O novo filme 'Digger', estrelado por Tom Cruise e dirigido por Alejandro González Iñárritu, critica a cultura meritocrática americana e a geopolítica, retratando um bilionário que enfrenta as consequências de uma catástrofe climática causada por sua empresa de petróleo.
Cruise, que se distancia de seus papéis tradicionais, interpreta um personagem que representa o eleitor republicano rico, enquanto a trama aborda a explosão de uma plataforma de petróleo que resulta em um tsunami devastador na Europa.
Iñárritu destaca a urgência da crise climática e a necessidade de reflexão artística em tempos difíceis, enquanto Cruise expressa seu desejo de que o público tenha experiências variadas com o filme, que já está em exibição nos cinemas.
Eles conhecem os fatos, mas a história ainda será contada. Essa é a máxima de Digger Rockwell, oligarca que usa dinheiro e influência para manipular a opinião pública a favor de seus negócios. Pouco a pouco, sua petroleira aproxima o mundo da catástrofe climática. Quem encarna o velho calvo, barrigudo e mesquinho é alguém que passou a carreira fugindo desse perfil, o galã Tom Cruise.
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Aos 64 anos, o ator se consolidou como o grande rosto do cinema de ação americano. Após dar vida a heróis militares e agentes destemidos em franquias como "Missão: Impossível" e "Top Gun", ele aparece com próteses de papada, careca e barriga para protagonizar "Digger", novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, num trabalho que é sua tentativa mais clara de arrematar um Oscar, prêmio que nunca venceu.
Se o filme dividiu a crítica, parece consenso que o bilionário fanfarrão é um dos melhores papéis da carreira de Cruise, concorrendo com personagens complexos como o misógino Frank em "Magnólia" ou o veterano de guerra Ron em "Nascido em Quatro de Julho". "Nunca tive o privilégio de poder interpretar um personagem como esse no cinema", disse o ator, eufórico, em entrevista a jornalistas.
Na contramão dos blockbusters que fizeram de Cruise um símbolo sexual, "Digger" caçoa do establishment do chamado norte global, em especial dos Estados Unidos. Iñárritu dispara contra a geopolítica e a cultura meritocrática americana com sátiras ácidas voltadas a seus bilionários e ao próprio presidente Donald Trump.
As referências ao mundo real são múltiplas. Digger usa chapéu e botas de vaqueiro e fala com o sotaque carregado do sul dos Estados Unidos, de forma até cartunesca. Ele é o arquétipo do eleitor republicano rico e conta, cheio de pompa, como seu bisavô descobriu petróleo em sua busca pelo sonho americano. Para o empresário, enriquecer justifica qualquer empreitada.
Mas as coisas azedam para Digger quando uma de suas plataformas de petróleo na Groenlândia explode e causa o desprendimento de uma geleira monumental que se chocará contra a Europa. Na vida real, o território é alvo de Trump, que ameaça invadir a ilha desde o início de seu mandato.
"À medida que desenvolvemos essa história, a realidade começou a nos ultrapassar. Ela está avançando mais rápido do que qualquer ficção que poderíamos inventar. Foi muito angustiante, era como fazer um documentário sobre o futuro", diz Iñarritú, ao lado de Cruise.
O diretor mexicano, vencedor do Oscar em 2015 por "Birdman", teve a ideia de "Digger" durante as gravações de "O Regresso".
O longa que deu a Leonardo DiCaprio sua primeira estatueta dourada conta a história de um homem que marcha para o oeste dos Estados Unidos, sozinho, durante um inverno rigoroso em 1823. O desafio de filmar ao ar livre foi a ausência da neve e do gelo esperados nas locações. Uma consequência já visível das mudanças climáticas em 2014, segundo Iñárritu.
Em "Digger", o impacto da geleira no norte da Europa causa um tsunami que deixará milhares de pessoas desabrigadas. O personagem de Cruise parte, então, para uma corrida contra o tempo para tentar mitigar a repercussão negativa do desastre não só para seus negócios, mas para o próprio governo americano, de quem ele é parceiro de longa data.
Durante a crise, o bilionário se reúne com o presidente, encarnado por John Goodman, e com donos de empresas de mídia e de inteligência artificial, e vai parar nas Nações Unidas para enfrentar parlamentares europeus. Ele é acompanhado por Ganesh, cientista interpretado por Riz Ahmed que trabalhou para Digger a vida inteira, mesmo diante das violações constantes do empresário à segurança ambiental.
"Todos os dias vemos pessoas no comando dizerem, com um tom satírico e absurdo, que está tudo bem, embora saibamos que não está", diz Iñárritu. "Como contamos a nossa própria história? Não sei se alguém tem condições de definir algo, mas o que acontece parece uma loucura coletiva."
Nos moldes de outros longas lançados desde a reeleição de Donald Trump, como "Mickey 17", de Bong Joon-ho, "Eddington", de Ari Aster, "Bugonia", de Yorgos Lanthimos, e o próprio "Uma Batalha Após a Outra", coroado com o Oscar de melhor filme neste ano, "Digger" usa o orçamento de grandes estúdios para tirar sarro do status quo.
A diferença é que Digger não é exatamente quem parece ser. Com uma boa dose de metalinguagem, Iñárritu também ironiza a própria tendência de Hollywood de produzir filmes caros, comandados por diretores de prestígio, que recorrem ao absurdo para fazer críticas políticas.
Com Cruise na dianteira, "Digger" expressa o declínio do herói americano, que dominou por tantos anos a narrativa cinematográfica, diante das políticas agressivas de Trump.
"Não é o melhor momento para produzir filmes nos Estados Unidos. Estão caminhando para o controle da linguagem, da exposição e da arte. Todos os artistas e instituições estão sob alerta", disse Iñárritú em entrevista a este jornal no ano passado, quando relançou "Amores Brutos" nos cinemas.
O diretor se referia às investidas do republicano para tentar controlar o setor cultural, além do endurecimento de leis contra imigrantes no país. Uma realidade que ia de encontro à própria trajetória do diretor que, depois do sucesso de "Amores Brutos", deixou a Cidade do México em direção a Los Angeles. Nos anos 2000, junto a nomes como Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón, ele injetou fôlego no polo industrial do cinema.
Como outros filmes de Iñárritu, "Digger" explora a ligação de pessoas por meio de uma tragédia em comum. Nesse caso, a hecatombe climática. Se "Birdman", seu trabalho mais conhecido, trazia uma reflexão mais intimista sobre a busca por validação do artista, o novo longa reflete sobre os limites da arte, mesmo que política, num mundo devastado e carente de medidas concretas.
É uma preocupação que faz coro a filmes apresentados no último Festival de Cannes, em maio. Alguns dos principais títulos dentro e fora de competição propuseram uma meditação sobre o sentido de criar em tempos difíceis, de guerras e intolerância. Se "Digger" elabora uma conclusão menos idealista sobre o assunto, a negatividade parece não afetar Cruise.
"Iñárritu ergue um espelho diante de nós para podermos refletir, com um humor extraordinário. Para mim, não há tom acusatório", diz o ator, uma das poucas estrelas que ainda não fez trabalhos para o streaming.
Diante de uma crise que parece grande demais para a arte, Cruise não está disposto a declarar esta uma missão impossível. "Quero que o público tenha sua própria experiência. Cada um vai sair com seu ponto de vista, e essa é a beleza do cinema."
DIGGER
- Onde Nos cinemas
- Classificação 14 anos
- Elenco Com Tom Cruise, Sandra Huller e John Goodman
- Produção EUA, México, Reino Unido, 2026
- Direção Alejandro Iñárritu
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