De acordo com um alerta emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os pacientes que fazem uso do Carbidol, medicamento utilizado para a doença de Parkinson, precisam ficar atentos à possível deficiência de vitamina B6. O grande problema é que a falta dessa substância orgânica no organismo pode estar associada à ocorrência de convulsões.
A preocupação surgiu depois que a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, identificou casos de convulsões relacionadas à deficiência de vitamina B6 em pacientes tratados com medicamentos que combinam carbidopa e levodopa. Até o momento, a Anvisa afirma que não foram registrados casos semelhantes no Brasil.
Por que o medicamento pode afetar a vitamina B6?
A relação está ligada à maneira como a levodopa é transformada pelo organismo. O medicamento é utilizado para aumentar a disponibilidade de dopamina no cérebro, neurotransmissor cuja redução está relacionada a sintomas motores do Parkinson.
Durante esse processo, entretanto, pode ocorrer redução dos níveis de vitamina B6. A carbidopa também participa desse mecanismo porque pode se ligar à forma ativa da vitamina, contribuindo para uma perda funcional do nutriente.
A FDA explica que doses mais elevadas de carbidopa/levodopa podem aumentar o risco de deficiência de B6. A agência norte-americana identificou 14 casos de convulsões associados à deficiência da vitamina em pacientes que utilizavam esses medicamentos.
Qual é a função da vitamina B6 no organismo?
A vitamina B6 não atua em apenas uma função específica. Ela participa de mais de 100 reações enzimáticas, principalmente relacionadas ao metabolismo de proteínas, e também exerce funções importantes no sistema nervoso.
Por isso, uma deficiência prolongada pode produzir manifestações diferentes. Entre os possíveis sinais estão depressão, confusão, alterações nos lábios, língua e pele, dormência, formigamento, dores agudas e fraqueza muscular.
Em determinadas situações, a deficiência também pode provocar alterações neurológicas mais graves. É nesse contexto que aparece a preocupação com as convulsões observadas nos casos analisados pela FDA.
O que a FDA encontrou nos casos analisados?
A investigação norte-americana reuniu 14 relatos de pacientes que desenvolveram convulsões associadas à deficiência de vitamina B6 enquanto utilizavam medicamentos contendo carbidopa e levodopa.
Todos os casos analisados envolviam doses de levodopa superiores a 1.000 mg por dia. Nos pacientes que recebiam mais de 1.500 mg diariamente, a identificação da deficiência ocorreu em um período menor após o início do tratamento.
Outro dado chamou atenção: nove pacientes receberam suplementação de vitamina B6 e todos apresentaram resolução das convulsões. Segundo a FDA, a maioria deles não havia respondido adequadamente a diferentes medicamentos anticonvulsivantes antes da correção da deficiência.
Dois dos casos analisados terminaram em morte. Nos dois episódios havia registro de níveis baixos de vitamina B6 e convulsões de difícil controle. Esses dados foram considerados pela FDA ao estabelecer uma associação causal razoável entre os medicamentos com carbidopa/levodopa, a deficiência da vitamina e as convulsões.
Como a Anvisa está agindo?
No Brasil, a resposta da Anvisa tem caráter preventivo. A agência determinou a atualização da bula do Carbidol, medicamento composto por carbidopa e levodopa, para incluir informações sobre a possibilidade de deficiência de vitamina B6 durante o tratamento.
A recomendação também prevê que os níveis da vitamina sejam avaliados antes do início da terapia e acompanhados periodicamente enquanto o paciente estiver utilizando o medicamento. A avaliação também deve ser considerada caso apareçam sinais compatíveis com deficiência.
A medida amplia as informações disponíveis tanto para os profissionais de saúde quanto para os pacientes. Dessa maneira, uma eventual redução da vitamina pode ser identificada antes que evolua para manifestações mais graves.
Quem toma Carbidol deve parar o tratamento?
Não. O alerta da Anvisa não representa uma recomendação para que pacientes interrompam por conta própria o uso de carbidopa/levodopa. A conduta indicada é conversar com o profissional responsável pelo tratamento sobre a necessidade de verificar os níveis de vitamina B6. Caso exista deficiência, a suplementação deve ser avaliada e orientada pelo profissional de saúde.
Isso é importante porque a carbidopa/levodopa é utilizada para controlar sintomas motores do Parkinson, e qualquer mudança na terapia precisa considerar tanto o controle da doença quanto os possíveis efeitos adversos. A própria FDA recomenda que a necessidade de suplementação de B6 seja avaliada pelos profissionais que acompanham o paciente.





