Na terça-feira (8), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), trazendo informações sobre o desempenho de diversos países no mundo. Entre eles, o Brasil. Nesta edição, a pesquisa trouxe um diferencial: além de medir o conhecimento dos alunos em leitura, ciências e matemática, ela também mediu a utilização de inteligência artificial (IA) no aprendizado.
Diante disso, foi constatado que quase metade dos jovens brasileiros utiliza IA para aprender. Além disso, em entrevista ao G1, o pesquisador do centro de pesquisas Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), Ernesto Martins, chamou a atenção para um problema enfrentado nas escolas: a leitura apressada e respostas rasas devido a tecnologia.
O especialista afirmou que ainda não é possível medir os impactos da utilização da IA no ensino brasileiro. Porém, o fato de os alunos estarem assumindo um padrão de leitura mais resumida e apressada pode afetar a qualidade de suas respostas e o nível de conhecimento absorvido.
Brasil supera média da OCDE no uso de IA
Os números do PISA 2025 mostram que 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos afirmaram utilizar chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender. A média registrada entre os países e economias da OCDE foi de 46%.
A diferença fica ainda mais evidente quando o objetivo é fazer uma pesquisa inicial sobre um assunto desconhecido. No Brasil, 40% dos estudantes disseram utilizar ferramentas de IA para essa finalidade, enquanto a média da OCDE ficou em 31%.
Isso mostra que os chatbots já deixaram de ocupar apenas um espaço experimental entre os estudantes. Eles passaram a integrar atividades relacionadas ao aprendizado, principalmente como uma ferramenta para iniciar pesquisas e obter uma primeira explicação sobre determinado assunto.
Como os estudantes brasileiros utilizam os chatbots
O levantamento também permite entender que a inteligência artificial não é utilizada de uma única maneira pelos alunos. O tipo de tarefa realizada com a ferramenta muda o papel que ela desempenha no processo de aprendizagem.
No Brasil, 31% dos estudantes afirmaram recorrer aos chatbots para resumir textos que precisavam ler. O percentual é próximo da média da OCDE, de 30%. Outros 27% utilizam a tecnologia para produzir rascunhos de trabalhos escritos, índice ligeiramente inferior aos 29% registrados na média dos países da organização.
Esses usos têm uma diferença importante. Pesquisar um assunto com auxílio da IA pode funcionar como uma etapa inicial de contato com determinado conteúdo. Já pedir que a ferramenta reduza um texto que deveria ser lido pelo próprio estudante pode diminuir justamente o contato com as informações que precisam ser interpretadas.
É nesse ponto que surge o problema relacionado à leitura. A tecnologia consegue acelerar o acesso ao conteúdo, mas isso não significa necessariamente que o estudante tenha desenvolvido a capacidade de compreender, comparar e avaliar aquilo que recebeu.
O risco está no uso passivo da tecnologia
O próprio relatório da OCDE indica que a relação entre inteligência artificial e desempenho escolar é complexa. Estudantes que utilizam chatbots para determinadas tarefas escolares tendem a apresentar desempenho inferior em ciências quando comparados a colegas que não recorrem às ferramentas para essas mesmas atividades. Por outro lado, entre aqueles que utilizam IA de maneira geral para aprender, o uso moderado aparece associado a resultados semelhantes ou ligeiramente melhores em determinadas condições.
Isso significa que a presença da inteligência artificial, por si só, não determina se o aluno terá um desempenho melhor ou pior. O efeito depende de como a ferramenta é incorporada ao processo de aprendizagem.
Quando o chatbot serve para explicar um conceito, sugerir caminhos de pesquisa ou ajudar o estudante a identificar uma dúvida, ele pode funcionar como um recurso adicional. O problema aparece quando a ferramenta passa a substituir a etapa em que o próprio aluno precisa ler, raciocinar e construir uma resposta.
A OCDE destaca justamente essa diferença ao analisar os resultados do PISA. O uso da tecnologia pode contribuir para o aprendizado quando mantém o estudante envolvido no processo cognitivo, mas pode ter efeito contrário quando simplesmente elimina o esforço necessário para compreender o conteúdo.





