Queda hormonal, piora do sono, ansiedade e alterações cerebrais ajudam a explicar comportamentos disfuncionais ligados à alimentação
A transição para a menopausa envolve uma série de mudanças hormonais e metabólicas que podem influenciar diretamente o controle do peso e a relação da mulher com a alimentação. Se antes era mais fácil manter o peso ou controlar o apetite, entre os 40 e 55 anos esse cenário pode mudar significativamente. Nesse período, é comum surgir um aumento da chamada fome emocional, fenômeno conhecido na ciência como reatividade a estímulos alimentares.
LEIA TAMBÉM
“Nem sempre o problema é fome. Muitas mulheres, principalmente na transição menopausal, desenvolvem maior reatividade a estímulos alimentares, ou seja, o cérebro passa a responder com mais intensidade a gatilhos como estresse, privação de sono, ansiedade, imagens de comida ou até hábitos condicionados”, explica a Dra. Ana Paula Fabricio, ginecologista com pós-graduação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).
A endocrinologista Dra. Deborah Beranger, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ), ressalta que situações de estresse, ansiedade e sofrimento emocional podem alterar os mecanismos de recompensa cerebral e influenciar o comportamento alimentar, aumentando a busca por alimentos hiperpalatáveis, geralmente ricos em açúcar, gordura e sódio. “Esse padrão, quando frequente, pode contribuir para ganho de peso e piora de parâmetros metabólicos, especialmente quando associado a sedentarismo, privação de sono e baixa qualidade alimentar”, diz.
Segundo a Dra. Ana Paula Fabricio, não é incomum ouvir pacientes dizendo que sempre tiveram controle sobre a alimentação e, de repente, passam a beliscar mais, sentir desejo intenso por doces ou comer mesmo sem fome física. “Muitas vezes isso não tem relação com falta de disciplina, mas com alterações hormonais e neuroquímicas próprias dessa fase”, explica.
A médica explica que, durante o climatério e a menopausa, a redução progressiva dos níveis de estrogênio e progesterona provoca alterações que vão muito além da fertilidade. “Essas mudanças afetam diretamente neurotransmissores envolvidos em humor, motivação, recompensa e controle do apetite, como serotonina, dopamina e noradrenalina”, diz.
Esse conjunto de alterações pode favorecer episódios de fome emocional. “O estrogênio, por exemplo, exerce papel importante na sensibilidade à insulina, no gasto energético e também na modulação de centros cerebrais ligados à saciedade. Com sua queda, algumas mulheres podem apresentar maior resistência insulínica, pior resposta de saciedade e aumento da busca por alimentos de rápida recompensa”, afirma a Dra. Ana Paula Fabricio.

Estados emocionais influenciam circuitos de recompensa, saciedade e tomada de decisão alimentar. Segundo a ginecologista, nessa fase, o cérebro passa a interpretar alguns alimentos quase como uma estratégia de alívio. “O problema é que esse conforto costuma durar pouco, criando ciclos repetitivos de culpa, ansiedade e novo consumo”, destaca.
Ademais, outros sintomas da menopausa podem favorecer escolhas alimentares mais impulsivas. “Além das alterações metabólicas, sintomas clássicos da menopausa, como ondas de calor, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e a chamada ‘névoa mental’, também podem contribuir para escolhas alimentares mais impulsivas”, diz a Dra. Ana Paula Fabricio.
Privação de sono, por exemplo, está associada ao aumento de hormônios relacionados ao apetite, como grelina, e à redução de sinais de saciedade mediados por leptina, explica a ginecologista. “Ao mesmo tempo, o aumento crônico de cortisol, comum em mulheres sob estresse persistente, favorece maior acúmulo de gordura abdominal e maior desejo por alimentos altamente palatáveis”, ressalta.
Como consequência, a relação com a comida tende a se tornar mais desafiadora. “A paciente muitas vezes acredita que perdeu força de vontade, quando na realidade está enfrentando uma combinação de privação de sono, sobrecarga mental, oscilação hormonal e hiperativação do sistema de estresse. Tudo isso altera a relação com a comida”, alerta a médica.
Reconhecer a reatividade a estímulos alimentares é um passo importante no tratamento. “Entre os sinais de alerta, estão: vontade súbita e intensa de doces ou massas; episódios de ‘beliscar’ sem perceber; comer para aliviar tensão, tristeza ou exaustão; sensação de culpa após a alimentação; e dificuldade de parar mesmo após sentir-se satisfeita”, explica a Dra. Ana Paula Fabricio.
Por isso, o tratamento do ganho de peso nessa fase deve considerar os diferentes fatores. “Abordar ganho de peso feminino, especialmente na menopausa, exige uma visão integrada que considere saúde hormonal, qualidade do sono, composição corporal, manejo do estresse, atividade física e comportamento alimentar. Quando tratamos apenas a dieta, mas ignoramos sono ruim, ansiedade, resistência insulínica ou deficiência hormonal, muitas mulheres entram em ciclos repetidos de emagrecer e recuperar peso. O corpo feminino na menopausa precisa de uma estratégia mais inteligente e personalizada”, comenta a ginecologista.
Neste caso, segundo a Dra. Deborah Beranger, o mais indicado é o acompanhamento multidisciplinar. “O tratamento envolve uma equipe multidisciplinar, com psicólogo, médicos e suporte nutricional”, afirma. Assim, estratégias que considerem esse conjunto de mudanças tendem a ser mais eficazes do que focar apenas a restrição alimentar. “Mais do que contar calorias, entender o que o cérebro, os hormônios e as emoções estão comunicando pode ser o primeiro passo para recuperar o controle alimentar. Mas isso deve acontecer sem transformar cada refeição em uma batalha”, finaliza a Dra. Ana Paula Fabricio.
Por Maria Claudia Amoroso
+Lidas