Vênus é o planeta mais parecido com a Terra em tamanho, massa e estrutura interna, mas não tem lua, a pergunta por que persiste há décadas na astronomia planetária.
Um estudo publicado na última segunda-feira (15) no The Astrophysical Journal, por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside, oferece uma resposta diferente das tentativas anteriores: Vênus provavelmente teve uma lua e a destruiu.
O ponto central do trabalho é a velocidade de rotação de Vênus, um dia venusiano equivale a 243 dias terrestres, uma das rotações mais lentas do Sistema Solar, e em sentido contrário ao da Terra.
Enquanto nosso planeta gira rápido o suficiente para transferir energia ao sistema gravitacional com a Lua, empurrando o satélite cada vez mais para longe, Vênus gira devagar demais para fazer o mesmo. O resultado seria o oposto, qualquer lua em órbita sofreria o efeito contrário, aproximando-se gradualmente do planeta até ser destruída pelo impacto.
“Se Vênus tivesse uma lua, e provavelmente teve em algum momento, ela não teria conseguido mantê-la”, disse Stephen Kane, astrofísico e autor principal do estudo, ao Reuters. “Essa lua teria caído de volta ao planeta em um tempo relativamente curto.”
Como os pesquisadores chegaram a essa conclusão
Kane e sua equipe construíram modelos gravitacionais a partir dos dados das sondas Magellan e Pioneer Venus Orbiter, da NASA. Para calibrar os modelos, aplicaram os cálculos primeiro ao sistema Terra-Lua e confirmaram que as previsões coincidiam com o comportamento observado.
Depois, rodaram simulações com Vênus usando diferentes velocidades de rotação e massas de luas hipotéticas, que variaram de metade a dez vezes a massa da nossa Lua. Na maioria dos cenários simulados, o resultado foi o mesmo: colisão. Luas mais massivas colidiram mais rapidamente; as menores demoravam mais, mas quase sempre chegavam ao mesmo fim.
Por que não existem marcas no planeta
O impacto de uma lua contra um planeta deixaria cicatrizes geológicas, mas Vênus passou por um episódio de ressurgência da crosta há cerca de um bilhão de anos, quando o vulcanismo generalizado reconfigurou a superfície do planeta e apagou os registros anteriores.
Qualquer evidência de uma colisão lunar estaria soterrada sob camadas geológicas que as sondas atuais não conseguem penetrar. Kane diz que possíveis indícios poderiam estar preservados nas camadas profundas do planeta, mas isso exigiria missões com capacidade de sondagem interna que ainda não existem.
Se uma lua estável tem algum papel na habitabilidade de um planeta, como alguns pesquisadores sugerem ao analisar a influência da Lua na estabilidade climática da Terra, esse detalhe pode importar bastante na busca por mundos habitáveis fora do Sistema Solar.





