O rei Harald 5º da Noruega faleceu aos 89 anos após complicações de uma rara doença sanguínea, deixando um legado de modernização da monarquia e uma imagem de figura unificadora em tempos difíceis para o país.
Harald, que foi o primeiro rei norueguês nascido no país desde o século 14, era amplamente respeitado e amado, tendo enfrentado desafios significativos durante seu reinado, incluindo crises de saúde e escândalos familiares.
Com a ascensão de seu filho Haakon ao trono, a nova monarquia enfrentará um período desafiador, especialmente em meio a questões de saúde e controvérsias familiares, mas o foco permanece em honrar a memória do rei falecido e apoiar a continuidade da realeza.
O rei Harald 5º, da Noruega, morreu nesta sexta-feira (28/08) aos 89 anos, após ter sido internado na semana passada para tratamento de uma rara doença sanguínea.
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O palácio em Oslo informou que ele faleceu às 6h35 do horário local (1h35 em Brasília), no hospital nacional de Oslo. A bandeira real do palácio foi hasteada a meio mastro.
Nas 24 horas que antecederam sua morte, membros da família real visitaram o rei, e multidões depositaram flores no palácio.
Harald foi o primeiro rei da Noruega nascido no país desde o século 14, já que durante séculos a Noruega integrou uniões com Dinamarca e Suécia e seus monarcas nasceram no exterior. Ele foi sucedido por seu filho Haakon.
Após 35 anos no trono, ele será lembrado como uma figura popular e reformista que modernizou a monarquia, rompeu com a tradição ao se casar com uma plebeia e serviu como uma figura unificadora nos momentos mais difíceis da Noruega.
Observadores da realeza dizem que ele era uma pessoa simples, respeitada e amada, descrevendo-o como um "avô" da nação e o "Rei do Povo" — um título também usado por seu pai, o Rei Olav 5º.
Na sequência dos atentados a bomba e a tiros de 2011 em Oslo e na ilha de Utøya, Harald apelou aos noruegueses para que se apoiassem mutuamente e não "deixassem o medo tomar conta".
Mais recentemente, Harald e sua família enfrentaram problemas de saúde e escândalos, especialmente devido à ligação de sua nora, Mette-Marit, com o falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein, e à condenação do filho dela, Marius Borg Høiby, por estupro.
Durante seu reinado, a monarquia norueguesa tornou-se mais igualitária e transparente em relação às finanças e à saúde, disse Ole-Jørgen Schulsrud-Hansen, historiador e correspondente da TV2 para assuntos da realeza, à BBC.
Tove Taalesen, correspondente da Nettavisen especializada na família real, descreveu o falecido rei como "um de nós", enquanto Caroline Vagle, especialista em assuntos da realeza da revista Se og Hør, afirmou que ele "sempre foi muito próximo do povo".
Quando a seleção norueguesa de futebol retornou dos Estados Unidos após se classificar para as quartas de final da Copa do Mundo pela primeira vez, Harald recebeu os jogadores no palácio.
Ele deixa sua esposa, a rainha Sonja, com quem foi casado por quase 58 anos, sua filha, a princesa Märtha Louise, seu filho — o novo rei Haakon — e seis netos.
Harald nasceu em 21 de fevereiro de 1937 na propriedade de Skaugum, perto de Oslo.
Ele tinha três anos quando o ditador Adolf Hitler ordenou a invasão da Noruega pela Alemanha nazista no início da Segunda Guerra Mundial.
A mãe de Harald fugiu com os filhos para a Suécia, atravessando a fronteira, e eles viajaram para os EUA a convite do presidente Franklin D. Roosevelt.
O príncipe Harald retornou com sua família para a Noruega ao final da guerra e concluiu seus estudos e o serviço militar obrigatório. Tornou-se príncipe herdeiro em 1957 e estudou ciências sociais, história e economia no Balliol College, em Oxford, de 1960 a 1962.
Ele conheceu Sonja Haraldsen, filha de um empresário, em uma festa, mas o príncipe herdeiro teve que esperar nove anos antes de poder se casar com ela. Seu pai, o rei Olav, sempre desejou que ele se casasse com uma princesa europeia.
Por fim, ele disse ao pai que, se não pudesse se casar com Sonja, permaneceria solteiro, declarou o rei Harald à emissora pública da Noruega.
Seu pai finalmente deu seu consentimento, e eles se casaram na Catedral de Oslo em 29 de agosto de 1968.
A escolha de Harald abriu caminho para que seus dois filhos também se casassem com plebeus, e para Vagle, isso "ajudou a pôr fim a uma família real dominada por homens".
"Ele nunca teve medo de demonstrar emoção, humor ou vulnerabilidade, e isso o tornou muito humano", disse a especialista sobre realeza.
Quando seu pai adoeceu em 1990, o príncipe herdeiro tornou-se regente. Harald ascendeu ao trono quando Olav faleceu em 17 de janeiro de 1991.
Segundo o historiador Trond Norén Isaksen, o novo rei se encontrou por volta do ano 2000, passando de um homem reservado, sério e tímido para alguém muito mais aberto e empático.
Em julho de 2011, Harald enfrentou seu maior desafio como rei, quando o neonazista Anders Breivik assassinou oito pessoas com um carro-bomba em Oslo, antes de seguir para um acampamento de jovens na ilha de Utøya, onde matou a tiros outras 69 pessoas, a maioria adolescentes.
No dia seguinte, ele fez um pronunciamento televisionado e, semanas depois, discursou novamente, demonstrando empatia com as vítimas e suas famílias como pai, avô, marido e rei. À beira das lágrimas, sua voz embargou e falhou.
"Só posso imaginar a profundidade da sua dor. Como Rei desta nação, sinto muito por cada um de vocês", disse ele.
Olhando para trás, o historiador Ole-Jørgen Schulsrud-Hansen disse: "Acho que aquele momento ficou gravado em nossas mentes como a definição do que uma monarquia deveria ser."
Em 2016, o rei voltou a ser notícia ao proferir um discurso apaixonado em defesa da diversidade religiosa, étnica e de orientação sexual.
Ele disse que os noruegueses são do "Afeganistão, Paquistão e Polônia, da Suécia, Somália e Síria", que "acreditam em Deus, Alá, no Universo e no nada" e que "são meninas que amam meninas, meninos que amam meninos e meninas e meninos que se amam".
O rei também era um entusiasta do esporte e do meio ambiente, sendo um dos idealizadores da filial norueguesa do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), onde atuou como presidente por 20 anos.
Ele era um velejador tão talentoso que representou a Noruega três vezes nas Olimpíadas e declarou o fim de sua carreira competitiva na vela em 2022.
Quando o príncipe herdeiro Haakon se casou com Mette-Marit em 2001, o rei e a rainha acolheram o filho dela, de quatro anos, fruto de um relacionamento anterior. Marius Borg Høiby foi tratado como um membro da família, mas a casa real posteriormente ressaltou que ele nunca foi um membro da realeza.
A princesa Märtha Louise, filha do rei, casou-se pela primeira vez com um escritor norueguês. Depois, se casou novamente, em 2024, com um autoproclamado xamã americano. As atividades comerciais do casal acabaram por levá-la a suspender seus deveres reais.
Embora alguns noruegueses possam ter achado que Harald foi muito leniente com as decisões controversas de sua família, Vagle acredita que ele "se mostrou alguém que prioriza o diálogo em vez de impor regras rígidas".
Com a saúde debilitada, o rei reduziu permanentemente seus compromissos públicos a partir de abril de 2024.
Mais recentemente, ele foi tratado com cortisona para uma rara doença sanguínea, a anemia hemolítica, que causa a redução do número de glóbulos vermelhos no corpo. Ele foi internado no hospital em 17 de agosto e seu filho se tornou o regente, assumindo suas atividades.
Este ano, a família real norueguesa enfrentou uma série de desafios de saúde pessoais e escândalos que a deixaram sob constante escrutínio público.
O julgamento por estupro de Marius Borg Høiby, condenado por uma série de crimes por juízes em Oslo em junho, pairou sobre a família real por muitos meses. Ele agora recorreu da pena de quatro anos de prisão e apareceu ao lado de Harald pouco antes de sua morte.
Dias antes do início do julgamento, documentos foram divulgados revelando o contato frequente de sua mãe, Mette-Marit, com o falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein.
Mais tarde, ela pediu desculpas ao rei Harald e à rainha Sonja por sua amizade de três anos com Epstein e admitiu ter feito um "julgamento equivocado", acrescentando em uma entrevista na televisão nacional que desejava nunca tê-lo conhecido.
Dois dias após o término do julgamento de seu filho, Mette-Marit recebeu um transplante de pulmão. Ela havia sido diagnosticada com uma forma rara de fibrose pulmonar oito anos antes.
Os médicos só poderão declarar se seu estado de saúde está estável um ano após o transplante.
O novo rei deverá enfrentar um período desafiador no início de seu reinado enquanto continua a apoiar a esposa. As crises em torno da monarquia afetaram sua popularidade. Uma pesquisa do jornal Aftenposten revelou que o apoio caiu de 72% em 2024 para 54%.
Outras pesquisas sugeriram que quase metade dos noruegueses acreditava que Mette-Marit não poderia mais se tornar rainha.
Apesar desse sentimento negativo em relação à monarquia, Vagle disse que as críticas raramente eram dirigidas ao falecido rei pessoalmente, deixando-a com a impressão de que "todos amavam o rei Harald".
"Quando as coisas dão errado na família real, as pessoas tendem a culpar qualquer um, menos o rei", observou o historiador Trond Norén Isaksen.
Segundo Tove Taalesen, há dúvidas sobre como os problemas enfrentados por sua família poderão repercutir em seu reinado, mas ela acredita que Haakon demonstrou liderança e conduziu bem as crises recentes.
A principal estratégia da família real tem sido se distanciar do julgamento de Marius Borg Høiby. Ole-Jørgen Schulsrud-Hansen acredita que isso foi amplamente bem-sucedido.
Embora possa haver um escrutínio mais aprofundado sobre os arquivos de Epstein, o foco dos noruegueses agora será lembrar de um "rei muito amado" e apoiar seu filho.
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