Uma carta militar de 1809, escrita por Napoleão Bonaparte, foi decifrada com o uso de inteligência artificial, revelando informações estratégicas sobre as forças francesas e aliadas antes da guerra contra a Áustria.
O engenheiro Carter Church utilizou o modelo GPT-6 Astra para transcrever e decifrar a mensagem, que continha 1,3 mil sinais codificados, em um processo que levou cerca de seis horas.
Após a decodificação, a mensagem foi validada por um criptógrafo e agora é considerada resolvida, destacando o potencial da IA como ferramenta de pesquisa histórica ao integrar múltiplas disciplinas em uma única operação.
Uma carta militar escrita em 1809, durante os preparativos de Napoleão Bonaparte para a guerra contra a Áustria, foi decifrada 217 anos depois com auxílio de IA (inteligência artificial). A mensagem, destinada ao marechal Auguste de Marmont, estava registrada em uma reprodução de baixa resolução publicada em 1969 e continha cerca de 1,3 mil sinais, entre números, letras e símbolos desenhados à mão, que codificavam o texto.
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O trabalho de "tradução" da mensagem foi realizado pelo engenheiro de inteligência artificial Carter Church, que usou o modelo GPT-6 Astra, da OpenAI (criadora do ChatGPT) para transcrever a imagem, identificar padrões e reconstruir a chave do código. Segundo publicação feita por Church nas redes sociais na última quarta-feira (30), todo o processo levou cerca de seis horas de execução do modelo a partir de uma única imagem e de um comando. Veja:
A solução foi posteriormente revisada por Satoshi Tomokiyo, engenheiro de patentes e criptógrafo responsável pelo site Cryptiana, que reúne registros de cifras históricas ainda não decifradas. Após a análise, o caso passou a ser classificado como resolvido no site, segundo relato publicado pelo próprio responsável pelo projeto em seu site.
Mais do que revelar uma mensagem desconhecida, o episódio mostra como a IA pode servir como uma ferramenta de pesquisa ao juntar, em uma mesma operação, tarefas que tradicionalmente exigiriam especialistas diferentes: leitura de documentos antigos, transcrição de manuscritos, pesquisa histórica e análise de códigos.
Mensagem enviada pouco antes da guerra
A carta foi escrita nos últimos dias de março de 1809, pouco antes da invasão da Baviera pelo Império Austríaco. Naquele momento, Marmont comandava cerca de 13 mil soldados na Dalmácia, região situada do outro lado do mar Adriático e separada dos demais exércitos franceses por território austríaco.
Napoleão precisava que o general soubesse onde estavam posicionadas as forças francesas e aliadas e, ao mesmo tempo, queria reduzir o risco de que as informações fossem descobertas caso a correspondência fosse interceptada.
Em 16 de março de 1809, o imperador instruiu seu enteado Eugène de Beauharnais, vice-rei da Itália, a escrever a Marmont e informar, por meio de uma mensagem cifrada, a posição dos exércitos. A existência dessa ordem já era conhecida dos historiadores porque ela foi publicada na correspondência de Napoleão no século 19.
A carta localizada no arquivo histórico começa com uma frase em francês simples e, na sequência, apresenta 24 linhas de símbolos codificados. Durante décadas, ela permaneceu entre os exemplos de cifras históricas consideradas não resolvidas pela Cryptiana.
A reprodução disponível havia sido publicada em 1969, em um artigo do tenente-coronel J. Vilcoq na Revue historique des Armées. O problema é que o periódico apresentava a data da carta de forma incorreta e não trazia a chave necessária para interpretar os símbolos.
IA precisou primeiro “ler” a carta
O desafio não consistia apenas em descobrir a mensagem escondida. Antes disso, era necessário transformar a imagem em dados que pudessem ser analisados.
De acordo com Church, a carta reúne 155 sinais diferentes e cerca de 1,3 mil unidades cifradas. O sistema era uma cifra homofônica, um método em que uma mesma letra pode ser representada por diferentes símbolos. Isso dificulta a análise tradicional baseada na frequência com que cada letra aparece.
A inteligência artificial precisou identificar quais marcas desenhadas à mão correspondiam ao mesmo símbolo, organizar a carta em linhas e construir uma transcrição. O trabalho chegou a 1.320 unidades e 175 rótulos provisórios antes da reconciliação final dos sinais, conforme a descrição do projeto.
Uma parte importante do caminho já estava disponível. Uma tabela elaborada pelo historiador da criptologia Daniel Tant registrava os possíveis significados de 33 valores de letras. Esses dados correspondiam a 435 das 1.300 unidades da carta, pouco mais de um terço do total. O restante precisou ser inferido a partir da própria imagem.
Decodificação da mensagem
Depois da transcrição, o modelo testou diferentes combinações para descobrir quais atribuições produziam um texto coerente em francês. O responsável pelo projeto afirma que o processo utilizou recozimento simulado, um método computacional de busca que experimenta diversas soluções possíveis e mantém aquelas que melhoram o resultado.
Nesse caso, o sistema comparou os textos produzidos com padrões da língua francesa e testou as hipóteses repetidamente. A etapa também identificou símbolos que não representavam letras isoladas, mas palavras inteiras, como “de”, “que”, “les”, “vous” e “général”.
A cada hipótese, o sistema voltava à imagem original para verificar se o mesmo símbolo recebia o mesmo significado em todas as aparições. Essa checagem é importante porque uma solução aparentemente legível poderia estar errada se dependesse de interpretações diferentes para o mesmo sinal.
“A verificabilidade das soluções é, na verdade, a parte mais difícil, muito mais difícil do que gerar soluções potenciais”, aponta Church, em entrevista ao site Live Science. “A princípio, não acreditei. Todos já viram um modelo afirmar algo absurdo, mas a diferença aqui é que a solução é mecanicamente testável."
Conteúdo da carta
A mensagem reconstruída informa a Marmont onde estavam diferentes forças francesas e aliadas. Entre elas aparecem os exércitos sob o comando de nomes conhecidos das Guerras Napoleônicas, como Davout, Masséna e Bernadotte, além de tropas bávaras, polonesas e saxãs.
A carta também descreve a movimentação das forças austríacas e procura tranquilizar Marmont diante da possibilidade de enfrentar o inimigo. Em determinado trecho, o remetente afirma que, ao receber a ordem de marcha, o general não deveria se deixar intimidar por “algumas tropas ou uma reunião de ralé”.
O conteúdo corresponde, em grande parte, ao que Napoleão havia ordenado que Eugène transmitisse ao general. A correspondência de 16 de março de 1809 já determinava que a mensagem deveria apresentar a disposição dos exércitos franceses e aliados.
Essa correspondência anterior funcionou como uma espécie de teste independente da decodificação: a mensagem recuperada pela IA traz os mesmos exércitos, os mesmos números de soldados e as mesmas regiões mencionadas na ordem de Napoleão.
A decodificação também ajudou a esclarecer a data do documento. A entrada antiga da Cryptiana apresentava a carta como sendo de 1807, mas a reconstrução do contexto indica março de 1809. Dessa maneira, a carta se encaixa entre as instruções de Napoleão de 16 e 24 de março e a passagem das tropas austríacas pelo rio Inn, em 10 de abril.
Tal nova leitura também preenche uma lacuna em uma versão publicada das ordens de Napoleão para Marmont. O texto do imperador, reproduzido em suas memórias, interrompia uma frase depois da expressão equivalente a “um punhado de...”. Na carta agora decifrada aparece a continuação: “algumas tropas ou uma reunião de ralé”.
Os responsáveis pelo projeto, no entanto, lembram que isso não prova necessariamente quais foram as palavras exatas usadas por Napoleão no documento original. Isso porque a carta de Eugène pode ter parafraseado a instrução recebida.
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