“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.” O verso pertence a “Poemas Inconjuntos”, escrito em 7 de novembro de 1915 sob o heterônimo Alberto Caeiro, um dos mais conhecidos entre os personagens literários criados por Fernando Pessoa.
No poema completo, Caeiro descreve sua relação de proximidade com as coisas simples da natureza, como pedras e o vento, e escreve logo depois do trecho citado: “Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço.”
A frase resume o espírito de Caeiro como heterônimo: alguém que rejeita a filosofia e a metafísica em favor da percepção direta e sem intermediários do mundo. Como o próprio Caeiro escreve no mesmo poema, “eu nem sequer sou poeta: vejo.”
Quem foi Fernando Pessoa
Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888. Aos 5 anos, ficou órfão de pai, morto por tuberculose, e ainda criança já criava seu primeiro heterônimo, batizado de Chevalier de Pas. Em 1895, sua mãe casou-se novamente com um cônsul português nomeado para Durban, na África do Sul, e a família passou a viver no país africano, onde Pessoa recebeu educação inglesa.
Em 1902, aos 14 anos, retornou a Lisboa. Três anos depois, ingressou na Faculdade de Letras para cursar Filosofia, mas não concluiu a formação.
Caeiro, poeta-pastor da região do Ribatejo sem formação além da escola primária, era considerado por Pessoa o mestre dos outros heterônimos, o inventor de uma espécie de neopaganismo que via a natureza como a própria divindade.
Uma obra póstuma
Em vida, Pessoa publicou apenas cinco obras, das quais só “Mensagem” (1934) foi escrita em português. O restante da obra, incluindo os poemas de Caeiro, veio a público depois de sua morte, organizado por pesquisadores que reuniram os manuscritos deixados pelo autor.
Pessoa morreu em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, vítima de cirrose hepática, e deixou escrita, em inglês, no leito de morte, sua última frase: “I know not what tomorrow will bring” (Não sei o que o amanhã trará).





