O vilarejo de Bolotana, localizado na região montanhosa da Sardenha, na Itália, chamou a atenção de pesquisadores por apresentar uma proporção incomum de mulheres que chegam aos 100 anos. Um estudo publicado em 5 de outubro na revista científica Frontiers in Aging estimou que 13,83% das mulheres que atingem os 70 anos na localidade podem chegar ao centenário, índice quase quatro vezes maior que a média italiana de referência, de aproximadamente 3,54%.
Os resultados colocaram o município, que tem cerca de 2.300 habitantes, entre os candidatos a uma nova chamada “zona azul”, termo usado para regiões associadas à longevidade excepcional. A descoberta despertou o interesse da comunidade científica porque, embora a Sardenha já seja conhecida por concentrar pessoas longevas, Bolotana apresenta um padrão especialmente favorável entre as mulheres.

A pesquisa analisou dados do período de 2021 a 2025 e identificou uma sobrevivência excepcional na velhice, sobretudo entre as moradoras. No entanto, os autores ressaltaram que ainda são necessários estudos adicionais para confirmar se o fenômeno se mantém ao longo do tempo e para compreender quais fatores podem estar relacionados a essa longevidade.
O que os pesquisadores descobriram sobre as centenárias?
A equipe identificou 38 pessoas que chegaram aos 100 anos entre 3.060 indivíduos nascidos em Bolotana de 1900 a 1925. Durante o período principal analisado, entre 2021 e 2025, a expectativa de vida restante das mulheres aos 70 anos foi estimada em 20,85 anos. Isso significa que, considerando as condições observadas no período, elas poderiam viver, em média, até perto dos 91 anos.
Os resultados também mostraram uma diferença expressiva entre os sexos. Entre os homens que chegavam aos 70 anos, a probabilidade estimada de alcançar os 100 era de 4,92%. Entre as mulheres, o índice chegava a 13,83%.
A equipe comparou os números com dados da província de Nuoro, de outras regiões da Sardenha e da Itália. O desempenho feminino de Bolotana ficou acima dos valores observados nessas populações de referência, o que reforçou o interesse científico pela localidade.
Um dos aspectos que ajudaram a sustentar a pesquisa foi a disponibilidade de documentos históricos. Registros civis e arquivos paroquiais permitiram cruzar informações sobre nascimentos, batismos e mortes, reduzindo o risco de erros na identificação das idades dos moradores.
Qual pode ser o segredo da longevidade em Bolotana?
Os pesquisadores ainda não identificaram uma causa definitiva para a concentração de mulheres centenárias. Entre as hipóteses investigadas estão fatores genéticos, alimentação, atividade física cotidiana e relações sociais, que podem atuar em conjunto ao longo da vida.
O estilo de vida dos moradores oferece algumas pistas. Bolotana tem ruas íngremes, e caminhar faz parte da rotina de quem precisa se deslocar pelo município. A alimentação também pode ter influência, já que muitos habitantes consomem produtos locais, incluindo alimentos frescos e azeite de oliva.
Outro aspecto que despertou interesse foi a proximidade entre familiares e a força dos vínculos comunitários. Em uma localidade pequena, o contato frequente com parentes e vizinhos pode favorecer a convivência e reduzir o isolamento social, embora o estudo não tenha comprovado que esse fator seja responsável pela longevidade observada.
A presença de mulheres muito idosas que continuam socialmente ativas também chamou a atenção dos pesquisadores. Esses relatos ajudam a orientar novas perguntas sobre a relação entre envelhecimento, autonomia e convivência, mas não são suficientes, isoladamente, para estabelecer uma explicação científica.
Bolotana pode se tornar uma nova zona azul?
As chamadas zonas azuis são regiões associadas a uma concentração elevada de pessoas que vivem até idades avançadas. Entre os locais tradicionalmente estudados estão Okinawa, no Japão, Icária, na Grécia, e partes da própria Sardenha.
Bolotana pode vir a integrar esse grupo, mas os autores da pesquisa adotaram cautela. A vantagem observada entre as mulheres variou conforme o período analisado, e os resultados históricos anteriores não apresentaram o mesmo padrão expressivo em todas as comparações.
Por isso, a localidade é considerada uma candidata a zona azul, e não uma nova região oficialmente confirmada como tal. Os cientistas precisarão acompanhar os indicadores demográficos e verificar se a tendência se mantém durante períodos mais longos.
A pesquisa, publicada em outubro de 2026, amplia o conhecimento sobre a longevidade feminina e oferece um ponto de partida para investigar como características biológicas, hábitos cotidianos e relações sociais podem influenciar o envelhecimento. O caso de Bolotana mostra que viver até os 100 anos pode estar associado a uma combinação de fatores, mas descobrir o peso de cada um deles ainda é um desafio para a ciência.





