Um submarino alemão afundado durante a Segunda Guerra Mundial continua representando um problema ambiental para a Noruega 81 anos depois de seu naufrágio. O U-864 está a aproximadamente 150 metros de profundidade, próximo à ilha de Fedje, e ainda guarda uma carga estimada entre 65 e 67 toneladas de mercúrio metálico. O material foi transportado durante a guerra em recipientes de aço e, com o passar das décadas, parte deles se deteriorou.
O problema ganhou nova dimensão após uma operação de investigação realizada em 2026. O trabalho deveria ajudar as autoridades a definir como lidar definitivamente com o submarino, mas as condições encontradas no local mostraram que retirar o mercúrio envolve riscos próprios. Com isso, a Noruega voltou a enfrentar uma escolha complexa: tentar remover a carga contaminante ou manter o naufrágio isolado no fundo do mar.
Por que o submarino carregava mercúrio?
O U-864 não estava em uma missão comum quando deixou a Alemanha. No início de 1945, já durante a fase final da Segunda Guerra Mundial, a embarcação seguia para o Japão levando materiais e equipamentos destinados à indústria militar japonesa, além de especialistas técnicos.
Entre os itens transportados estava uma quantidade excepcional de mercúrio. O metal era importante para diferentes aplicações industriais e militares e deveria chegar ao Japão como parte do esforço de cooperação entre os dois países do Eixo.
A embarcação, porém, não chegou ao destino. Em 9 de fevereiro de 1945, o submarino britânico HMS Venturer localizou o U-864 e lançou um torpedo que o atingiu. O submarino alemão afundou e todos os ocupantes morreram.
O naufrágio permaneceu desconhecido por décadas. Ele só foi localizado em 2003, quando a Marinha norueguesa encontrou os destroços durante buscas na região de Fedje.
O que torna o mercúrio um problema ambiental?
O mercúrio metálico pode permanecer no ambiente por longos períodos e, quando liberado, pode contaminar sedimentos e entrar nos ecossistemas aquáticos. A preocupação aumenta porque o U-864 está localizado em uma área do Mar do Norte onde existe atividade pesqueira.
O problema não se limita ao conteúdo que ainda pode estar dentro dos recipientes. A deterioração das estruturas também permitiu que mercúrio chegasse ao ambiente ao redor do naufrágio.
Segundo o governo norueguês, uma área de aproximadamente 47 mil metros quadrados ao redor do U-864 apresenta contaminação por mercúrio. Estimativas indicam que cerca de 4 quilos do metal podem estar sendo liberados anualmente a partir da região contaminada.
Por esse motivo, as autoridades norueguesas adotaram medidas de precaução ao longo dos anos. Em 2005, por exemplo, foram estabelecidas recomendações para que mulheres grávidas, lactantes e crianças pequenas evitassem consumir frutos do mar capturados nas proximidades do naufrágio.
A retirada do mercúrio também apresenta riscos
O desafio atual não consiste simplesmente em localizar os recipientes e retirá-los do mar. O submarino está dividido em grandes seções, parcialmente enterrado nos sedimentos e situado em uma área com condições geológicas que dificultam uma operação de grande porte.
Além disso, o próprio processo de movimentação dos destroços pode liberar contaminantes que atualmente estão retidos no fundo marinho. Há ainda preocupação com a estabilidade das estruturas e com a presença de munições e outros materiais perigosos associados ao submarino.
De acordo com a Euronews, as investigações mais recentes foram justamente realizadas para compreender melhor essas condições antes de uma decisão definitiva. Durante a operação de 2026, 22 recipientes de mercúrio foram recuperados, e análises iniciais indicaram que aproximadamente 80% deles apresentavam danos e vazamentos.
A experiência mostrou, portanto, que uma operação destinada a eliminar a fonte de contaminação também pode provocar uma liberação adicional do material.
Por que a Noruega considera cobrir o naufrágio?
Diante dos riscos, uma das alternativas é manter o U-864 no local e construir uma cobertura sobre o submarino e o sedimento contaminado. A ideia é criar uma barreira física capaz de reduzir a dispersão do mercúrio para o ambiente marinho.
Em setembro de 2026, a Administração Costeira Norueguesa recomendou justamente essa solução. O órgão avaliou que cobrir o naufrágio e o fundo contaminado seria a alternativa mais adequada entre as opções analisadas após as novas investigações.
Essa abordagem não retiraria o mercúrio do ambiente. O objetivo seria impedir que o contaminante continue se espalhando, mantendo o material confinado no local.
Na prática, trata-se de uma diferença importante: em vez de eliminar fisicamente a fonte de poluição, a estratégia busca controlar sua exposição ao ecossistema.
O dilema envolve retirar ou confinar o contaminante
A recuperação completa da carga permitiria remover o mercúrio do fundo do mar, mas exigiria uma operação submarina extremamente complexa. O U-864 está a grande profundidade, encontra-se fragmentado e apresenta estruturas deterioradas após mais de oito décadas no ambiente marinho.
Já a cobertura reduz a necessidade de movimentar os destroços, mas mantém o mercúrio no local. Por isso, a solução depende de garantir que a barreira permaneça estável e consiga impedir a dispersão do contaminante por um longo período.
O governo norueguês vem estudando o problema há anos justamente porque não existe uma alternativa simples. As investigações realizadas entre 2025 e 2026 buscaram produzir dados sobre a condição dos recipientes, o estado estrutural do submarino, os riscos associados a explosivos e os custos das diferentes possibilidades.
A operação de 2026 acabou interrompida por condições meteorológicas adversas, mas o trabalho realizado forneceu novas informações para a avaliação da solução definitiva. A própria Administração Costeira afirmou que ainda havia incertezas sobre o estado dos recipientes de mercúrio.





