Novos dados do IBGE revelam um Brasil 87% cristão; ateus triplicam

Publicado em 02/09/2026, às 14h53
Imagens de católicos na procissão de Corpus Christi, em Belo Horizonte - Zimel Press / Folhapress
Imagens de católicos na procissão de Corpus Christi, em Belo Horizonte - Zimel Press / Folhapress

Por Anna Virginia Balloussier, Nicholas Pretto e Marcela Canavarro / Folhapress

Dados do Censo 2022 revelam que os evangélicos representam 26,9% da população brasileira, com um aumento significativo no grupo dos evangélicos 'não determinados', que agora compõem 15,6% da população com 10 anos ou mais, enquanto o catolicismo continua a perder representatividade, caindo para 57%.

A pesquisa identificou 14,3 milhões de fiéis de igrejas pentecostais e 5,6 milhões de evangélicos de missão, mas a mudança na metodologia do IBGE dificultou uma análise mais precisa do crescimento do segmento pentecostal.

O Censo também mostrou um aumento no número de pessoas sem religião, totalizando 16,4 milhões, e destacou a necessidade de uma análise mais aprofundada das subdivisões religiosas, especialmente entre os jovens, que podem estar migrando para outras crenças ou se declarando sem religião.

Resumo gerado por IA

Que os católicos haviam encolhido, e os evangélicos se consolidado como a segunda maior força religiosa do país, somando 26,9% da população com 10 anos ou mais, isso o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) já havia divulgado no ano passado. Mas novos dados traçam um cenário mais específico da religião no Brasil.

Agora, é possível detalhar a filiação religiosa dos brasileiros a partir de microdados do Censo 2022 que o instituto liberou na segunda-feira (31).

Ficamos sabendo que, entre evangélicos, o maior subgrupo é o dos evangélicos "não determinados", que são as pessoas que se autodeclararam genericamente como evangélicas ou crentes, por exemplo, sem apontar uma igreja específica (o que não quer dizer que não a tenham).

Representam 15,6% dos brasileiros com pelo menos 10 anos —o levantamento demográfico mais recente não incluiu no recorte religioso as crianças com idade inferior a essa, ao contrário do que fez em recenseamentos anteriores.

Os fiéis de igrejas pentecostais, grupo que na classificação do IBGE engloba das Assembleias de Deus à Igreja Universal do Reino de Deus, são 14,3 milhões (8,1%) dos 176,6 milhões de brasileiros que superavam essa barreira etária em 2022.

Já os chamados evangélicos de missão, que vêm de uma tradição protestante histórica, como os presbiterianos e os metodistas, representam 3,2%, ou 5,6 milhões de pessoas. Ainda no segmento, identificou-se 139 adeptos de "igrejas evangélicas indígenas", o que é estaticamente irrelevante: 0%.

Os números evangélicos exigem uma leitura cuidadosa. Uma mudança de metodologia impediu o IBGE de mapear o grupo a fundo, o que provavelmente mascarou o real tamanho da fatia pentecostal.

O catolicismo continua sendo a crença mais professada no Brasil, ainda que esse grupo venha levando tombos de representatividade a cada novo Censo. Eram 74,4% em 2000, 65,5% em 2010 e, 12 anos depois, foram para 57%, com 100,6 milhões de seguidores.

A análise dos dados permitiu identificar três vertentes católicas. Primeiro vêm os apostólicos romanos, quase 100% do total. A menor fatia é a dos ortodoxos, com 21 mil adeptos espalhados em tradições diferentes, como a russa e a grega.

Com 386 mil aderentes (0,2%), os apostólicos brasileiros pertencem a uma denominação cristã independente, fundada em 1945 por dom Carlos Duarte Costa, bispo que denunciou o nazismo, foi acusado de comunismo e acabou excomungado por atritos com o Vaticano.

No primeiro Censo, de 1872, os católicos representavam 99,7% dos quase 10 milhões de habitantes. Não havia brechas para que indígenas e escravizados declarassem outra fé que não a religião oficial do império —só em 1890, com a proclamação da República, o catolicismo perdeu esse status.

Ainda assim, o catolicismo manteve seu monopólio religioso por décadas. A proporção começa a minguar a partir dos anos 1970, tendência que se acelera no século 21.

O Brasil, no entanto, continua sobretudo cristão, e esse bloco é ainda maior quando levamos em conta denominações que põem Jesus Cristo no centro de sua fé, mas não se enquadram no segmento evangélico tradicional nem no católico. São 3,9 milhões no genérico bloco de "outras religiosidades cristãs" (2,2%), 1,2 milhão de testemunhas de Jeová (0,7%) e 148 mil mórmons (menos de 0,1%).

O todo cristão, portanto, é de 86,9% da população recenseada pelo IBGE.

Os que dizem não ter religião somam um contingente expressivo de 16,4 milhões. São 1 em cada 12 brasileiros se considerarmos também o 1,7 milhão de ateus (1% da população) e os 881 mil agnósticos (0,5%) —aqueles que consideram impossível comprovar se Deus ou forças sobrenaturais existem ou não, mantendo uma postura neutra sobre o assunto.

O ateísmo triplicou entre 2010 e 2022, assim como os agnósticos, com um tamanho sete vezes maior na comparação com o levantamento anterior.

O restante compõe uma turma heterogênea, que não necessariamente duvida da existência de Deus. Muitos deles só não querem saber de instituições religiosas.

O IBGE separa uma categoria à parte para os 276 mil de brasileiros que se declaram espiritualizados, fora os 167 mil seguidores de tradições esotéricas.

Quando o IBGE divulgou os números religiosos do Censo 2022, ainda em 2025, não discriminou quem é quem no conjunto das religiões afro-brasileiras. Colocou tudo no mesmo pacote. Agora se sabe que a umbanda é maior: 1,4 milhão de pessoas (0,8%), seguida por 448,5 mil candomblecistas (0,3%).

As crenças de matriz africana triplicaram sua presença entre um recenseamento e outro, enquanto os espíritas declinaram. Na conta mais atual, são 3,2 milhões (1,8%). Em 2010, eram 2,2%.

O Censo 2022 registra 197 mil budistas, 100 mil judeus, 41,2 mil muçulmanos e 6,7 mil hindus. Os ayahuasqueiros, que praticam Santo Daime e afins, são 14 mil. Juntando todas essas religiões, dá 0,2% do povo.

Os recenseadores encontraram 132 mil brasileiros que declaram "múltiplo pertencimento", ou seja, têm duas ou mais crenças simultâneas. Menos do que 0,1% do quadro geral.

Para a cientista política Ana Carolina Evangelista, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião), os dados recém-liberados mostram como "grandes grupos religiosos escondem diferenças internas importantes".

A subdivisão no campo evangélico merece atenção especial, sobretudo para entender "o quão relevante é a tendência dos evangélicos sem igreja dentro desses números", os chamados desigrejados.

O futuro Censo, que deve acontecer no início da próxima década, também deve revelar se há uma onda de crentes migrando para outras religiões ou declarando não ter uma crença em particular, "especialmente entre os mais jovens", diz Evangelista.

Especialistas esbarram com desafios para escrutinar os dados colhidos pelo IBGE quatro anos atrás. O agrupamento dos evangélicos é uma boa amostra dessa dificuldade.

Em 2010, o IBGE orientava expressamente os entrevistadores a não registrarem termos genéricos como "crente" ou "evangélica". Diante de respostas assim, o recenseador devia fazer perguntas adicionais para identificar a denominação específica do entrevistado.

Essa instrução não foi incluída nos materiais de treinamento do Censo 2022. Sem o aviso para evitar essas respostas genéricas, os recenseadores aceitaram as declarações simplificadas, o que inflou a categoria "não determinada" e reduziu os totais das igrejas históricas e pentecostais.

Pode passar a impressão, para quem não é familiarizado com a realidade das igrejas, de que os pentecostais são menores do que de fato são, quando uma série de pesquisas amostrais realizadas ao longo dos anos indica que eles são a ampla maioria da malha evangélica nacional.

Só que, na hora de responder, o mais provável é que esses fiéis tenham informado algo mais geral sobre a própria fé. Daí a dimensão agigantada dos "evangélicos não determinados". É só comparar com 2010, quando esse grupo era 4,8% do total, enquanto em 2022 mais do que triplicou de tamanho.

Para o demógrafo José Eustáquio Alves, pesquisador aposentado do IBGE, não dá para ignorar que o levantamento de 2022 "teve muitos problemas na sua aplicação".

"Primeiro foi a pandemia, que adiou tudo que estava planejado para 2020 [previsão inicial para o recenseamento]. Depois foi a falta de dinheiro, negado pelo governo Bolsonaro, e então a realização no mesmo período das eleições presidenciais de 2022, um pleito muito polarizado e que fez com que muitas pessoas não respondessem."

Ele também destaca "o grau de violência e as áreas dominadas pelo tráfico e pelas milícias", que teriam impossibilitado a chegada de recenseadores a alguns domicílios de baixa renda em certas regiões.

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