bafômetro que deu 0,26 mg/l, o que não é considerado crime e sim uma infração administrativa – para responder pelo delito é preciso ser superior a 0,36 mg/l. Porém, o delegado assistente Gilberto Tadeu Barreto, do 91 DP (Ceasa), entendeu que Rodrigo assumiu o risco após ter bebido e dirigido em alta velocidade. Por isso, o jovem acabou preso. 

“Ocorreu um conjunto de fatores e minha interpretação foi pelo homicídio doloso (quando há intenção de matar). Ele bebeu, não dormiu e estava em alta velocidade”, disse.

A família de Lucas estava revoltada com o acidente. “Até quando isso vai acontecer? Ele estragou com uma família inteira. A avó dele que está no hospital e nem sabe que o neto morreu... Ele era a vida dela (os dois moravam na mesma casa). Vamos lutar até o fim por justiça”, disse o advogado e tio do estudante Agnaldo Ribeiro Alves, 45.

Para advogado, acidente não passou de tragédia

O advogado Marcelo Feller, que defende o estudante Rodrigo Monteiro Sze, disse que o acidente não passou de  “uma tragédia”, que seu cliente não fugiu do local, prestou socorro e ligou para a Polícia Militar.

Feller afirmou não concordar com a interpretação do delegado, que indiciou seu cliente por homicídio doloso (com intenção) e vai entrar com pedido de habeas corpus. “Ele é um menino bom, nunca fez nada de errado e prestou todo socorro à vítima. Foi ele quem ligou para a PM”, argumentou Feller.

Conforme o defensor, o atropelador está abalado e preocupado com a avó de Lucas, que seguia internada na UTI. A idosa sofreu fraturas na bacia, mas não corre risco de morte. “Ele pergunta a todo momento como está a vítima que sobreviveu. Ele está mais preocupado com ela do que com a situação dele.”

O carro de Rodrigo, um Honda Civic, é rebaixado e está equipado com rodas especiais. O advogado negou, porém, que o veículo tenha sido usado em rachas. “É apenas estética”, disse. Feller informou ainda que o cliente nunca foi preso e nunca havia se envolvido em acidentes. “Ele só teve duas mutas em sua vida por alta velocidade. Eu já tive mais.”

Neste sábado (9), o delegado irá mandar o caso para a Justiça e o juiz vai decidir se decreta a prisão preventiva ou libera Rodrigo para responder ao processo em liberdade. “Não tem motivo para ele ficar preso porque não representa perigo para ninguém.”

O delegado Gilberto Barreto aguarda os laudos necroscópico, do local do crime, e toxicologico.  Os documentos são essenciais para determinar a velocidade do carro.

DEPOIMENTO

Gilberto Ribeiro, pai do estudante Lucas Ribeiro

‘O que ele mais amava o matou’

Meu filho era apaixonado por carros, conhecia todos os modelos e tudo sobre o assunto. No domingo, fomos a uma feira na Luz (Centro) de automóveis. Ele adorou e tirou várias fotos. Por ironia do destino, o que ele mais amava o matou. O Lucas também gostava de guitarra e estava aprendendo a tocar. Fui em Guarulhos comprar o modelo que ele queria. Todos os dias eu o levava no ponto (de ônibus) porque ia muito cedo para a escola. Porém, hoje (ontem), eu trabalhei à noite anterior e minha mãe é quem foi levá-lo e aconteceu isso. Ele amava a escola e o curso de segurança do trabalho que estava fazendo, tanto que foi no último dia só para entregar o trabalho. Meu filho não vai voltar, mas quero que esse homem pague na cadeia por tirar a vida dele e assim não faça isso com mais ninguém. Agora só tenho minha filha de apenas 1 ano e meio e será nela que vou me apoiar. Ele era meu amigo. Fazíamos tudo juntos. Não sei como será minha vida, não é a ordem natural das coisas porque os pais deveriam morrer primeiro.  Não sei como vai ser minha vida novamente. Nosso chão desmoronou e estamos sem rumo. Minha mãe vai ficar arrasada porque fazia de tudo por ele. Ainda bem que conseguimos doar as córneas e seus olhos vão continuar enxergando o mundo.