Alagoas

Um ano após ser transplantada, jovem reencontra equipe do Samu

Millena Gouveia foi levada de helicóptero até Recife (PE), onde recebeu novo fígado

Assessoria | 22/07/19 - 18h56
Olival Santos/Ascom Sesau

“Existem momentos na vida em que dependemos de outras pessoas e apenas os nossos esforços não são suficientes para superarmos um obstáculo. Foi no momento mais difícil da minha vida que encontrei verdadeiros anjos, que conseguiram me ajudar e me dar uma lição do que é o amor ao próximo”. Essas foram as palavras de Millena Gouveia, 21 anos, ao reencontrar a equipe aeromédica do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que a transportou de Maceió para Recife (PE), em julho do ano passado, para que ela fosse submetida a um transplante de fígado.

A luta da estudante de Gastronomia começou em maio de 2018, quando começou a se sentir cansada, mas imaginou era consequência, apenas, das atividades diárias do trabalho e da rotina da faculdade. No entanto, como a situação persistia, ela procurou ajuda médica e foi diagnosticada com hepatite autoimune fulminante.

“Eu não imaginava que estava doente e, como é comum, fui adiando minha ida ao médico. Mas, no dia 26 de maio do ano passado, quando acordei e me olhei no espelho, vi que meus olhos estavam muito amarelados. Nessa hora tomei um susto, percebi que realmente estava doente e decidi procurar uma unidade de saúde”, lembrou Millena Gouveia.

No início, os médicos imaginaram que seria uma simples hepatite viral e que, ao passar dos dias, a garota iria melhorar, mas aconteceu o contrário. Millena percebeu a piora nos sintomas, principalmente o cansaço, a fraqueza, a insônia e a icterícia. Em uma das idas ao hospital, onde passaria por mais uma consulta de acompanhamento, foi percebida uma alteração nos exames.

“A médica me fez algumas perguntas e respondi que estava muito pior do que na primeira consulta. Ela estranhou e solicitou um ultrassom para uma melhor investigação. Depois desse exame, os médicos disseram que eu estava com pedra na vesícula e esses cálculos tinham migrado para a via biliar”, relembra.

Com o resultado do exame e o diagnóstico em mãos, Millena deveria ser submetida a uma cirurgia para a correção do problema informado pelos médicos. “Durante a cirurgia, o cirurgião não encontrou nenhuma pedra na vesícula ou na via biliar. Mas observou coágulos de sangue no meu fígado, então retirou um pedaço do órgão para ser realizada uma biópsia”, contou a jovem.

Após o procedimento, Millena foi transferida para a enfermaria, onde ficaria se recuperando da cirurgia, mas a jovem desenvolveu um quadro de encefalopatia hepática e precisou ser transferida imediatamente para a UTI. “Os médicos começaram uma investigação para descobrir o que eu tinha, vários hepatologistas foram ajudar nesse caso. Foi quando uma das médicas entrou em contato com a equipe do Hospital Oswaldo Cruz, em Recife, que enviou um profissional deles para me avaliar. Em uma ressonância magnética foi descoberta a hepatite autoimune fulminante”, lembrou.

Transporte ágil e adequado

Pela gravidade do quadro de saúde de Millena, o indicado era a realização de um transplante de fígado. Como Alagoas não há, ainda, um hospital credenciado pelo Ministério da Saúde para realizar transplante de fígado, a jovem precisava ser transferida para a cidade de Recife, até o Hospital Oswaldo Cruz. Por se tratar de um caso de urgência, o Samu Aeromédico foi acionado no dia 10 de julho de 2018. Como a saúde da paciente era instável, ela não poderia ser transportada por via terrestre dentro de uma ambulância convencional.

Segundo Simão Tavares, médico do Samu Alagoas, mesmo tendo sido um transporte de risco, pelo estado grave da paciente, a utilização da aeronave foi crucial para o sucesso da ocorrência. “A condição clínica da Millena inspirava muito cuidado e, por causa disso, poderíamos ter alguma intercorrência durante o voo. Assumimos os riscos, por ser a única alternativa para ela sobreviver e passar pelo transplante de urgência. Foi a opção correta e adequada para a situação. O transporte durou menos de 50 minutos”, relatou o médico.

Simão Tavares ainda lembra que esse tipo de ocorrência não é algo presente na rotina da tripulação, que atende, principalmente, pacientes vítimas de trauma, causados por acidentes automobilísticos. “Nossa equipe transporta muitos pacientes desacordados e não conseguimos ter contato com eles. Com Millena foi totalmente ao contrário, como ela estava acordada, teve contato com todos da tripulação. Nós percebemos que ela estava um pouco nervosa, ansiosa, apreensiva, e demos para ela um dos nossos comunicadores e fomos conversando até a chegada em Recife”, recordou o médico.

Após sete dias internada, no dia 17 de julho, Millena fez o transplante de fígado, que veio do estado do Paraná. Durante o procedimento ela teve três paradas cardíacas, que foram revertidas. Depois da cirurgia, ela precisou ficar 30 dias internada na UTI, para conter uma hemorragia e ainda passou por 10 sessões de hemodiálise, por complicações que teve nos rins. Após a recuperação da cirurgia, Millena voltou para Maceió e continua indo para Recife fazer consultas periódicas.

Encontro Inesperado

Após um ano do transporte feito pelo Samu, e recuperada do transplante, a jovem queria reencontrar os socorristas que fizeram parte da ocorrência e que, segundo Millena, se tornaram parte da vida dela. O encontro aconteceu na última quarta-feira (17), exatamente um ano depois de ter sido transplantada. Tudo foi organizado pela família da menina, junto com Alexandre Soza, enfermeiro do Samu Alagoas, que também participou do transporte.

“Uma tia dela entrou em contato comigo para fazermos esse encontro surpresa para Millena. Então organizei com todos que participaram da ocorrência naquele dia, e quando a equipe soube, ninguém hesitou em estar presente nesse momento. Foi uma emoção enorme para todos nós; pudemos ver como a Millena está bem e esse, sem dúvida nenhuma, é um atendimento que vai ficar marcado para o resto das nossas vidas”, disse o enfermeiro.

Comemoração em dobro

O encontro ainda contou com a participação do sargento do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas (CBM/AL), Leonardo Pimentel, que estava como tripulante operacional do helicóptero. “É uma felicidade enorme quando sabemos que as ocorrências tiveram um final feliz e, para mim, esse encontro foi ainda mais especial, por poder compartilhar desse momento no dia do aniversário da Millena. Foi muito marcante para mim e tenho certeza que foi para ela também”, disse.

O médico Simão Tavares também falou sobre o sentimento de reencontrar Millena e poder ver que uma paciente tão grave está bem e feliz junto com a família. “Nós como socorristas não temos a felicidade de entregar o paciente de volta para a família, sempre fazemos o atendimento inicial e entregamos aos cuidados de uma unidade de saúde. Esse reencontro é um dos raros momentos que conseguimos ver uma paciente recuperada, depois de vê-la muito grave”, afirmou o médico.

Para a mãe de Millena, Rosemeire Gouveia, esse encontro era tudo que a família queria e não podia ter sido em uma data diferente. “Teremos um sentimento eterno de gratidão por todos da equipe. Foram esses profissionais que fizeram um transporte rápido e que ajudaram a salvar a vida da minha filha”, disse.

A jovem ficou muito emocionada ao encontrar os anjos que deram a oportunidade de continuar a viver. “Eu tinha que agradecer pessoalmente a eles, tinha que poder dar um abraço nas pessoas que foram tão atenciosas comigo durante todo o percurso até Recife. Se não fossem por eles, eu possivelmente não teria feito o transplante. Eles fazem parte da minha história”, disse Millena Gouveia.

Doação de órgãos

Antes de toda essa situação, Millena não fazia ideia de como era o processo da doação de órgãos. “Eu só dei o real valor para a doação de órgãos quando senti na pele. E percebi o quanto é importante comunicar a família sobre a vontade de ser doador de órgãos e poder ajudar outras pessoas a terem suas vidas salvas”, disse.

Em Alagoas são feitos transplantes de rins, córneas e coração. A fila estadual de pessoas à espera de um transplante ainda é grande. Segundo a Central de Transplantes de Órgãos, 211 esperam por um rim, 207 por uma córnea e uma pessoa aguarda um coração.

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