Ajudar um pai idoso a se levantar, responder por ele durante uma consulta médica ou impedi-lo de fazer tarefas que ainda consegue executar sozinho pode parecer cuidado, mas quando a ajuda substitui o que a pessoa ainda é capaz de fazer, o resultado costuma ser o oposto do pretendido: menos mobilidade, menos autonomia e piora progressiva das capacidades que o cuidado tentava preservar.
O nome que os especialistas usam para esse comportamento é hiperproteção, e ele aparece tanto em famílias bem-intencionadas quanto em ambientes institucionais.
Envelhecer não é o mesmo que fragilizar
O geriatra e especialista em longevidade Antonio Leitão, do Instituto de Longevidade MAG, aponta a confusão entre envelhecimento e fragilidade como ponto de partida do problema.
“Temos que pensar, primeiro, em não rotular as pessoas como necessariamente frágeis porque velhas”, disse ele ao InfoMoney.
Perdas de força e mobilidade fazem parte da realidade de muitas pessoas mais velhas, mas não afetam todos da mesma forma nem no mesmo ritmo, e a expectativa média de vida do brasileiro já chegou a 76,6 anos, segundo o IBGE, o que significa que a população com mais de 60 anos é diversa, ativa e com necessidades muito diferentes entre si.
O que a hiperproteção faz ao corpo e à mente
Leitão cita uma cena comum: o familiar que acompanha um idoso ao médico e responde às perguntas do profissional por ele, mesmo quando o paciente tem condições de se manifestar, a intenção é boa, mas o efeito não é.”São formas de ajudar que às vezes podem atrapalhar no fim das contas”, observou.
Quando a pessoa deixa de usar determinada capacidade por conta da ajuda que recebe, ela tende a perder essa capacidade mais rápido, porque o corpo e a mente precisam de uso para se manter em funcionamento.
Como cuidar sem substituir
Preservar a autonomia não significa retirar o cuidado, mas ajustá-lo ao que a pessoa realmente precisa, mantendo o que ela ainda consegue fazer por conta própria. Leitão recomenda partir de uma pergunta simples: o que essa pessoa quer continuar fazendo?
A partir daí, o plano de cuidado pode ser construído para preservar exatamente essas habilidades, com as adaptações de segurança que o caso exige.
Barras de apoio, iluminação adequada, tapetes fixados no chão e cadeiras na altura certa reduzem riscos sem tirar da pessoa a possibilidade de se movimentar, criando condições para que ela continue ativa com mais segurança em vez de criar condições para que pare.





