Alagoas

Meio ambiente seguro: modalidade se torna selo de qualidade para empresas

Dayane Laet | 30/09/19 - 14h55 - Atualizado em 01/10/19 - 15h14

Cinco de novembro de 2015. Uma barragem da empresa Samarco se rompe e milhões de toneladas de rejeito de ferro em forma de lama tomam conta do município de Mariana, no interior de Minas Gerais. A tragédia deixou 19 mortos e um rastro de devastação no ecossistema e nas vilas próximas.

25 de janeiro deste ano. Centenas de funcionários almoçavam no refeitório da Vale, em Brumadinho, interior do mesmo estado, quando às 12h28 a barragem que estancava milhões de toneladas de rejeito teve o mesmo fim. O reservatório se rompeu e arrastou não só o refeitório, mas devastou toda a região. O saldo nove meses após a tragédia é de 249 mortos, 21 desaparecidos.

Bombeiros buscam sobreviventes em Brumadinho / Imagem: Folhapress

Três de março de 2018. Moradores do bairro Pinheiro, em Maceió, sentem um forte tremor de terra que causou profundas rachaduras em edifícios, casas e comércios. Crateras se abriram nas ruas, postes e lixeiras foram engolidos pelos buracos.

Após 14 meses e vários levantamentos feitos nos pontos críticos do bairro e localidades vizinhas, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) constatou que o Pinheiro apresentava solo instável devido a extração de sal-gema que acontece na base do bloco que envolve não só o Pinheiro, mas também os bairros de Bebedouro e Mutange. Os nove reservatórios eram explorados pela Braskem.

A Defesa Civil de Maceió então determinou que cerca de 500 imóveis precisavam ser desocupados. As famílias, em um êxodo movido pela urgência da mudança acontecer antes da estação chuvosa, precisaram abandonar seus lares deixando parte de suas histórias para trás.

Abalo em Maceió deixou crateras em bairro e atingiu outros próximos / Imagem: Dayane Laet

A interferência antrópica (ação do homem) tem se mostrado uma das principais causas de danos ao ecossistema global. Ao longo da história foram registrados vários casos de tragédias ambientais, causados pela ação de grandes corporações e agravadas por falhas humanas.

Nos três casos citados, percebemos que a ação humana causou grandes perdas e, no caso das barragens mineiras, na contaminação de rios, gerando um dano ambiental incalculável e ainda sem precedentes. As tragédias trouxeram não somente impactos ecológicos, mas também afetaram a vida e saúde das comunidades, além da economia.

Mas será que algo pode ser feito para prevenir ou, pelo menos, amenizar as perdas das vítimas?

Em busca de um desenvolvimento minimamente sustentável, onde se tenta inibir os efeitos do consumo, o descarte irregular de todo tipo de lixo e o tratar do material tóxico, empresas e sociedade civil vêm buscando alternativas para garantir o mínimo de preservação ao ecossistema e também a qualidade de vida de quem vive em áreas de risco. A sustentabilidae virou uma comódite cada vez mais valiosa.

Não apenas isso. A preocupação com a natureza, cada vez mais latente em todos os setores sociais, tem sido valorizada como item precioso entre empresas que precisam de garantias ambientais para funcionarem. Neste contexto, entra um produto ainda pouco conhecido para grande parte do mercado: o Seguro Ambiental (SegA).

Considerado fundamental por quem já investe nesse seguimento de proteção, este tipo de cobertura surge como uma alternativa para casos de danos pessoais ou materiais causados involuntariamente a terceiros, em decorrência de algum tipo de dano ambiental.

Na prática, este seguro ressarce despesas e indenizações decorrentes de responsabilidade civil da empresa que o contrata.

Transportadoras de cargas perigosas como resíduos químicos ou lixo tóxico, indústrias farmacêuticas, construção civil, transportadoras terrestres e até empresas de viagem são alguns dos segmentos que podem contratar o Seguro Ambiental. “Imagine uma fábrica de calçados que precisa manipular couro e colas, ela precisará desta cobertura para resguardar a saúde dos trabalhadores e garantir ampla cobertura, no caso de algum acidente ambiental”, explicou o professor de graduação e Pós em Administração, Marketing e Seguros, da Escola Nacional de Seguros, Fábio Dias.

Só no estado de Alagoas 31 empresas possuem Autorização de Transporte de Resíduos Perigosos (ATRP), emitidas pelo Instituto do Meio Ambiente IMA). Menos da metade possui SegA. Para controlar as atividades, o IMA monitora obrigações e prazos via online, e realiza inspeções de maneira individual, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Ibama. 

Dias, que também é formado em Administração de Empresa e possui MBA em Gestão de Negócios, salienta que a busca por este tipo de seguro aumentou, mas ainda está longe do que seria o ideal. “Se considerarmos o número de empresas que possuem atividades de risco ambiental no Brasil, veremos que a porcentagem que prefere prevenir ainda é a menor”, garantiu o professor.

Quem pode contratar?

Mas para contratar o SegA, a empresa precisar fazer o dever de casa na questão ambiental. Empresas que queiram contratar o SegA precisam comprovar que estão devidamente em dia com suas licenças ambientais, adequadas às exigências legais e também possuir um eficiente sistema de controle. Elas também devem ter uma estrutura capaz de minimizar os efeitos de prováveis danos que possam causar ao meio ambiente no exercício de suas atividades.

O seguro e a avalorização das empresas

TNH1 conversou com o doutor Pery Saraiva Neto, que transformou sua tese ligada a Direito Ambiental em um livro onde defende que quanto maior o investimento em prevenção, mais valiosas se tornam as empresas na bolsa de valores.

Com tema cada vez mais debatido na sociedade, “Seguros Ambientais: Elementos para um sistema de garantias de reparação de danos socioambientais estruturado pelos Seguros”, defende que o SegA é um mecanismo de garantia e estabilidade econômica para as mais diversas atividades. “Ele pode ser usado no gerenciamento de riscos ambientais, seja na fase preventiva, ou na reparação de possíveis danos”, explicou Pery, que também é presidente do Grupo Nacional de Trabalho de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da (AIDA).

A opinão de quem faz o SegA

Sérgio Vieira, diretor de uma empresa que presta serviços a uma indústria química em Alagoas, sempre optou pelo Seguro Ambiental. “Como empresário, é necessário desenvolver um plano de gerenciamento de riscos ambientais, para que a natureza seja poupada”, disse durante entrevista. “É preciso observar as particularidades de cada atividade em torno dos cuidados preventivos e investir”, ressaltou.

A empresa comandada por Vieira é um exemplo de valorização conquistada através das garantias de segurança de suas atividades. “Iniciamos nossas atividades de análises e operações industriais e ambientais em Alagoas, e agora já alcançamos todas as regiões do Brasil”, comemora o diretor.

Custo ou investimento?

A preocupação com questões relacionadas ao ecossistema vai muito além da natureza. É preciso comparar os custos de um possível acidente ambiental e o investimento em um seguro que cubra acidentes da mesma natureza. “Quando uma tragédia acontece, o estrago não inclui só as perder financeiras, mas principalmente as humanas”, explicou a correttora Nely Moura Mendonça.

Com duas décadas de experiência no ramo, Nely explica que a falta de conhecimento leva muitos clientes a só investirem quando já sofreram algum dano anterior. “Poucas empresas agem preventivamente e calculam o risco que sua atividade pode ocasionar aos seus empregados e prestadores de serviços”, explicou. “Justamente porque a possibilidade de acidente sempre é considerada grave, que precisamos encontrar as soluções sustentáveis para minimizar possíveis danos” acrescentou.

Infográficos: Carlyson Oliveira