Edward Patrick, anestesista do NHS, teve que correr para o hospital após receber a notícia de que sua mãe estava em estado crítico devido a convulsões graves, que não respondiam a tratamentos convencionais.
Ao investigar as causas, Edward utilizou inteligência artificial e descobriu que as convulsões poderiam ser um efeito colateral raro de uma deficiência de vitamina B6, possivelmente relacionada ao uso de carbidopa-levodopa, medicamento para Parkinson.
Após a administração de vitamina B6, a atividade convulsiva da mãe cessou rapidamente, levando a equipe médica a considerar mudanças nas práticas de tratamento e a necessidade de mais pesquisas sobre a relação entre a vitamina e complicações neurológicas em pacientes com Parkinson.
Uma ligação às 4h da manhã mudou os planos de Edward Patrick, anestesista do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS). Os médicos informaram que sua mãe, Ann Patrick, estava perto de morrer após sofrer convulsões graves e contínuas. Edward acordou a esposa, Jo, e seguiu com ela e a filha do casal, Lily, de 3 meses, para o hospital, temendo não ter outra oportunidade de se despedir da mãe.
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O anestesista relatou que recebeu uma ligação de um médico do hospital informando que a equipe havia tentado todos os medicamentos anticonvulsivantes, mas nenhum estava funcionando. O médico sinalizou que a mãe de Edward estava morrendo e que a família precisava ir rapidamente à unidade de saúde.
Ao chegar ao hospital em Nottinghamshire, na Inglaterra, Edward encontrou a mãe inconsciente, sofrendo convulsões contínuas e começando a apresentar insuficiência renal.
Diante da falta de respostas ao tratamento, Edward recorreu à inteligência artificial para investigar possíveis causas para o quadro da mãe. Com a ferramenta, analisou artigos médicos recentes e cruzou as informações com os sintomas e o histórico clínico de Ann, até chegar a uma hipótese que decidiu compartilhar com a equipe de neurologia.
"Contei o que havia descoberto. A pesquisa indicou que as convulsões eram quase certamente um efeito colateral raro de uma deficiência de vitamina B6, possivelmente causada pelo uso prolongado de carbidopa-levodopa, medicamento utilizado para tratar o Parkinson", afirmou Edward à BBC.
A equipe médica decidiu administrar vitamina B6 por via intravenosa. Em poucos minutos, a atividade convulsiva cessou. No dia seguinte, familiares e profissionais de saúde comemoraram a melhora.
"Como anestesista, Edward tem um conhecimento sólido de farmacologia clínica, e seu raciocínio fazia sentido. O que não previmos foi a rapidez e a magnitude da resposta. Poucos minutos após a administração de vitamina B6, a atividade convulsiva de Ann cessou", disse Bruno Gran, neurologista dos hospitais universitários de Nottingham.
Além de não ter novas convulsões, Ann apresentou melhora nos sintomas cognitivos relacionados ao Parkinson. "É como se tivéssemos nossa mãe de volta. Cognitivamente, é como se tivesse voltado cinco a dez anos no tempo", contou Edward.
O que se sabe sobre a relação entre vitamina B6 e Parkinson?
A doença de Parkinson é progressiva e afeta o cérebro, o sistema nervoso e o controle dos movimentos. As evidências clínicas sobre a ligação entre a deficiência de vitamina B6 em pessoas com Parkinson e seus possíveis efeitos ainda são limitadas. Especialistas ouvidos pela BBC afirmaram que essa relação é desconhecida por muitos profissionais de saúde do Reino Unido.
Em 20 de março de 2026, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) anunciou que exigiria a inclusão de alertas nas informações de prescrição de medicamentos que contêm carbidopa-levodopa. A agência informou que esses remédios podem causar deficiência de vitamina B6 e convulsões associadas à falta da vitamina.
O alerta foi baseado em uma análise de 14 casos de convulsões associadas à deficiência de B6 em pacientes que utilizavam esses medicamentos. Nos casos analisados, as crises não respondiam aos anticonvulsivantes tradicionais, mas cessaram após a administração da vitamina. A FDA ressalvou que podem existir outros casos que não foram identificados.
Para Graham Johnson, consultor em medicina de emergência e co-líder do grupo de Pesquisa em Medicina de Emergência em Derby, na Inglaterra, o caso de Ann pode contribuir para ampliar o conhecimento científico sobre o tema. "Às vezes, as melhores ideias de pesquisa surgem das histórias dos pacientes, e os especialistas em Parkinson agora podem usar este caso para construir uma base de evidências mais ampla por meio de estudos e ensaios clínicos", afirmou.
"Acho que isso pode ter amplas repercussões para outras pessoas. Sei que a equipe médica da minha mãe apresentou o caso dela a colegas, e isso levou a mudanças nas práticas da região. Eles estão analisando em que casos a suplementação de vitamina B6 pode ser apropriada", complementou Edward.
A organização britânica Parkinson's UK também defende a realização de mais pesquisas. "Isso é necessário para nos ajudar a compreender as conexões. As descobertas e recomendações podem transformar o atendimento às pessoas com Parkinson", afirmou Caroline Rassell, diretora-executiva da entidade.
Apesar do resultado positivo no caso de Ann e dos alertas sobre os medicamentos, ainda são necessárias mais pesquisas para compreender melhor a relação entre a deficiência de vitamina B6 e as complicações neurológicas, além de determinar como identificar e tratar esses casos com segurança.
Pacientes não devem alterar os medicamentos nem começar a tomar suplementos por conta própria. É importante notar também que doses excessivamente altas de vitamina B6 podem causar problemas. Caso uma pessoa esteja preocupada com seus níveis da vitamina, a orientação é procurar uma equipe médica e realizar exames antes de iniciar qualquer suplementação.
Depois de se recuperar, Ann voltou a passar momentos com a família. Já em condições de segurar a neta mais nova, recebeu a visita do filho e da filha, Katy, e conseguiu ler uma história para o bebê ainda da cama do hospital.
"Ela é absolutamente maravilhosa. Conseguimos vê-la com bastante frequência. Sou muito, muito grata a Edward e ao restante da família. Parece uma coisa tão pequena, que um 'pouquinho de vitamina' possa fazer a diferença entre a vida e a morte", afirmou Ann.
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