As obras do muro na fronteira entre Estados Unidos e México, no Arizona, deixaram marcas sobre um geoglifo em formato de peixe com pelo menos 6.500 anos de existência.
Segundo apuração da emissora americana NBC News, equipes de empreiteiros contratadas pelo governo dos Estados Unidos removeram, em abril, uma camada de solo de pouco mais de 15 metros de extensão bem sobre o desenho.
O presidente Donald Trump defende o projeto da barreira fronteiriça, alvo de críticas de grupos ambientais e indígenas desde o início das obras.
O Centro para a Diversidade Biológica, entidade que monitora os efeitos da obra sobre sítios arqueológicos da região, foi quem registrou o estrago.
Um geoglifo de peixe criado há pelo menos 6.500 anos acabou cortado por muro construído em local
O desenho, conhecido como Las Playas, tinha cerca de 83 metros em sua extensão original e, até então, acreditava-se que remontava a cerca de mil anos atrás.
Novas análises recalcularam essa idade para pelo menos 6.500 anos, podendo chegar a 7.500 anos segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo.
Russ McSpadden, defensor da conservação no Sudoeste pelo Centro para a Diversidade Biológica, disse que a descoberta torna uma perda já devastadora ainda mais profunda e classificou o episódio como uma atrocidade cultural e histórica.
A datação revisada coloca essa arte ancestral cerca de 2 mil anos antes da primeira pirâmide egípcia.
Além de anteceder em 1.500 anos as primeiras construções de Stonehenge e em 4 mil anos as Linhas de Nazca, no Peru.
Comunidades do povo Tohono O’odham habitam ancestralmente essa área, cuja reserva se estende pelos dois lados da fronteira entre Estados Unidos e México.
Seus integrantes têm autorização para cruzar entre os países mediante verificação de identidade e mantêm, há muito tempo, parceria com a CBP (agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA), vinculada ao Departamento de Segurança Interna, no monitoramento da área para coibir o tráfico de drogas e outras ações criminosas em suas terras.
A CBP afirmou que o empreiteiro afetou o local de forma não intencional.
O órgão também isolou a parte restante do geoglifo para preservá-la e informou que está revisando protocolos de construção e ampliando a comunicação para evitar novos danos.
Tensão entre governo e nação indígena
Esse não é o único atrito envolvendo construções em terras Tohono O’odham: a nação recorre atualmente de uma decisão judicial federal que negou pedido para suspender a obra da barreira dentro da reserva.
Outro ponto de conflito é a região de Quitobaquito Springs, fonte de água tida como sagrada, onde o governo também planejava erguer trechos da estrutura.
A construção do muro e das demais barreiras na fronteira foi viabilizada por poderes que a Lei de Cercas Seguras de 2006 confere ao Departamento de Segurança Interna, permitindo ao órgão ignorar exigências de diversas normas voltadas à proteção ambiental, dos recursos hídricos e de locais com valor cultural, histórico e religioso.
A situação reacende o debate sobre até onde a segurança fronteiriça pode avançar sobre patrimônios que antecedem em milênios os marcos mais conhecidos da história humana.




