Um estudo revelou que a redução dos recursos destinados a programas sociais, como o tradicional Bolsa Família, pode significar menos vendas no comércio local das cidades brasileiras, especialmente nos municípios do interior do país.
Isso acontece porque muitas famílias utilizam os benefícios para comprar alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais. Com menos dinheiro disponível, o consumo diminui, afetando diretamente supermercados, farmácias, mercearias e outros estabelecimentos comerciais.
Menos dinheiro de programas socias pode reduzir vendas no comércio dos municípios
A conclusão faz parte de um levantamento realizado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
A pesquisa analisou a participação dos benefícios sociais e previdenciários na renda da população e os possíveis efeitos econômicos de uma política de reajustes sem ganhos acima da inflação.
Os pesquisadores identificaram que a dependência desses recursos é particularmente elevada nas cidades situadas fora das regiões metropolitanas. No interior do Ceará, por exemplo, aposentadorias e benefícios sociais representam aproximadamente 40% da renda total da população. Na capital e nos municípios metropolitanos, essa participação é de 22%.
Essa diferença ajuda a explicar por que alterações nos pagamentos podem provocar consequências mais intensas nas economias de cidades menores. Quando os beneficiários recebem seus pagamentos, parte significativa dos valores retorna rapidamente à economia por meio das compras realizadas nos estabelecimentos locais.
Para dimensionar esses efeitos, o levantamento comparou cenários de valorização dos benefícios com situações em que os pagamentos permaneceriam sem aumentos reais. Os resultados indicaram que a renda agregada dos municípios do interior poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo daquela observada em um cenário de reajustes mais favoráveis.
Comércio local das regiões Norte e Nordeste podem sofrer mais com redução nos programas sociais
As diferenças regionais também chamaram a atenção. No interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, as perdas projetadas alcançariam aproximadamente 17% a 18%. Em Santa Catarina, assim como em outros estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, os impactos poderiam chegar a 6,5%.
Além das consequências para o comércio, a pesquisa destacou a importância dos programas sociais na redução da pobreza. Segundo as simulações, a ausência de valorização real dos benefícios entre 2022 e 2025 poderia acrescentar cerca de 2,7 milhões de pessoas à população em situação de pobreza fora das regiões metropolitanas.
Os resultados mostram que os pagamentos possuem uma função econômica que ultrapassa o atendimento direto às famílias beneficiadas. Ao sustentar o consumo cotidiano, esses recursos também contribuem para a movimentação financeira dos municípios, influenciando as vendas, a manutenção dos empregos e a atividade econômica local.





