Texto de Josias de Souza:
"O Supremo Tribunal Federal chega a 2026 em situação paradoxal. A inédita condenação de um ex-presidente e de militares graduados por crimes contra a democracia fez subir alguma coisa à cabeça dos magistrados. Certos ministros, imaginando que o feito histórico bastaria para elevá-los à condição de estátua, passaram a se comportar como pardais de si mesmos, sujando com desenvoltura dialética suas testas de bronze.
Apagaram-se as luzes do inquérito sobre o escândalo do Master depois que o relator voou de carona em jatinho particular, ao lado de um advogado de diretor do banco. A toga mais poderosa foi constrangida com a apreensão de contrato firmado pelo escritório de advocacia de sua
mulher com o banco liquidado. Tomado pelo valor —R$ 129 milhões— o contratante estava mais interessado em comprar influência do que assessoria jurídica.
Num movimento constrangedor, o decano editou uma liminar-blindagem, para bloquear no Senado pedidos de impeachment contra si e seus pares. Negociou no balcão da baixa política um recuo parcial. Mas manteve o bode na antessala do Ano Novo.
Simultaneamente, o Código de Ética sugerido pelo presidente do tribunal é torpedeado internamente por colegas viciados em conchavos palacianos, indicações de cupinchas para tribunais inferiores, paloozas e rega-bofes bancados no exterior pelo déficit público e pelo lobby empresarial. Nesse ambiente, apenas o Supremo pode socorrer o Supremo.
A tarefa, que já era incontornável, tornou-se um desafio urgente."