Na década de 1970, piranhas empalhadas ajudaram a financiar pontes, uma pista de pouso e um museu comunitário no arquipélago do Marajó.
Depois de chegar à Amazônia, o padre jesuíta italiano Giovanni Gallo assumiu a paróquia de Santa Cruz do Arari e criou um sistema de desenvolvimento social baseado na exportação de piranhas empalhadas para a Europa.
A atividade gerou recursos para financiar as obras para a comunidade local.
Piranhas empalhadas ajudaram padre italiano a financiar obras que facilitaram o acesso a comunidades isoladas da Amazônia
O padre Gallo fundou um laboratório na Vila de Jenipapo, onde ensinou mulheres locais a embalsamar piranhas.
O laboratório produziu 12 mil exemplares, vendidos na Itália por meio da rede de contatos europeus do padre. A receita se tornou a base para obras de infraestrutura na região.
A venda dos peixes transformados em arte pagou as trabalhadoras e financiou obras que antes não existiam.
A primeira foi uma sequência de 350 metros de pontes de madeira de lei, que conectou as comunidades dispersas pela ilha e reduziu o tempo de deslocamento entre os núcleos populacionais.
Além das pontes, Gallo investiu em um trapiche comunitário, que facilitou o acesso ao rio, principal via de transporte no Marajó, e em um cemitério dimensionado para suportar os períodos anuais de cheia, e eram infraestruturas básicas que antes faltavam.
A construção mais ambiciosa foi a pista de pouso, com 800 metros de extensão.
Ela viabilizou o tráfego aéreo regional e reduziu o tempo de acesso a serviços médicos de emergência: deslocamentos que antes demoravam dias em embarcações passaram a ser feitos por via aérea em horas.

Preservação cultural e gestão comunitária
Depois de atender às necessidades de infraestrutura mais urgentes, Gallo usou os recursos restantes da venda das piranhas para criar um espaço de memória.
A Associação “O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari” recebeu uma estrutura inicial financiada pelos lucros do artesanato e depois se consolidou como o Museu do Marajó.
A instituição reúne peças arqueológicas e fragmentos de cerâmica marajoara doados pelos próprios moradores.
O modelo implementado por Gallo conectou geração de renda com valorização do patrimônio cultural local, estimulando que os habitantes reconhecessem a importância histórica de seus próprios objetos e tradições.
Essa forma de gestão comunitária mostrou que a preservação da memória poderia funcionar como motor de desenvolvimento econômico e social, oferecendo autonomia financeira e dignidade a quem vivia isolado no coração da maior ilha fluviomarítima do planeta.




