Mercado teve a pior reação das últimas seis eleições presidenciais

Publicado em 27/10/2026, às 07h14
Divulgação/B3
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Por UOL

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva resultou na pior reação do mercado financeiro desde 2002, com o Ibovespa caindo quase 14% e o dólar subindo 8,2%, refletindo a surpresa com a reversão do resultado do primeiro turno e o ceticismo sobre a política fiscal do novo governo.

Economistas apontam que o ajuste brusco foi impulsionado pela expectativa de vitória da oposição, que não se concretizou, e pela insatisfação com as agendas econômicas propostas por Lula, que aumentam a dívida pública e pressionam a inflação.

O BTG Pactual prevê uma queda contínua do Ibovespa e do real nas próximas semanas, recomendando investimentos em setores mais seguros, como exportadoras e empresas de energia, enquanto o mercado aguarda sinais de estabilização econômica e ajustes fiscais do governo.

Resumo gerado por IA

Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25), o mercado teve a pior reação já registrada em uma primeira sessão pós-eleição presidencial desde 2002. Ontem (26), o Ibovespa despencou quase 14%, e o dólar saltou 8,2%, cotado a R$ 5,40. Até então, a maior queda da Bolsa após um segundo turno nos últimos 24 anos havia sido de 4,4% (2002), e a maior alta da moeda americana, de 2,16% (2014). Economistas avaliam que o ajuste brusco reflete a surpresa com a reversão inédita do resultado do primeiro turno e o desmonte rápido de posições que apostavam na vitória da oposição, em meio ao ceticismo com a condução da política fiscal no quarto mandato de Lula.

Trajetória inédita em 2026

A reação do mercado após a eleição de domingo chamou a atenção pela magnitude. "Em toda a minha trajetória no mercado, de algumas décadas, não me recordo de uma reprecificação tão intensa em apenas um dia: o EWZ [principal fundo de índices de ações brasileiras negociados na Bolsa de Nova York] caiu 27% antes da abertura, o dólar abriu em alta de mais de 10% e os juros futuros subiram cerca de 220 pontos-base. É um ajuste extraordinário, que revela uma mudança significativa na percepção de risco", analisa o economista" Ronaldo Guimarães, sócio e conselheiro da KAT Investimentos.

"A grande questão para os próximos dias é se esse movimento representa uma reação inicial exagerada, sujeita a correção, ou uma mudança mais estrutural nas expectativas para a economia brasileira".

Como foi nas eleições anteriores?

A reação imediata da Bolsa na segunda-feira após o resultado eleitoral foi predominantemente de queda nos últimos 24 anos: Em quatro das seis eleições (2002, 2006, 2014 e 2018), o Ibovespa recuou (-4,40%, -1,09%, -2,77% e -2,24%, respectivamente). As únicas exceções ocorreram em 2010 (+1,26%), quando Dilma Rousseff (PT) foi eleita, e 2022 (+1,31%), quando Lula (PT) foi eleito para o terceiro mandato. Os dados foram compilados a pedido do UOL por Einar Rivero, sócio-fundador da consultoria Elos Ayta.

A queda da Bolsa no dia seguinte ao segundo turno não é exclusividade de governos de esquerda. A eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018 registrou retração de 2,24% na Bolsa no primeiro pregão, perto da queda observada na reeleição de Dilma em 2014 (-2,77%) e superior ao recuo da reeleição de Lula em 2006 (-1,09%). "Eu diria que 2006 e 2010 foram quase não eventos porque o resultado já era amplamente esperado pelo mercado", analisa o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências.

A eleição de 2022 também foi "muito particular", diz Campos Neto. "Porque os mercados chegaram à campanha num ambiente de muito esgotamento com aquele governo Bolsonaro", afirma. "Tanto é que o pregão do dia seguinte da eleição de Lula foi positivo."

Reação se reverte rapidamente

Na primeira semana após o segundo turno, a Bolsa subiu em todos os casos. Independentemente da orientação política do candidato vitorioso ou do pânico inicial do primeiro pregão, o Ibovespa encerrou a primeira semana pós-segundo turno com valorização em todas as seis eleições, a saber:

2002: +1,26%
2006: +2,81%
2010: +2,74%
2014: +5,18%
2018: +3,15%
2022: +3,16%

Em três delas, a reversão foi completa entre o primeiro dia e o fim da primeira semana. Em 2002, 2006 e 2018, o Ibovespa começou caindo (-4,40%, -1,09% e -2,24%), mas o índice terminou positivo no encerramento da semana (+1,26%, +2,81% e +3,15%).

A vitória mais contestada pelo mercado teve a maior alta semanal na Bolsa. Em 2014, amplamente associado à aversão dos agentes financeiros à reeleição de Dilma, registrou o maior avanço semanal da série para o Ibovespa: +5,18%. "O que fez de 2014 a maior alta da série foi o fato de o Copom (do Banco Central) subir os juros logo depois da eleição, e começou uma especulação sobre um nome ortodoxo para a Fazenda. O mercado leu isso como correção de rota", diz o economista Enrico Cozzolino, presidente da consultoria Zermatt Parnters.

E o dólar?

O comportamento do câmbio na largada é dividido. O dólar recuou no primeiro dia útil em três eleições: 2002 (-1,60%), 2018 (-1,05%) e 2022 (-1,65%), mas operou em leve alta em 2006 (+0,33%) e 2010 (+0,06%). A única disparada expressiva da moeda americana no dia seguinte deu-se em 2014, quando subiu 2,16%.

O alívio cambial prevalece na primeira semana. O dólar acumulou queda em quatro das seis eleições (2002: -5,00%; 2010: -1,25%; 2014: -1,46%; 2022: -5,79%). As únicas ocasiões em que a moeda americana subiu no acumulado da semana foram 2006 (+0,20%) e 2018 (+0,60%), ambas com oscilações modestas.

As maiores quedas do dólar na primeira semana coincidiram com vitórias de Lula. Foi assim em 2002 (-5,00%) e em 2022 (-5,79%).

"O ano de 2002 foi muito particular, né? Porque havia todo aquele temor em relação à primeira eleição do Lula, mas logo ele mostrou um discurso mais focado, de manter compromissos, honrar o pagamento de dívidas. Começou a colocar nomes importantes para conduzir os temas econômicos, e isso acalmou rapidamente os mercados", disse Silvio Campos Neto, economista.

Mas por que a reação em 2026 piorou?

A decepção do mercado com o governo Bolsonaro em 2022 se repetiu neste ano. Para Campos, Lula reintroduziu "agendas problemáticas que pioraram os mercados entre 2023-2026". "Os mercados também estão totalmente desencantados com o que será um quarto mandato do presidente Lula por conta dessas agendas", completa o economista sobre o aumento da dívida pública em razão de estímulos estatais ao consumo, que pressionam a inflação e faz com que o Banco Central mantenha os juros da economia em patamar mais elevado.

Diante desse cenário, o mercado se apegou "a qualquer perspectiva de mudança". "O ajuste desta segunda reflete muito do que havia de perspectiva ou pelo menos de precificação em relação à probabilidade, que era quase de 90% nas casas de apostas, poli-mercado, de vitória do Flávio. E como não aconteceu, aí ficou o ajuste total", analisa, Campos Neto, da Tendências. "Você saiu de um cenário quase de verdade de vitória da oposição para um cenário de vitória da reeleição, com todas essas perspectivas difíceis em termos de correção, de condução de agenda. Por isso essa ocorrência bastante brusca."

Para Cozzolino, da Zermatt Parners, "o primeiro pregão mede surpresa, não ideologia". "O mercado tinha subido quase 9% na semana após o primeiro turno apostando em outro desfecho. Quando todo mundo está do mesmo lado do barco, a saída é pela mesma porta, ao mesmo tempo. Agora, a recuperação depende do reconhecimento do resultado e de quem vai comandar a Fazenda", diz.

O mercado também foi pego de surpresa. "É a primeira vez que o resultado do primeiro turno é revertido no segundo turno", lembra o economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM. "Flávio terminou o primeiro turno à frente, as pesquisas mostravam ele na liderança e o investidor se posicionou nessa expectativa."

"O resultado do mercado ontem tem duas camadas: a primeira foi o desmonte das posições de sexta-feira, tirando dinheiro na segunda-feira porque a continuidade de governo é diferente da aposta do mercado. Depois de desmontar posição, teve de montar outra, que considera que o governo atual não vai resolver o problema fiscal", disse Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista.

Embora o histórico mostre que a Bolsa se recupera ao longo da primeira semana, não dá para garantir o mesmo padrão desta vez. "A magnitude do ajuste exige cautela", diz Guimarães, da KAT. "Mais importante do que tentar antecipar uma reversão é observar se surgem sinais concretos de estabilização. Em um cenário como este, a velocidade e a intensidade da reprecificação importam tanto quanto a direção dos preços", conclui.

BTG vê cenário pessimista

O mercado de ações deve sofrer um ajuste severo já no curto prazo. Em relatório divulgado ontem (26), o BTG Pactual projeta que o Ibovespa caia "nas próximas semanas" para cerca de 170 mil pontos, um recuo de 17% em relação ao período eleitoral. Sem uma sinalização rápida de ajuste fiscal por parte do governo, o pessimismo tende a se espalhar. "A reeleição do presidente Lula deve impulsionar as taxas de juros de longo prazo, enfraquecer o real e dificultar a intensificação do ciclo de afrouxamento monetário", diz o documento.

O câmbio deve sofrer forte pressão de desvalorização. O relatório estima um recuo entre 10% e 15% do real nas próximas semanas, "aumentando a queda em relação ao dólar para cerca de 30%". O documento não estima uma data para o fim desse movimento.

A recomendação para quem investe é colocar o dinheiro em aplicações mais seguras. O banco recomenda priorizar empresas exportadoras e companhias de setores que nunca deixam de vender (como energia e saneamento) e que dividem os lucros com os acionistas.

"A perspectiva de um real mais fraco pode favorecer as ações de exportadoras de commodities e metais, como Gerdau, Suzano e Vale, a exportadora de petróleo e gás PRIO, as exportadoras agrícolas SLC, 3Tentos e SMTO, e as exportadoras industriais WEG e Embraer", mostra BTG, em relatório.

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