Inadimplência do consignado cresce entre trabalhadores privados e cai entre servidores

Publicado em 08/08/2026, às 20h38
Reprodução
Reprodução

Por Folhapress

A inadimplência no crédito consignado tomou caminhos opostos entre trabalhadores do setor público e da iniciativa privada neste ano. Enquanto a taxa entre servidores públicos caiu para 2,6% em junho, o índice entre trabalhadores com carteira assinada chegou a 8,6%, segundo dados do sistema financeiro organizados pelo Banco Central.

No caso dos servidores, a taxa havia atingido 2,9% em dezembro de 2025, maior patamar desde janeiro de 2021. Desde então, o indicador vem recuando e chegou ao menor nível registrado neste ano nos dados mais recentes.

Entre os trabalhadores do setor privado, ocorreu o movimento contrário. A inadimplência era de 5,5% em dezembro do ano passado e subiu continuamente até atingir 8,6% em junho. É o maior percentual registrado desde março de 2011, início da série histórica disponível nas tabelas de crédito do Banco Central.

A diferença entre os dois grupos está relacionada, entre outros fatores, à maior estabilidade do emprego público. No setor privado, a maior rotatividade do mercado de trabalho pode aumentar o risco de inadimplência.

Para Ione Amorim, coordenadora do programa de Serviços Financeiros do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), o avanço registrado entre os servidores no fim do ano passado foi fora do padrão.

Segundo ela, a redução posterior pode estar relacionada a uma oferta de crédito mais criteriosa por parte das instituições financeiras. O movimento ganhou força após os escândalos envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Entre as medidas adotadas pelos bancos, Amorim cita restrições à concessão de empréstimos por correspondentes bancários. Na avaliação dela, critérios mais rígidos na oferta tendem a melhorar a qualidade da carteira de crédito e reduzir a inadimplência.

Consignado privado ganha espaço
A situação é diferente entre os trabalhadores da iniciativa privada. A modalidade passou por uma mudança importante em julho de 2025, quando uma medida provisória alterou as regras para contratação do crédito consignado.

Uma das mudanças permitiu que o próprio trabalhador negociasse o empréstimo diretamente com os bancos, mesmo quando a empresa onde trabalha não tivesse convênio com a instituição financeira.

A alteração foi acompanhada por uma forte expansão da modalidade. Em maio de 2026, o volume da carteira de consignado privado era 2,4 vezes maior que o registrado no mesmo mês do ano anterior.

Para Amorim, a combinação entre o crescimento acelerado da oferta de crédito e a maior rotatividade dos empregos no setor privado ajuda a explicar o aumento da inadimplência.

Alta ainda precisa ser acompanhada
O economista Antonio Ricciardi, da área de pesquisa macroeconômica do banco Daycoval, pondera que ainda é cedo para afirmar que a inadimplência do consignado privado entrou em uma trajetória permanente de alta.

Segundo ele, as novas regras provocaram uma expansão tão significativa da modalidade que o volume atual está muito distante do observado anteriormente. Por isso, a série histórica perdeu parte de sua capacidade de servir como parâmetro de comparação.

A taxa de 8,6% registrada em junho está acima da média histórica de 5,1%. Apesar da alta, Ricciardi afirma que o consignado privado ainda não é a principal fonte de endividamento das famílias brasileiras.

O cartão de crédito continua sendo o principal instrumento associado ao endividamento das famílias.

Gostou? Compartilhe