O físico Constantino Tsallis afirma que a inteligência artificial representa riscos que não desapareceriam mesmo que alguém tentasse interrompê-la, já que seu funcionamento não se compara ao de um equipamento qualquer que se apaga com um botão.
Em 1988, Tsallis publicou o estudo sobre mecânica estatística não extensiva que se tornou a pesquisa de autoria brasileira com mais citações já registradas, somando todas as áreas do conhecimento.
Em entrevista ao Marreta, o físico disse que prefere não criar expectativas para 2026, mas olhar para o ano seguinte. Será a primeira vez em seis décadas que um Simpósio Nobel terá como foco um tema latino-americano, no caso, a própria teoria desenvolvida por Tsallis.
Um nome cotado para o Nobel

Pesquisador emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Tsallis copresidirá o Simpósio Nobel de Física de 2027, na Suécia, evento voltado inteiramente ao trabalho que construiu ao longo da carreira.
Prêmios internacionais recentes, como o SigmaPhi 2026, reforçam o reconhecimento acumulado em décadas de pesquisa. Aplicações da teoria já apareceram em áreas tão distintas quanto computação quântica, climatologia, astrofísica, genômica e medicina.
Energia e entropia, conceitos que a teoria une
A base do trabalho de Tsallis está na relação entre energia e entropia, dois termos próximos no vocabulário cotidiano, mas distantes no significado técnico. O primeiro se relaciona às possibilidades de um sistema. Já o segundo calcula a chance real de cada uma delas se concretizar.
Essa diferença explica, segundo o físico, por que propagandas de apostas e loterias costumam enganar quem assiste: elas exibem a possibilidade de prêmio sem revelar o tamanho da chance real.
Sistemas complexos e o papel do contexto
Economias nacionais, o clima do planeta e organismos vivos fazem parte da categoria de sistemas complexos que a teoria de Tsallis tenta quantificar por meio de um índice próprio. Também fazem parte desse grupo os terremotos e qualquer fenômeno em que as circunstâncias ao redor mudam completamente o desfecho.
Para Tsallis, uma frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset resume essa ideia: “cada pessoa está indissoluvelmente ligada ao ambiente em que vive”. Trocar esse ambiente transforma, por consequência, o próprio jeito de agir.
Os riscos que preocupam no avanço da IA
Tsallis reconhece os perigos de a IA sair do controle. O físico explica que não é possível simplesmente apagar a inteligência artificial como se faz com um aparelho qualquer, pois ela funciona a partir de bilhões de computadores interligados.
Tsallis alertou sobre riscos específicos: a IA pode usar uma matemática inconsistente ou falsa, e erros de lógica dentro de processos complexos podem não ser percebidos nem pelos desenvolvedores.
Além disso, a tecnologia interage com dados, pessoas e decisões em constante mudança. Esse emaranhado de variáveis não seria resolvido sozinho por nenhum botão de desligar.





