'Perda de duas décadas de trabalho', diz pesquisador que teve amostras de sangue incendiadas na UFPE

Publicado em 08/10/2026, às 15h24
'Perda de duas décadas de trabalho', diz pesquisador que teve amostras de sangue incendiadas na UFPE - Reprodução
'Perda de duas décadas de trabalho', diz pesquisador que teve amostras de sangue incendiadas na UFPE - Reprodução

Por Jorge Cosme / Folhapress

Um incêndio de grandes proporções na Universidade Federal de Pernambuco destruiu um prédio que abrigava laboratórios de pesquisa, resultando em um prejuízo estimado em R$ 100 milhões e a perda de projetos significativos na área de saúde.

Pesquisadores lamentam a destruição de amostras biológicas e dados valiosos, incluindo estudos sobre Covid-19 e Chikungunya, que levaram anos para serem coletados e que agora precisam ser recomeçados do zero.

O Ministério da Educação está em contato com a reitoria da UFPE para oferecer apoio e acompanhar as investigações sobre as causas do incêndio, enquanto a comunidade acadêmica vive um luto pela perda de um espaço fundamental para a pesquisa científica.

Resumo gerado por IA

Pesquisadores que atuavam no prédio da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), no Recife, atingido por incêndio de grandes proporções na noite da quarta-feira (7), dizem estar vivendo um luto com a destruição de seus projetos. O reitor calcula um prejuízo de R$ 100 milhões em equipamentos, insumos e material.

O prédio multiuso, que já havia sido a sede da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, abarcava atualmente laboratórios na área de fármacos, informática e genética. O incêndio teve início por volta das 20h. A Polícia Federal iniciou as investigações, sem ainda informar a possível causa.

O pesquisador Ryan Cordeiro, 29, faz pós-doutorado em inovação terapêutica e tinha no prédio um banco de amostras de sangue e amostras de órgãos de animais usados para testes de novos fármacos para a Covid-19.

"Essas amostras de sangue da época da Covid-19, que a gente guardava como forma de pesquisar também novos fármacos e continuar pesquisando a doença, foi perdida", lamenta.

O pesquisador lembra que um dos estudos desenvolvidos ali detectou que a Covid-19 leve não apresentava dano prolongado ao cérebro dos pacientes. O achado foi utilizado pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) em cartilha de enfrentamento à doença.

Cordeiro também trabalhava com amostras de animais para estudos sobre esclerose sistêmica, doença crônica e rara. "A gente estava chegando perto de sintetizar fármacos para atuar no enfrentamento da esclerose. A gente estava na modalidade de testes de animais ainda, mas acabou que perdeu o fármaco, as amostras. É começar do zero."

"Toda parte de armazenamento de insumos, reagentes e amostras biológicas perdidas. Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho", resume.

Entre o material perdido estão amostras biológicas, de tumor, sangue, urina, plasma, soro e células imortalizadas. "Existem amostras de pacientes com tumor raro, que já faleceram. Essas coisas não se conseguem de um dia para o outro", explica o pesquisador.

Cordeiro também lembra do valor afetivo do prédio, que funcionava como um espaço de vivência e de troca entre pesquisadores.

"O simbolismo dessa perda é grande. Nosso passado foi apagado. Era um ambiente saudável, em que desenvolvemos muitas amizades. O Nupit se tornou a segunda família de todos", diz em referência ao Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino, que funcionava no local e do qual ele faz parte.

Para a bióloga Jamile Taniele, 39, que desenvolve estudos sobre dores crônicas associadas a Chikungunya em seu pós-doutorado, o espaço era sua segunda casa.

"Foi desesperador. Parecia um pesadelo. Até agora acho que a ficha do que aconteceu não caiu", diz ela.

"Tem muitos colegas que estão em desespero, chorando, deprimidos. Vivendo um luto, né? Eu também estou vivendo o luto, tentando buscar formas de ocupar a mente e de colocar para a frente."

Taniele conta ter perdido um acervo material que era referência sobre Chikungunya.

"Perdemos um dos maiores estudos do mundo em Chikungunya. Tínhamos mais de 10 mil amostras de pacientes que foram acompanhados por três anos", resume. Ela tinha amostras de sangue e de urina de quase mil pacientes.

"A gente estava em busca de resposta de por que a Chikungunya causa tantas dores e como manejar essa dor. Essas amostras eram de pacientes que tiveram diferentes trajetórias da doença e a gente já estava em um caminho de encontrar uma resposta."

Ela completa: "Para a gente ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto da doença, e espero que não aconteça."

O prédio foi reestruturado na época da Covid-19.

"Os alunos do Nupit são incansáveis", diz a professora Michelle Melgarejo, da UFPE. "A gente estruturou nosso prédio para a Covid-19. Foi laboratório de campanha e a gente trabalhou fazendo milhares de testes aqui", diz.

Ela diz que seu núcleo desenvolve estudos sobre câncer de pâncreas, câncer de pulmão, doenças infecciosas, doenças inflamatórias, doenças imunológicas, saúde mental, aprendizado e neuro-oncologia.

"Esse incêndio representa a perda de mestrados, de doutorados ou pelo menos um atraso nesses processos e um atraso bem grande por parte da ciência pernambucana e do Brasil", completa.

José Rafael Soares, biólogo que fez mestrado em inovação terapêutica e atualmente cursa o doutorado na mesma área na UFPE, lamentou o valor do prejuízo.

"Isso reflete em tudo que pesquisamos lá dentro. Eu, por exemplo, faço pesquisa investigando biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias. E todas as minhas amostras, coletadas no Sertão de Araripe, estavam lá", afirma

O ministro da Educação, Leonardo Barchini, disse ter recebido a notícia com tristeza.

"Estamos em contato com a reitoria da UFPE e acompanhamos as investigações para apurar as causas do incêndio. Colocamos o MEC à disposição para prestar todo o apoio necessário", escreveu em nota divulgada nas redes sociais. Ele é esperado na UFPE na tarde desta quinta-feira (8).

Gostou? Compartilhe