Meio Ambiente

Mergulhadores nadam com cerca de 100 tubarões no litoral brasileiro

Fábio Pescarini / Folhapress | 19/06/24 - 14h38
Grupos de pesquisadores e mergulhadores registraram um cardume com aproximadamente cem tubarões na manhã de segunda-feira (17) no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes | Arquivo pessoal/Gustavo Luiz dos Santos Benedito

Grupos de pesquisadores e mergulhadores registraram um cardume com aproximadamente cem tubarões na manhã de segunda-feira (17) no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, unidade de conservação federal administrada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), no litoral norte de São Paulo.

A quantidade de peixes impressionou os mergulhadores, que afirmaram nunca ter visto um cardume deste tamanho na região -e a apenas cerca de 40 metros de uma das pontas da ilha principal do arquipélago.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, há uma recente disparada no avistamento de tubarões no entorno do santuário marinho. O crescimento é relatado em um estudo publicado no início do ano por pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar/Unifesp).

A maior frequência de visualização reforça a hipótese de aumento da presença de tubarões após a expansão e o fortalecimento da área de proteção integral que fica a cerca de 35 km de Ilhabela, conforme a pesquisa.

Para Thais Rodrigues, chefe do ICMBio Alcatrazes, as estratégias de monitoramento dos últimos anos e a fiscalização de pesca ilegal por ali equilibraram a vida marinha que atrai tubarões predadores àquela região distante das badaladas praias do litoral norte e de banhistas.

A presença de tubarões na região do arquipélago também ocorre pelas características geográficas do lugar. Localizadas na confluência de duas correntes oceânicas, as águas ali são ricas em nutrientes.
Em março, mergulhadores já tinham registrado a presença de cerca de 40 tubarões-martelo no local.

Gustavo Luiz dos Santos Benedito, 37, dono da operadora de turismo Capitão Ximango, estava na segunda-feira em seu barco, com cinco pessoas que faziam monitoramento de aves no arquipélago, quando observou alguns dez tubarões ao redor e resolveu pular no mar.

De volta à embarcação, ele diz ter contado sobre o cardume ao grupo, que também caiu na água em mergulho livre -sem cilindro de oxigênio, apenas com máscara e snorkel . "Quando percebemos estávamos rodeados deles", diz.

Os peixes estavam próximos da superfície e foram avistados por volta das 10h na região do Saco do Funil, um dos extremos da ilha principal de Alcatrazes e que não consta como primeiro ponto de avistamento.

Geraldo de França Ottoni Neto, oceanógrafo e analista ambiental do ICMBio Alcatrazes, que também nadou ao lado dos peixes, afirma que o cardume era formado por Carcharhinus, cujas espécies tubarão-galhudo e tubarão-seda foram registradas no santuário pelo estudo da Unifesp.

Segundo ele, os tubarões não eram adultos e mediam de 1,5 metro a 2 metros -podem chegar a 3 metros. A área é considerada local de reprodução.

Ottoni Neto trabalhava na fiscalização de pesca ilegal quando foi alertado pelo grupo de pesquisadores sobre o cardume. Voltou ao local depois e os peixes continuavam lá, então decidiu entrar na água.

"Ficaram rodeando na superfície, e quando a gente caiu na água vieram dar uma olhadinha, curiosos", diz, sem expressar medo do perigo por nadar naquela situação. "Tubarão é um animal carismático, não tem hábito de comer o que não é peixe. Sua boca é preparada para comer peixe, e não osso."

Com mais de 10 mil mergulhos no currículo, o biólogo, fotógrafo e cinegrafista oceanográfico Léo Francini, 51, participava do trabalho de monitoramento de aves e conta que ficou abismado com o que viu e filmou.

"Já mergulhei com tubarões em muitos lugares, como Fernando de Noronha e Abrolhos [parque nacional marinho na Bahia], mas nada foi igual", afirmou. "A gente pulou com três ou quatro tubarões na água e, de repente, era tubarão para todo lado."

O avistamento de tubarões em Alcatrazes é recente e vem sendo percebido há cerca de dois anos.

Empresas consultadas pela reportagem dizem que aos poucos tem crescido o número de pessoas que contratam operadores credenciados para mergulhos no arquipélago por causa dos predadores, apesar de a

Prefeitura de Ilhabela dizer que o município ainda não está estruturado para esse tipo de turismo.

O dono do barco que levou os pesquisadores na última segunda-feira afirma que desde o início do ano todas as vezes que foi ao santuário marinho avistou tubarões.