A inteligência artificial já está entrando nas empresas antes mesmo de o empreendedor decidir adotá-la. Está presente quando um funcionário usa uma conta pessoal do ChatGPT para responder a um e-mail, quando um setor recorre ao Gemini para interpretar um documento ou quando um profissional fornece informações internas a uma plataforma para produzir uma análise. O uso parece pontual, mas já influencia decisões, processos e estratégias dos negócios.
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O alerta foi feito pelo executivo de inteligência artificial Marcos Betiati durante o 3º Conecta Contábil Ascontal, realizado no Centro de Convenções de Arapiraca. O evento reuniu cerca de mil empresários, gestores e profissionais da contabilidade. Na palestra “IA para Negócios e o Fim da Contabilidade Reativa”, ele afirmou que já não existem operações integralmente humanas nas organizações.
“Todas as nossas operações já são influenciadas pela inteligência artificial. Ninguém escolheu isso formalmente, mas a tecnologia já está presente no cotidiano das empresas”, afirmou.
Betiati explicou que a mudança ocorre de maneira silenciosa. Um funcionário pede à IA que escreva um e-mail. Do outro lado, quem recebe utiliza outra plataforma para interpretar a mensagem e elaborar a resposta. Quando esse processo acontece sem revisão e sem o conhecimento da gestão, a IA passa a interferir não só na comunicação, mas também nas regras do negócio.
Em um dos casos relatados pelo executivo, diferentes pessoas utilizaram modelos de IA para analisar e responder a uma mensagem. O resultado foi uma combinação de interpretações que poderia provocar uma mudança importante na estratégia da empresa, sem que o gestor tivesse plena consciência do que estava sendo decidido.
Uso invisível da IA tem nome
Esse fenômeno é conhecido como Shadow AI, ou IA oculta, em português. O termo define o uso de inteligência artificial sem registro, orientação, controle ou autorização formal da empresa.
Para Betiati, tentar impedir que os funcionários utilizem IA não resolve o problema. O caminho é estabelecer regras claras sobre quais ferramentas podem ser usadas, que tipos de informação podem ser compartilhados, quem deve revisar o conteúdo produzido e quais decisões precisam, obrigatoriamente, passar por avaliação humana.
“A IA já tem poder de influência. O que falta é um uso registrado, documentado e estratégico. A única forma de harmonizar as inteligências individual, coletiva e artificial é por meio da governança”, destacou.
A ausência desses critérios pode expor informações internas, gerar interpretações equivocadas e permitir que decisões relevantes sejam tomadas com base em respostas produzidas por sistemas que não conhecem integralmente a realidade da empresa.
Hospital reduziu processo para 15 minutos
O uso planejado da tecnologia, por outro lado, pode melhorar processos e reduzir o tempo de resposta. Betiati apresentou o exemplo de um hospital que levava entre uma hora e meia e duas horas para concluir a solicitação, a prescrição, a separação e a entrega de um medicamento ao paciente.
Com a integração das etapas e a aplicação da inteligência artificial, o processo passou a ser realizado em cerca de 15 minutos. A partir da comunicação da equipe de enfermagem, o sistema aciona o médico, verifica a disponibilidade do medicamento, informa a farmácia, mobiliza a logística e avisa aos profissionais quando o produto está a caminho.
Nenhum trabalhador foi substituído. A tecnologia passou a conectar pessoas e setores que já participavam do processo, eliminando intervalos e falhas de comunicação.
O caso também revelou que a inovação depende de uma mudança de comportamento. Mesmo com o novo sistema em funcionamento, uma profissional tentou resolver uma solicitação por telefone e WhatsApp porque não havia compreendido completamente a nova dinâmica.
“O que faltava era clareza sobre as inteligências individuais, coletivas e artificiais envolvidas. A operação havia se tornado humana e artificial ao mesmo tempo”, explicou Betiati.
Para o executivo, é nesse ponto que a maioria das empresas erra ao adotar a tecnologia.
“IA não resolve negócio confuso. Ela só acelera a confusão”, afirmou.
O que fazer com o tempo economizado?
Na avaliação do executivo, a discussão central não deve se limitar às tarefas que a IA consegue executar. Empresas e profissionais precisam definir o que farão com o tempo liberado pelo uso da inteligência artificial.
Esse tempo pode ser utilizado para atender mais clientes, desenvolver novos produtos, melhorar processos, acompanhar os resultados da empresa ou investir na qualidade de vida das equipes. A escolha depende dos objetivos de cada negócio.
“A IA pode ser um motor de crescimento ou de alívio de tempo. O erro é não ter clareza sobre o que se pretende fazer com o tempo que ela devolve”, afirmou.
Betiati defendeu que a implantação da IA nos negócios siga quatro etapas fundamentais: clareza, planejamento, organização e execução. O ponto de partida, segundo ele, não é a escolha da ferramenta, mas a compreensão, por parte do gestor, de como a operação realmente funciona e a definição de onde se pretende chegar. Essa é a etapa da clareza.
No planejamento, segundo o executivo, “não existe plano sem indicadores, recursos, riscos e um passo a passo”. Na organização, é preciso definir o que cabe à inteligência artificial, o que depende da inteligência humana e o que exige a atuação conjunta das duas. A execução, por sua vez, não se limita à operação: envolve acompanhamento, ajustes e aprendizado contínuo.
Ferramenta apresentada no palco exemplifica governança
Durante a apresentação, Betiati mostrou ao público Maria Clara, uma inteligência artificial que ele apresenta como sua sócia artificial. A ferramenta conversa com o empresário para identificar pontos de desorganização na operação antes de qualquer projeto de implantação de IA. O acesso foi aberto gratuitamente ao público durante o evento, no endereço mariaclara.ai.
Segundo o executivo, o ponto central não é a existência da ferramenta, mas o fato de ela ser declarada, ter uma função definida e contar com uma pessoa responsável por sua atuação.
“Ela tem nome, tem cargo e tem departamento. Todo mundo sabe que ela existe, o que ela faz e quem responde por ela. É o contrário da Shadow AI, que opera sem ninguém saber e sem ninguém assumir”, afirmou.
Questionado sobre a decisão de abrir o acesso sem cobrança, o executivo disse que clareza não é algo que uma empresa costuma contratar, embora seja o que determina se a IA funcionará ou não naquele ambiente de negócios.
“Ninguém contrata um projeto para descobrir que o próprio negócio está confuso. Mas é exatamente esse o ponto de partida. Se a empresa não enxerga a própria operação, qualquer IA que ela colocar por cima vai acelerar o erro e quebrar o negócio”, afirmou.
Betiati atua como advisor de empresas dos setores de saúde, contabilidade e serviços. Segundo ele, a maior parte dos projetos que chegam até sua consultoria ainda não passou por essa etapa de diagnóstico.
Tecnologia muda o valor do trabalho humano
Para Betiati, a inteligência artificial tende a assumir tarefas técnicas, repetitivas e baseadas em grandes volumes de dados. Isso não elimina a importância dos profissionais. Ao contrário, aumenta o valor de capacidades que a tecnologia ainda não consegue reproduzir integralmente, como empatia, responsabilidade, compreensão do contexto e construção de confiança.
Na contabilidade, o profissional terá mais condições de interpretar informações e orientar o empresário. Na saúde, o médico poderá dedicar mais tempo ao acolhimento do paciente. No setor público, os sistemas poderão analisar dados e identificar anomalias, enquanto o gestor avaliará os impactos sociais das decisões.
“A inteligência artificial não vai substituir o profissional que olha para o outro, procura entendê-lo profundamente e estabelece uma conexão verdadeira”, concluiu.
A transformação, segundo Betiati, já começou. Para as empresas, a decisão deixou de ser usar ou não a inteligência artificial. O desafio agora é descobrir onde ela já está sendo utilizada e assumir o controle desse processo. Na avaliação do executivo, a maior disrupção deste século não é tecnológica, mas humana, provocada pela mudança de comportamento em curso.
Marcos Betiati atua como executive as a service, advisor de negócios e mentor de IA e governança. Trabalha com empresas de saúde, contabilidade e serviços em todo o Brasil, com foco em clareza operacional e melhoria do resultado líquido. Mais informações estão disponíveis em www.mbetiati.pro.
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