Já pensou ficar a 80 metros do chão e ainda atravessar 400 metros entre os dois maiores picos da Europa sobre apenas um cabo? Foi isso o que fez a equilibrista Tatiana-Mosio Bongonga no domingo (20), conforme informações da Euronews.
A apresentação aconteceu em Loos-en-Gohelle, no norte da França, entre os dois terrils da Base 11/19. Apesar de serem chamados de montanhas em algumas referências, essas estruturas são enormes depósitos artificiais formados pelos resíduos da mineração de carvão. A travessia ocorreu sem arnês de segurança e foi acompanhada por mais de 9 mil pessoas.
Um cabo de 400 metros ligou os dois terrils
Tatiana-Mosio Bongonga percorreu toda a extensão do cabo mantendo o equilíbrio enquanto avançava entre os dois pontos elevados. A estrutura foi instalada a aproximadamente 80 metros acima do terreno na região da travessia.
A artista integra a companhia francesa Basinga, especializada em espetáculos de funambulismo, modalidade em que o artista percorre uma corda ou cabo suspenso utilizando principalmente o controle do próprio equilíbrio.
Durante a apresentação, Bongonga não apenas caminhou de um lado ao outro. Em alguns momentos, realizou movimentos acrobáticos sobre o cabo, aumentando a complexidade da performance.
O espetáculo fez parte das Jornadas Europeias do Patrimônio e foi organizado na Base 11/19, área que reúne elementos preservados da antiga atividade mineradora da região.
O local já foi uma área de mineração de carvão
Os dois terrils não surgiram naturalmente. Eles são resultado de décadas de exploração de carvão no norte da França. A Base 11/19 recebeu esse nome em referência aos antigos poços de mineração existentes no local. A exploração começou no fim do século XIX e permaneceu ativa até 1986, quando a mina foi fechada.
Durante esse período, enormes quantidades de resíduos provenientes da extração e do processamento do carvão foram acumuladas. Com o passar das décadas, o material formou duas grandes elevações que passaram a dominar a paisagem de Loos-en-Gohelle.
Segundo informações da Prefeitura de Loos-en-Gohelle, os terrils fazem parte de um conjunto patrimonial que preserva diferentes elementos da antiga atividade mineradora, incluindo estruturas dos poços, áreas industriais e antigos espaços habitacionais dos trabalhadores.
Os dois terrils chegam a mais de 180 metros
As dimensões das estruturas ajudam a explicar por que o local foi escolhido para uma apresentação dessa escala. Os dois terrils gêmeos da Base 11/19 chegam a aproximadamente 186 e 182 metros de altura, respectivamente. Eles estão entre os maiores depósitos de resíduos de mineração desse tipo na Europa.
A altura total das estruturas, porém, não deve ser confundida com a altura da apresentação de Bongonga. O cabo utilizado na travessia ficou cerca de 80 metros acima do solo no trecho percorrido pela artista.
A diferença é importante porque os 400 metros mencionados no espetáculo representam a distância entre os dois pontos conectados pelo cabo, e não a altura da equilibrista.
Performance exigiu trabalho de centenas de pessoas
Embora o espetáculo tenha colocado uma única artista no centro da atenção, a realização da travessia dependeu de uma grande equipe.
Mais de 200 voluntários participaram da preparação do evento. Entre as funções estavam atividades relacionadas à montagem, estabilização do cabo, organização do público, produção, música e apoio técnico.
A própria organização do espetáculo destacou que o trabalho coletivo era parte da proposta. A travessia foi concebida não apenas como uma demonstração de equilíbrio, mas como uma experiência construída por diferentes pessoas ao redor de um patrimônio histórico.
A estrutura também exigiu cuidados específicos porque os terrils não são apenas grandes montes de resíduos. O local passou por um processo de transformação ambiental e atualmente abriga áreas de biodiversidade e atividades culturais.
Música acompanhou a travessia
A apresentação também foi acompanhada por músicos e um coro, que executaram “Les Corons”, de Pierre Bachelet. A escolha da música tem relação direta com a história da região. Lançada em 1982, a canção se tornou associada à memória das comunidades de trabalhadores das áreas de mineração do norte francês.
Assim, a trilha sonora ajudou a conectar a apresentação contemporânea com o passado industrial de Loos-en-Gohelle. Enquanto Bongonga avançava pelo cabo, a música remetia à época em que o carvão determinava boa parte da vida econômica e social da região.
A performance, portanto, não foi montada apenas para explorar a dimensão das estruturas. A proposta também utilizou o patrimônio minerador como parte da narrativa do espetáculo.
Terrils passaram por uma transformação depois do fim da mineração
O encerramento das atividades de mineração poderia ter deixado essas estruturas apenas como marcas de uma indústria desaparecida. Em Loos-en-Gohelle, porém, os terrils passaram a integrar uma estratégia de valorização cultural, ambiental e turística.
A Prefeitura informa que a Base 11/19 atualmente reúne espaços ligados ao desenvolvimento sustentável, à cultura e à educação ambiental. O local também possui trilhas e atividades que permitem aos visitantes conhecer a história da mineração e observar a transformação da paisagem.
A própria cidade utiliza os terrils como pontos de observação e espaços para atividades ao ar livre. A antiga área industrial passou, dessa forma, a desempenhar funções diferentes daquelas para as quais foi criada.
Patrimônio industrial virou cenário para arte e turismo
A Bacia Mineradora de Nord-Pas de Calais foi inscrita pela UNESCO na lista do Patrimônio Mundial em 2012. A organização reconheceu a região como uma paisagem cultural ligada à história da industrialização e da mineração de carvão.
A área protegida reúne centenas de elementos relacionados à atividade mineradora, incluindo poços, estruturas industriais, vilas operárias, ferrovias e terrils.
Nesse contexto, a travessia de Bongonga ganhou uma função que ultrapassou o espetáculo. A apresentação colocou diante de milhares de pessoas uma parte específica desse patrimônio e mostrou como estruturas criadas pela exploração mineral podem ganhar novos usos depois do encerramento das minas.
A performance também integra o projeto europeu Destination Terrils, que busca valorizar esses grandes depósitos de resíduos como parte da paisagem e do patrimônio das regiões mineradoras.





