Entre as tradições ascéticas da Índia existe um ritual extremo chamado khada tapasya, no qual o praticante se compromete a nunca mais sentar ou deitar, mantendo-se de pé por anos a fio como forma de devoção.
Foi esse compromisso que levou o asceta Dulal Giri Ji Maharaj à fama nas redes sociais: ele prometeu, como oferenda ao deus Shiva, ficar 12 anos sem se sentar ou se deitar. Como resultado dos anos nessa posição, suas pernas ficaram visivelmente inchadas e com a pele escurecida.
Esse ritual se insere em um princípio mais amplo do hinduísmo, a tapasya, que reúne práticas de austeridade, domínio sobre o próprio corpo e abdicação de conforto em nome de metas espirituais.
Os ascetas conhecidos como sadhus frequentemente adotam essas formas de disciplina, que podem incluir restrições alimentares severas, isolamento prolongado e abandono dos confortos materiais da vida cotidiana.
Como funciona a khada tapasya
Os praticantes usam estruturas de apoio desenvolvidas para permitir algum repouso sem violar o voto de nunca se sentar ou deitar. No caso de Maharaj, uma estrutura suspensa sustenta seu corpo durante o descanso e o mantém permanentemente em pé.
Em alguns registros em vídeo, é possível ver outras pessoas ajudando a cuidar das pernas do asceta. Graças a esse suporte, ele consegue manter o voto, ainda que ficar de pé por tanto tempo traga consequências relevantes para o corpo.
Impactos físicos da permanência prolongada em pé
Ficar de pé por tempo prolongado tende a reter líquido nas pernas, o que pode piorar quadros de insuficiência venosa, gerar dor e sobrecarregar as articulações. Quando a situação se agrava, a falta de movimento, somada a outros fatores, eleva o risco de problemas na circulação.
Entretanto, não há evidências científicas suficientes para determinar com precisão todos os efeitos de uma prática tão extrema quanto permanecer em pé por anos consecutivos. As alterações visíveis nas pernas de Maharaj também não permitem estabelecer um diagnóstico apenas por imagens, já que o inchaço e o escurecimento podem resultar de diferentes causas.
O significado espiritual da austeridade
Para as tradições ascéticas hinduístas, suportar desconforto físico representa uma ferramenta de disciplina mental e transformação espiritual profunda. O sofrimento intencional é interpretado como método para controlar impulsos materiais, fortalecer a concentração e direcionar a atenção completamente para a busca religiosa e a conexão divina com o sagrado.
Essa compreensão varia entre linhagens e comunidades ascéticas e não deve ser entendida como prática universal ou representativa de todo o hinduísmo, que abriga múltiplas correntes e formas distintas de devoção.
Shiva, a divindade à qual Maharaj direciona seu voto, ocupa papel central em várias correntes do hinduísmo e é associado a ciclos de transformação, destruição e renovação cósmica.
A devoção a esse deus assume formas variadas, desde orações e peregrinações até disciplinas ascéticas rigorosas como a khada tapasya.
Quando a khada tapasya não representa todo o hinduísmo
Embora seja uma prática real e significativa, a khada tapasya é característica apenas de determinadas tradições ascéticas e linhagens específicas dentro do hinduísmo. A religião abriga múltiplas correntes de crença e diferentes formas de devoção que não necessariamente envolvem essas disciplinas físicas extremas.
Mesmo entre ascetas sadhus, que dedicam suas vidas à busca religiosa, as práticas variam bastante. Enquanto alguns realizam restrições alimentares severas ou isolamento prolongado, outros seguem caminhos espirituais completamente distintos. Por isso, não se deve generalizar a khada tapasya como representativa de como hindus em geral praticam sua fé.
O que a ciência sabe sobre os efeitos de permanecer em pé por muito tempo
Uma revisão científica publicada em 2015 reuniu diversos estudos sobre os efeitos da permanência prolongada em pé, analisando principalmente pessoas que trabalham em pé por longas jornadas.
A pesquisa documentou que essa posição frequentemente causa dores musculares e articulares, fadiga, inchaço e problemas venosos ligados à circulação do sangue.
No entanto, esses estudos analisam situações de trabalho de longas horas, não práticas ascéticas que duram anos. Por isso, embora ofereçam informações úteis sobre riscos gerais, não permitem concluir com precisão quais complicações específicas uma pessoa desenvolverá ao ficar em pé por períodos extremos como os da khada tapasya.






