Texto de David Gertner, professor, escritor e ensaísta, no portal "Diário do Poder":
LEIA TAMBÉM
"Toda sociedade escolhe quem vê — e quem prefere não ver.
Na política, essa escolha nunca é neutra. Ela é institucional.
Há milhões de brasileiros ausentes dos discursos oficiais, dos slogans de campanha e das estatísticas celebradas em palanques. Não são prioridade em planos de governo, não rendem dividendos eleitorais e raramente mobilizam narrativas convenientes. São os invisíveis da República.
E sua invisibilidade não é fruto do acaso.
É resultado de um sistema que falha de forma coordenada.
No Executivo, a lógica da propaganda substituiu a lógica da entrega. Anunciam-se programas com nomes grandiosos e metas vagas, enquanto a execução se perde em ineficiência e falta de avaliação séria. Inauguram-se prédios sem equipe, lançam-se políticas sem continuidade e comemoram-se números que pouco dizem sobre a vida real das pessoas. Governa-se para o discurso, não para o cidadão invisível.
No Legislativo, a distância entre representação e realidade tornou-se abissal. Energia política é consumida por emendas paroquiais, blindagens corporativas e disputas simbólicas, enquanto reformas estruturais — previdenciárias, educacionais, administrativas — são adiadas indefinidamente. O invisível não tem bancada, não financia campanhas e não pressiona nas redes. Por isso, raramente entra na pauta.
Já o Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal Federal, deixou há muito de ser apenas guardião da Constituição para se tornar ator político central — sem o ônus do voto e, muitas vezes, sem a necessária autocontenção. Decisões monocráticas de amplo impacto, insegurança jurídica recorrente e interpretações elásticas da Constituição corroem a previsibilidade indispensável a políticas públicas consistentes.
Quando o Executivo falha, todos discursam.
E quem paga o preço é sempre o mesmo.
Na saúde, os invisíveis são os idosos e doentes crônicos que enfrentam meses — às vezes anos — de espera por exames, cirurgias e tratamentos básicos. Pessoas em corredores de hospitais superlotados enquanto autoridades anunciam investimentos e celebram estatísticas que pouco dizem sobre continuidade do cuidado e dignidade do paciente.
Na previdência, são trabalhadores que contribuíram por décadas e hoje vivem sob incerteza permanente. Regras instáveis, promessas mal explicadas e benefícios corroídos pela inflação transformaram a aposentadoria em um campo minado. Planejar o futuro tornou-se uma aposta.
Na segurança, os esquecidos vivem onde o Estado aparece apenas em duas versões: tarde demais ou armado demais. Comunidades reféns do medo cotidiano convivem com discursos incapazes de garantir o direito mais básico: o de ir e vir.
Todos são esquecidos por um arranjo institucional que transfere responsabilidades, dilui culpas e se protege mutuamente.
É ético.
Uma República que naturaliza filas, medo, má educação e precariedade previdenciária rompe seu pacto fundamental. Direitos deixam de ser garantias e passam a promessas condicionais — dependentes de orçamento, conveniência ou decisão judicial ocasional.
O mais grave é o silêncio moral.
Quando a excepcionalidade vira rotina.
Quando a indignação seletiva substitui a ética pública.
Quando instituições que deveriam se fiscalizar passam a coexistir em confortável omissão.
Democracia não é apenas votar.
É responsabilizar.
Responsabilizar governantes que governam mal.
Parlamentares que não legislam para o interesse público.
E tribunais que extrapolam seu papel sem assumir consequências.
Os invisíveis da República não pedem favores.
Pedem que o Estado funcione.
Que as instituições respeitem seus limites.
E que a responsabilidade deixe de ser sempre empurrada para outro Poder.
O esquecimento não é neutro.
É uma escolha institucional.
E toda escolha carrega uma responsabilidade ética."
LEIA MAIS
+Lidas