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Estudo encontra efeito inesperado dos adoçantes que pode passar de uma geração para outra

Por Matheus Chaves
11/09/2026
Adoçante à base de proteína consegue ser mais doce que o açúcar

Imagem: Magnific

Os adoçantes servem como substitutos do açúcar, ajudando no processo de emagrecimento e controle da diabetes. Todavia, um estudo realizado por pesquisadores no Chile e publicado na Frontiers in Nutrition trouxe à tona um efeito inesperado do alimento e que pode ser passado para as gerações futuras: o aumento da vulnerabilidade a condições como a diabetes.

Pesquisa analisou sucralose e stevia

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade do Chile e avaliou os efeitos da sucralose e da stevia em camundongos. O objetivo era entender não apenas o impacto desses adoçantes no organismo dos animais que os consumiam, mas também verificar se determinadas alterações poderiam permanecer nas gerações seguintes.

Para isso, os pesquisadores dividiram 47 camundongos adultos em grupos que receberam água, água com sucralose ou água com stevia durante 16 semanas. Depois desse período, os animais foram utilizados para gerar a primeira geração de descendentes. Esses descendentes, por sua vez, deram origem a uma segunda geração.

Um detalhe importante é que os animais das gerações seguintes não receberam diretamente os adoçantes. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram observar se mudanças associadas ao consumo dos pais poderiam aparecer também em descendentes que não tiveram contato direto com as substâncias.

Alterações apareceram no metabolismo

Os resultados mostraram que a sucralose provocou alterações relacionadas ao controle da glicose principalmente nas gerações posteriores. Nos machos da primeira geração, por exemplo, os pesquisadores identificaram mudanças na resposta à glicose. Alguns efeitos também permaneceram na segunda geração.

Isso não significa que os animais tenham necessariamente desenvolvido diabetes. O que o estudo encontrou foram alterações metabólicas que podem indicar maior vulnerabilidade a problemas relacionados ao controle da glicose.

Essa diferença é importante porque uma alteração na resposta do organismo à glicose não equivale automaticamente ao diagnóstico de uma doença. O resultado indica que o funcionamento metabólico foi modificado, mas ainda são necessárias outras pesquisas para determinar se esse mecanismo teria consequências semelhantes em seres humanos.

O intestino pode estar envolvido no efeito

Uma das descobertas mais importantes está relacionada ao microbioma intestinal. Os pesquisadores observaram mudanças na composição das bactérias presentes no intestino dos animais que receberam os adoçantes, especialmente no grupo exposto à sucralose.

Essas alterações foram acompanhadas por uma redução na concentração de ácidos graxos de cadeia curta, substâncias produzidas por determinadas bactérias intestinais durante a fermentação de componentes da alimentação. Esses compostos participam de diferentes processos relacionados ao funcionamento do intestino e ao metabolismo.

O efeito também apareceu nas gerações seguintes. Ou seja, mesmo sem receber diretamente sucralose ou stevia, os descendentes apresentaram alterações relacionadas ao microbioma e aos seus produtos metabólicos.

Uma possível explicação está na transmissão da microbiota entre gerações. A colonização do intestino começa ainda nos primeiros períodos de vida e pode ser influenciada pelo ambiente e pelos microrganismos presentes nos pais. Dessa forma, uma alteração provocada na microbiota parental poderia interferir na formação do microbioma dos descendentes.

Sucralose apresentou efeito mais persistente

Embora as duas substâncias tenham produzido alterações, os efeitos não foram iguais. A sucralose provocou mudanças mais amplas causando a desaceleração do metabolismo por duas gerações, elevando a quantidade de bactérias ruins e estimulando genes de inflamação. 

Já os efeitos observados com a stevia foram, em geral, mais limitados à primeira geração de descendentes. Algumas alterações relacionadas a genes inflamatórios apareceram nos animais da geração seguinte ao grupo parental, mas não permaneceram da mesma maneira na segunda geração.

Segundo os pesquisadores, uma possível diferença está na forma como cada substância é processada pelo organismo e interage com as bactérias intestinais. A stevia, por exemplo, é transformada por microrganismos do intestino antes que seus componentes sejam absorvidos, enquanto a sucralose apresentou impacto mais acentuado na composição da microbiota no experimento.

Isso significa que não é possível colocar todos os adoçantes na mesma categoria quando se analisa seus possíveis efeitos biológicos. Substâncias diferentes podem interagir de maneiras distintas com o intestino e com o metabolismo.

O que o resultado significa para quem consome adoçantes?

A pesquisa não sustenta a conclusão de que adoçantes devam ser considerados responsáveis pelo desenvolvimento de diabetes em seres humanos. O que ela acrescenta é uma nova questão ao debate sobre o uso prolongado dessas substâncias.

Os adoçantes não nutritivos foram desenvolvidos justamente para oferecer sabor doce com pouca ou nenhuma contribuição calórica. Por isso, são utilizados em produtos destinados à redução do consumo de açúcar e também por pessoas que precisam controlar a ingestão de carboidratos.

O problema é que reduzir calorias não significa necessariamente que uma substância seja biologicamente neutra. O estudo mostra que, pelo menos nos camundongos analisados, sucralose e stevia estiveram associadas a mudanças no microbioma, na produção de metabólitos e na atividade de genes ligados ao metabolismo e à inflamação.

Dessa forma, a principal contribuição da pesquisa está em ampliar a investigação sobre os efeitos de longo prazo dos adoçantes. Antes de transformar esse resultado em uma recomendação para a população, porém, serão necessários estudos em humanos capazes de verificar se as alterações observadas nos animais também acontecem em pessoas.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Matheus Chaves

Matheus Chaves

Jornalista e produtor de conteúdo com mais de nove anos de experiência em comunicação digital, produção editorial e jornalismo online.

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