Minha geração foi catequisada, nos bancos escolares, ouvindo que o Brasil seria o país do futuro, com a recomendação oficial impositiva do "Ame-o ou deixe-o".
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Cheguei aos 70 anos e, pelo que ouço, leio e vejo, esse futuro prometido ainda não chegou e as perspectivas indicam que não chegará a tempo de eu usufruir dele.
Talvez, quem sabe, cheguem para meus descendentes.
A realidade brasileira é sintetizada, de forma bastante lúcida, por Ricardo Kertzman, no portal "O Antagonista":
"O Brasil figura entre as maiores economias do planeta – em geral, entre a 10ª e a 12ª posição em PIB nominal, segundo dados recentes do FMI e do Banco Mundial. É um país continental, com abundância de recursos naturais, matriz energética relativamente limpa, agronegócio altamente produtivo e um sistema financeiro sofisticado. Ainda assim, convive com índices persistentes de violência, desigualdade extrema, corrupção recorrente e baixa qualidade institucional. Não é uma contradição nova e tampouco casual.
A explicação mais consistente, mas não única, começa no passado. A colonização portuguesa no Brasil foi orientada por extração (pau-brasil, açúcar, ouro etc.) e não por povoamento com instituições inclusivas. O historiador Caio Prado Júnior descreveu o país como uma 'empresa comercial', voltada ao exterior. Não se formou aqui, ao contrário do que ocorreu em partes da América do Norte e da Europa, uma base institucional voltada à cidadania, à propriedade disseminada e à autonomia local. A lógica era outra: concentração, monocultura, trabalho forçado.
Essa base moldou o resto. A escravidão, que durou mais de três séculos e só foi abolida em 1888, deixou marcas que ainda estruturam a desigualdade brasileira. O sociólogo Florestan Fernandes argumentava que o país realizou uma 'revolução burguesa incompleta', na qual as elites mantiveram controle político e econômico sem promover inclusão social efetiva. As capitanias hereditárias foram a expressão máxima deste movimento. E nunca houve ruptura. A desigualdade atual não é, portanto, um desvio. É um projeto que atravessou séculos e regimes.
No século XX, a industrialização acelerada – especialmente a partir de Getúlio Vargas – criou um Estado mais complexo, é fato, mas não resolveu o problema central. O Brasil urbanizou-se rapidamente, sem planejamento, acumulando déficits em educação, saneamento e segurança. A expansão econômica conviveu com informalidade e exclusão, ampliando sobremaneira a desigualdade social. O economista Celso Furtado tratou o subdesenvolvimento como uma condição estrutural, não como uma etapa temporária.
Os números atuais confirmam a persistência desse padrão. O Brasil segue entre os paises mais desiguais do mundo. O índice de Gini gira em torno de 0,5. A renda é pessimamente distribuída, a mobilidade social, baixíssima, e o acesso a serviços públicos de qualidade é desigual. Na segurança pública, os dados são diretos: dezenas de milhares de homicídios por ano, com taxas muito superiores às de países desenvolvidos. A violência por aqui não é episódica. Ao contrário. É sistêmica.
No campo institucional, o problema se repete. A corrupção não é exclusividade brasileira, mas aqui ela encontra terreno fértil na combinação de Estado grande, controle frágil, impunidade seletiva e cultura política patrimonialista, atingindo os píncaros do Olimpo dos picaretas. As elites dos três poderes, nas três esferas, atuam de forma fisiológica e corporativa, alimentando o ciclo da concentração de renda e da desigualdade social, alimentando a irresponsabilidade fiscal e os déficits sucessivos.
O conceito de 'homem cordial', de Sérgio Buarque de Holanda, é frequentemente mal interpretado. Não se trata de gentileza, mas da dificuldade de separar o público do privado. Relações pessoais inadem instituições. Regras tornam-se negociáveis. A lei deixa de ser impessoal. A impunidade decorre disso. E não pela ausência de leis, mas por sua aplicação irregular. O sistema de Justiça é complexo, lento, seletivo, corrupto, perdulário, caríssimo.
Casos de corrupção de grande escala levam anos, quando não décadas, para chegar a uma conclusão definitiva. Porém, não raro, quando chegam, ato contínuo verifica-se o retrocesso das ações e a nulidade das decisões passadas. A Lava Jato, dentre outros casos, está aí para provar. E, em paralelo, crimes comuns raramente são solucionados. A sensação de que 'nada acontece' não é apenas percepção; ela tem base empírica.
Há também fatores contemporâneos. A redemocratização pós-1988 ampliou direitos, mas não conseguiu resolver o problema da eficiência estatal. O país criou uma Constituição extensa, com forte presença do Estado, mas sem a correspondente capacidade de execução. A máquina pública cresceu, os gastos aumentaram e os resultados ficaram aquém: educação básica de baixa qualidade, saúde pública precária, infraestrutura deficiente, burocracia excessiva.
A política, por sua vez, tornou-se um sistema de sobrevivência. Uma espécie de carreira. Fragmentação partidária, coalizões instáveis, negociações permanentes. O cientista político Raymundo Faoro já descrevia, em 'Os Donos do Poder', a formação de um estamento burocrático que se apropria do Estado. Décadas depois, a descrição continua funcional. Mudaram os atores, mas nunca a lógica.
Diante disso, a pergunta inicial – por que somos assim? – perde parte do mistério. Não se trata de uma falha moral coletiva nem de um destino inevitável. Trata-se de trajetória histórica, de incentivos institucionais viciados e de péssimas e sucessivas escolhas polpiticas acumuladas. Países não são o que dizem ser ou o que populistas prometem em suas propagandas. São o que entregam e repetem ao longo do tempo.
O Brasil, nesse sentido, é craque. Repete, repete, repete. E com consistência impressionante. Cresce e recua. Avança e retrocede . Promete e adia.
É o eterno país do futuro, deitado preguiçosamente em seu berço esplêndido, que, enquanto não alterar os mecanismos que sustentam a desigualdade, a impunidade e a baixa qualidade institucional, continuará sendo o que é desde sempre: grande em números, pequeno em entregas."
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