Um projeto piloto em Rhode Island transformou um desafio ambiental em solução criativa: 60 toneladas de cascos de fibra de vidro foram trituradas e queimadas em um forno de cimento, gerando combustível e matéria-prima para a indústria de construção.
O modelo aponta caminho para lidar com aproximadamente 200 mil cascos que os americanos aposentam anualmente, cerca de 2% a 3% de toda a frota de barcos recreativos do país que chega ao fim da vida útil a cada ano.
O que fizeram com 60 toneladas de barcos abandonados pode mudar o destino de milhares de embarcações
O problema começa com a própria durabilidade da fibra de vidro.
Ao contrário do aço, que derrete facilmente, ou da madeira, que apodrece, a fibra de vidro simplesmente permanece intacta no ambiente, uma qualidade excelente para embarcações, mas um pesadelo para recicladores.
As fibras de vidro ficam presas em uma resina termoendurecida que não pode ser amolecida e refundida como o plástico de uma garrafa. Isso torna a separação mais cara do que vale o material recuperado.
Proprietários enfrentam um cálculo desanimador: as taxas de descarte variam, mas reciclar ainda custa mais do que enterrar.
Essa diferença faz com que os cascos se acumulem em aterros, quintais e marinas e, eventualmente, cheguem à água quando tempestades os deslocam.
Agências estaduais ainda orientam proprietários a remover peças de metal e depois enterrar o casco, porque o material tem tão pouco valor de reciclagem por conta própria.
A situação se repete em escala nacional, e estimativas da indústria sugerem que uma parcela dos barcos recreativos nos Estados Unidos chega ao fim de sua vida útil a cada ano.
A fonte original não informa quando a fibra de vidro começou a ser usada em massa na produção de cascos de barcos. Além disso, quase nenhum deles foi projetado pensando no descarte posterior.
A solução testada em Rhode Island
A Rhode Island Marine Trades Association Foundation montou a solução com uma cadeia de suprimentos simples, mas eficaz.
Marinas e proprietários do estado entregaram barcos desativados e abandonados.
As equipes removeram combustível, baterias e metal, cortaram os cascos e os processaram em uma instalação em Johnston.
Depois, transportaram o material triturado para o sul, até Holly Hill, na Carolina do Sul. Dentro do forno de cimento, o material cumpriu dois papéis simultaneamente.
Liberou energia térmica que substituiu combustível fóssil e seu conteúdo mineral forneceu sílica e alumina que substituem recursos naturais extraídos para a produção de cimento.
Ambas as contribuições importam para que uma cimenteira aceite o carregamento.
O projeto funcionou, e a indústria aceitou o material processado como combustível e matéria-prima, superando o principal obstáculo para que resíduos desse tipo cheguem à indústria pesada.
A iniciativa WAVES amplia o modelo testado em Rhode Island e busca aumentar sua viabilidade econômica.
Em Houston, um salvador de barcos que não encontrou quem aceitasse a fibra de vidro enviou mais de 1.100 toneladas de material de casco para um aterro, a um custo relatado de aproximadamente 40 mil dólares.
Esse cenário se repete em todo o país, e o avanço depende da economia de escala.
Quando reciclar fibra de vidro custar menos do que descartá-la em aterros, proprietários e marinas terão incentivo financeiro para participar.
O projeto piloto provou que a rota funciona de ponta a ponta. Ao precificar cada elo da cadeia, abriu caminho para que milhares de embarcações encontrem um destino melhor do que o abandono.





