Pesquisadores brasileiros do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (Cepid B3) identificaram um novo patógeno, batizado de KP47.
Ele é capaz de infectar e eliminar diferentes linhagens da Klebsiella pneumoniae, uma bactéria resistente a múltiplos antibióticos e responsável por casos graves de pneumonia, infecções do trato urinário e sepse.
Vírus que matam bactérias, chamados bacteriófagos, ressurgem como alternativa promissora diante da crescente resistência dos patógenos aos medicamentos tradicionais.
O trabalho, publicado na revista BMC Microbiology, aponta para uma solução em potencial contra uma ameaça crescente de saúde pública.
Especialistas dizem que o vírus KP47 demonstra eficácia contra diferentes espécies da bactéria e produz uma enzima capaz de desintegrar os biofilmes que a protegem, característica com grande potencial biotecnológico.
Uma descoberta brasileira pode ajudar a combater bactérias que já não respondem aos antibióticos
Também conhecidos como fagos, esses vírus infectam exclusivamente bactérias e representam a forma de vida mais abundante do planeta.
Eles regulam populações bacterianas e controlam ecossistemas microbianos na água, no solo e até no intestino humano.
Cada fago se dirige a uma bactéria específica e é inofensivo aos seres humanos.
A história da fagoterapia remonta a mais de 100 anos. O bacteriologista Ernest Hankin descreveu, em 1896, nos anais do Instituto Pasteur, as primeiras evidências de um agente misterioso na água com atividade antibacteriana, durante estudos sobre cólera.
Quase 20 anos depois, em 1915, o periódico The Lancet publicou o primeiro artigo sobre os vírus que infectam bactérias.
Antes dos antibióticos, os bacteriófagos eram considerados um tratamento promissor.
No Brasil, o Instituto Oswaldo Cruz foi um centro dessa pesquisa: por volta de 1925, seu pesquisador José da Costa Cruz utilizava fagos contra a disenteria bacilar, doença que causa diarreia, e infecções estafilocócicas.
Quando a penicilina foi descoberta em 1928, porém, a medicina ocidental praticamente abandonou os bacteriófagos, superados pela facilidade de uso e pela eficácia dos antibióticos.
A resistência bacteriana desenvolvida ao longo das últimas décadas reacendeu o interesse pela terapia com fagos como alternativa viável.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis infecções bacterianas hoje não responde aos antibióticos, proporção que tem estimulado investimentos renovados em soluções antigas, mas potencialmente efetivas.
Contexto atual e desafios à implementação
A Klebsiella pneumoniae constitui uma urgência Sanitária particularmente grave: encontra-se frequentemente em hospitais, unidades de terapia intensiva e em pacientes transplantados ou internados por longos períodos.
O trabalho do Cepid B3 demonstra que o vírus KP47 oferece potencial contra múltiplas linhagens dessa bactéria, abrindo caminho para pesquisas clínicas futuras.
O ressurgimento dos bacteriófagos como ferramenta terapêutica representa uma resposta da ciência brasileira a um problema global de saúde.
Instituições como a Universidade Federal de São Paulo, o Instituto Senai de Inovação, a Universidade Federal da Bahia e o Instituto Aires também integram esforços de pesquisa e Inovação nessa área.
O potencial biotecnológico identificado no estudo sugere que soluções antigas, quando combinadas com conhecimento contemporâneo, podem oferecer novos caminhos contra infecções resistentes aos medicamentos convencionais.





