Contextualizando

Nem sempre a propaganda, por si só, é a alma do negócio

Em 2 de Abril de 2026 às 18:40

Na ausência, até agora, de outras candidaturas competitivas, a pré-campanha presidencial se afunila entre a reeleição de Lula (PT) e a pretensão do senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ).

Até antes de o senador se lançar na disputa, Lula tinha uma boa avaliação liderava com tranquilidade, segundo as pesquisas de opinião.

Agora, ambos se mostram num patamar de imprevisibilidade, com pequena margem de favoritismo para o candidato ao PL.

As dificuldades que surgem já levam ao questionamento do trabalho de Sidônio Palmeira, como registra o jornal “O Estado de São Paulo”:

“A reprimenda pública feita pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao colega da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, diz mais sobre o desespero de um governo premido pela impopularidade do que sobre a qualidade do trabalho de seu marqueteiro. A seis meses das eleições, a inquietação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o avanço do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto é compreensível. Mas o diagnóstico de seu ‘xerife’ no Palácio do Planalto está errado. Não é a falta de comunicação que explica as agruras do incumbente em campanha pela reeleição. É a falta de rumo do chefe de governo.

Ao sugerir que a Secom deveria ‘comparar’ os governos Lula e Jair Bolsonaro para evidenciar os supostos êxitos da atual gestão, Costa, no melhor cenário, revelou absoluta ignorância sobre a legislação que rege a comunicação pública, que não pode ser instrumentalizada para fins político-eleitorais. Trata-se de uma vedação explícita, que visa a resguardar o melhor interesse público e impedir o uso da máquina estatal como instrumento de campanha. É um limite republicano que jamais pode ser ignorado. Que o tenha sido por ninguém menos que o chefe da Casa Civil é improvável, o que leva à inevitável inferência de que Rui Costa parece preferir sobrepor o interesse eleitoral do chefe ao ordenamento jurídico.

Ainda assim, mesmo que tal barreira legal não existisse, a cobrança permaneceria injusta. A ideia de que uma propaganda mais eficiente seria capaz de reverter a percepção negativa que a maioria dos eleitores tem sobre o governo parte de uma premissa frágil, qual seja, a de que há, de fato, um conjunto consistente de realizações e um projeto claro de país a serem comunicados. Não há. Eis o busílis. Lula chega à reta final do mandato sem oferecer à Nação um horizonte nítido, em que as prioridades estejam claras. Decisões são tomadas por espasmos, ao sabor das circunstâncias, dos sentimentos fugazes das mídias sociais e, muitas vezes, recorrendo-se ao velho arsenal populista do PT.

Atribuir à comunicação a responsabilidade pelo desgaste político de Lula é uma forma fácil – e injusta – de evitar enfrentar o problema essencial: o presidente não sabe para que quer mais quatro anos de mandato, a não ser para satisfazer seu desejo pessoal por poder. Não há marqueteiro capaz de suprir a ausência de estratégia e formulação programática. O chefe da Secom, um publicitário experiente, pode até calibrar discursos, organizar publicações entre os ministérios e tentar conter danos – como fez, por exemplo, ao evitar que a primeira-dama Janja da Silva desfilasse pela Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí e ampliasse ainda mais o vexame que foi aquele ridículo culto à personalidade de Lula. Mas Sidônio não é mágico. Não pode criar substância onde isso não existe.

Convém reconhecer, nesse sentido, que houve melhora em relação à gestão anterior da Secom, sob o petista Paulo Pimenta. Ainda que persistam não poucos problemas, o trabalho da Secom hoje é bem menos amador. Isso não significa eficiência nem tampouco respeito irrestrito ao princípio da impessoalidade. A tentação dos petistas em usar órgãos de governo como extensões do palanque continua forte como sempre foi. Mas não é a comunicação, repita-se, que explica a curva descendente de Lula nas pesquisas.

Lula governa sem planejamento estratégico, movido mais pela necessidade de manter-se no poder – por apego, vaidade ou ambos – do que por um projeto de governo estruturado para o País. Por isso, quando tudo vai mal, dá vazão ao velho cacoete de buscar causas externas para suas contrariedades. Se as famílias estão endividadas, o problema é o comportamento perdulário dos brasileiros. Se há falhas administrativas, invoca-se a ‘herança maldita’. Se a popularidade cai, responsabiliza-se a imprensa e a comunicação oficial. Lula, o demiurgo, jamais falha. Foi isso o que Rui Costa disse, sem dizê-lo abertamente.

Sidônio não faz milagres. E não deveria ser transformado em bode expiatório de um problema que está acima dele. Comunicação pode potencializar acertos, mas não supre a falta deles.”

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