Ruínas, grutas e túneis intransponíveis para robôs passam a ter um novo tipo de explorador: baratas vivas equipadas com câmeras e sistemas de injeção controlados à distância.
Pesquisadores da Universidade de Queensland, em parceria com a University of New South Wales, criaram o sistema para que o inseto funcione como uma plataforma de resgate, encontrando vítimas soterradas e dando início a algum tipo de atendimento no local.
A ideia é que o inseto já esteja junto à vítima quando as equipes de resgate ainda estiverem trabalhando para romper o entulho.
Baratas vão ser capazes de participar de resgates para ajudar vítimas após nova tecnologia ser anunciada
Faz vinte anos que cientistas buscam transformar insetos em sensores móveis capazes de operar em locais de acesso restrito.
A diferença agora é que os animais também podem iniciar algum tipo de intervenção enquanto as equipes ainda trabalham para abrir passagem.
A espécie escolhida foi a barata gigante escavadora do norte de Queensland, que chega a oito centímetros de comprimento e suporta o peso de componentes eletrônicos sem perder a mobilidade.
Cada animal recebe um kit miniaturizado que permite ao operador guiar seus movimentos à distância.
Parte dos exemplares carrega apenas câmeras, transmitindo imagens em tempo real do ponto onde a vítima está presa.
Outros vêm com sistemas de injeção que a equipe de resgate aciona remotamente, decidindo quando e o que aplicar.
Em laboratório, com alvos de silicone e pele de porco em ambiente controlado, os chamados “paraborgs” acertaram a injeção em 95% das tentativas quando o alvo ficava a 15 centímetros de distância.
Esse índice caiu para 72% quando os pesquisadores avaliaram o processo completo: deslocar o inseto, corrigir sua posição e aplicar a substância sem falhas.
Programar o inseto para alcançar o ponto exato e permanecer imóvel até concluir a tarefa segue sendo o maior obstáculo da pesquisa.
Segundo o investigador Thang Vo-Doan, da Universidade de Queensland, a proposta é transformar os animais em plataformas de intervenção, sem tirar das pessoas o controle sobre decisões médicas.
Vantagem em terrenos que travam robôs
Escombros de uma estrutura desabada costumam ter aberturas irregulares que impedem drones e máquinas rígidas de avançar.
O corpo maleável de uma barata se encaixa em fendas estreitas, o que dá a ela mais chance de atravessar cavernas obstruídas ou túneis colapsados do que robôs convencionais.
Pesquisadores testaram escaravelhos ciborgues em tarefas simples de deslocamento, mas o porte maior das baratas se mostrou mais eficiente para carregar equipamentos pesados.
A combinação de flexibilidade biológica e capacidade de carga permite operações em locais que a engenharia tradicional não alcançaria sozinha.
As baratas não são o único caso de organismos combinados com eletrônica.
Na Caltech, águas-vivas recebem marca-passos eletrônicos para fins de estudo.
Já na Universidade Cornell um cogumelo shimeji serve de comando para robôs, reagindo a estímulos e determinando os movimentos da estrutura.
Essas máquinas que combinam tecido vivo e circuitos eletrônicos têm alimentado uma discussão sobre até onde é aceitável interferir em organismos vivos com propósitos de resgate ou pesquisa científica.





