TDAH: 5 sinais do transtorno que podem se manifestar no dia a dia

A condição pode afetar diferentes áreas da vida, como os estudos, o trabalho, os relacionamentos e a organização da rotina

Publicado em 24/07/2026, às 13h00
As manifestações do TDAH podem causar prejuízos em diferentes aspectos da vida (Imagem: Phalexaviles | Shutterstock)
As manifestações do TDAH podem causar prejuízos em diferentes aspectos da vida (Imagem: Phalexaviles | Shutterstock)

Por Redação EdiCase

O Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurocomportamental caracterizada principalmente por desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade. Em geral, manifesta-se ainda na infância, mas muitas pessoas recebem o diagnóstico somente na adolescência ou na vida adulta.

Os sintomas costumam se apresentar de forma diferente e, com frequência, são confundidos com preguiça, desinteresse, irresponsabilidade, desorganização ou até traços da personalidade, dificultando diferentes áreas da vida.

“É importante compreender que o TDAH não se resume a ser distraído, esquecido ou agitado. Para que exista uma hipótese diagnóstica, é necessário observar um padrão persistente, incompatível com o nível de desenvolvimento da pessoa e que provoque prejuízos significativos em diferentes áreas da vida”, explica a psicóloga clínica e especialista em neuropsicologia Dra. Vanessa Bulcão.

O TDAH não deve ser confundido com distrações ocasionais, pois se trata de uma condição do neurodesenvolvimento que exige avaliação e acompanhamento adequados. “Todo mundo pode se distrair, procrastinar, esquecer compromissos ou agir impulsivamente em alguns momentos. No TDAH, essas dificuldades são frequentes, persistentes e interferem de maneira relevante no funcionamento cotidiano”, acrescenta.

A seguir, confira como alguns sinais do TDAH podem se manifestar no dia a dia.

1. Dificuldade persistente para regular a atenção

Uma das manifestações mais conhecidas do TDAH é a dificuldade para sustentar a atenção, principalmente em tarefas prolongadas, repetitivas, pouco estimulantes ou que exigem esforço mental contínuo. A pessoa pode perder partes importantes de uma conversa, cometer erros por distração, precisar reler diversas vezes o mesmo conteúdo ou abandonar uma atividade antes de terminá-la. Também pode apresentar dificuldade para alternar o foco ou para se desligar de algo muito estimulante.

“A questão central não é uma incapacidade absoluta de prestar atenção, mas uma dificuldade para direcionar, sustentar e mudar o foco conforme as exigências da situação. A atenção pode variar de acordo com o interesse, a novidade, a urgência e o nível de estimulação da tarefa”, explica a Dra. Vanessa Bulcão.

Em atividades altamente interessantes, algumas pessoas relatam períodos intensos de concentração, popularmente chamados de hiperfoco — este, no entanto, não constitui, por si só, um critério diagnóstico de TDAH.

2. Esquecimentos e dificuldades de organização

Esquecer compromissos, prazos e objetos importantes, subestimar o tempo necessário para realizar uma tarefa, perder documentos e ter dificuldade para estabelecer prioridades são manifestações frequentemente relatadas. A pessoa também pode depender excessivamente de alarmes, listas e lembretes para organizar atividades que outras pessoas realizam de maneira mais automática.

“Em muitos casos, a pessoa sabe o que precisa fazer, mas encontra dificuldades para transformar essa intenção em uma sequência organizada de ações. Isso pode envolver planejamento, gerenciamento do tempo, memória de trabalho, monitoramento e capacidade de iniciar tarefas”, explica a psicóloga.

Nem todas as pessoas com TDAH apresentam dificuldades evidentes no dia a dia. “Algumas pessoas conseguem apresentar um bom desempenho porque desenvolveram mecanismos de compensação muito exigentes. Por trás de uma rotina aparentemente organizada, pode existir um grande esforço mental, ansiedade e sensação constante de sobrecarga”, alerta.

3. Impulsividade

A impulsividade pode aparecer na tendência a interromper conversas, responder antes que uma pergunta seja concluída, ter dificuldade para esperar, tomar decisões rapidamente ou agir sem avaliar suficientemente as consequências. Na vida adulta, também pode envolver compras impulsivas, mudanças precipitadas de planos, dificuldade para controlar reações emocionais ou comportamentos de risco.

“A impulsividade pode afetar os relacionamentos, a vida financeira e o ambiente profissional. Muitas vezes, a pessoa reconhece as consequências somente depois de ter agido e pode desenvolver sentimentos de culpa, frustração ou baixa autoestima”, afirma a Dra. Vanessa Bulcão.

4. Inquietação física ou mental

Em crianças, a hiperatividade pode ser mais facilmente percebida por comportamentos como correr, levantar-se constantemente, falar excessivamente ou apresentar dificuldade para permanecer sentado. Em adolescentes e adultos, essa manifestação pode tornar-se menos visível. A pessoa pode mexer constantemente as mãos ou os pés, mudar de posição com frequência, realizar várias atividades simultaneamente ou sentir grande desconforto em situações que exigem espera e inatividade.

“Nem toda pessoa com TDAH apresenta uma hiperatividade física evidente. Na vida adulta, é comum encontrarmos relatos de inquietação interna, sensação de estar sempre em movimento, dificuldade para descansar e necessidade constante de ocupação”, explica a psicóloga.

Mulher sentada e com uma das mãos apoiada na cabeça
Começar vários projetos ao mesmo tempo ou abandonar tarefas antes de concluí-las são queixas comuns entre pessoas com TDAH (Imagem: Miljan Zivkovic | Shutterstock)

5. Dificuldade para iniciar e concluir tarefas

Procrastinar, adiar atividades importantes, começar vários projetos ao mesmo tempo ou abandonar tarefas antes de concluí-las são queixas comuns entre pessoas com TDAH. A dificuldade pode ser mais intensa quando a atividade é longa, monótona, possui várias etapas ou oferece uma recompensa distante. Em contrapartida, prazos muito próximos e situações de urgência podem aumentar temporariamente a capacidade de mobilização.

“Não se trata necessariamente de falta de vontade. Muitas pessoas com TDAH desejam realizar a tarefa e conhecem as suas consequências, mas apresentam dificuldade para iniciar, organizar e manter o esforço até a conclusão. É comum que consigam agir apenas quando a pressão se torna muito elevada”, destaca a Dra. Vanessa Bulcão.

O diagnóstico correto faz toda a diferença

A presença de um ou mais desses sinais não significa necessariamente que a pessoa tenha TDAH. Dificuldades de atenção, organização, memória e controle dos impulsos também podem estar relacionadas à ansiedade, depressão, estresse crônico, privação de sono, uso de substâncias, alterações hormonais, condições clínicas, transtornos de aprendizagem e outras condições do neurodesenvolvimento.

“Na prática clínica, não avaliamos somente a existência dos sintomas. Investigamos quando começaram, com que frequência aparecem, em quais situações ocorrem, que prejuízos provocam e se existem outras explicações possíveis para essas dificuldades”, afirma a Dra. Vanessa Bulcão. Segundo ela, esses passos são essenciais, já que o transtorno também pode passar despercebido durante anos, inclusive em pessoas que tiveram bom desempenho acadêmico ou profissional.

“A pessoa pode ter recebido boas notas, concluído os estudos ou construído uma carreira e, ainda assim, apresentar TDAH. O desempenho aparente não conta toda a história. É necessário compreender o esforço utilizado, as estratégias de compensação, a instabilidade do desempenho e o impacto emocional provocado por essas dificuldades.  A avaliação pode envolver entrevista clínica, análise da história do desenvolvimento, informações de familiares ou pessoas próximas, escalas e questionários, investigação de condições associadas e, quando indicada, avaliação neuropsicológica”, ressalta.

O diagnóstico é essencialmente clínico e deve ser realizado por um profissional qualificado. “Os testes neuropsicológicos contribuem para compreender o perfil cognitivo e funcional, mas nenhum teste isolado confirma ou exclui o TDAH. O diagnóstico é clínico e deve resultar da integração de diferentes fontes de informação”, acrescenta a psicóloga.

Compreender o próprio funcionamento favorece intervenções efetivas

A Dra. Vanessa Bulcão ressalta que compreender o próprio funcionamento é um passo importante para desenvolver estratégias mais eficazes. “Muitas pessoas chegam à avaliação acreditando que são incapazes, preguiçosas ou desorganizadas. Compreender o próprio funcionamento não significa utilizar o diagnóstico como justificativa para tudo, mas reconhecer as dificuldades, identificar os recursos preservados e construir estratégias mais adequadas. Quanto mais precisa for a compreensão do funcionamento da pessoa, maiores são as possibilidades de estabelecer intervenções efetivas e promover autonomia, autoestima e qualidade de vida”, conclui.

Por Angela Rocha

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