Uma única dose de spray nasal contendo um composto derivado do veneno de sapo pode oferecer alívio rápido e duradouro a pacientes com depressão resistente a medicamentos, segundo estudo publicado na revista Journal of the American Medical Association.
A mebufotenina, substância presente no sapo do deserto de Sonora, demonstrou eficácia quando sintetizada e administrada de forma pura e controlada. Os pacientes começaram a sentir melhora cerca de dois dias após a sessão, e esse alívio persistiu por pelo menos oito semanas.
A pesquisa incluiu 193 participantes de instituições na Austrália, Europa e Estados Unidos. Todos tinham depressão moderada a grave, sem resposta a entre dois e cinco antidepressivos diferentes.
Como o estudo foi conduzido, eficácia e segurança dos resultados
Cada participante recebeu aleatoriamente uma dose única do spray contendo 0,3 mg, 8 mg ou 12 mg da substância ativa, sem saber qual dose estava recebendo. Os pesquisadores acompanharam psicologicamente os pacientes antes, durante e depois da administração, seguindo protocolos de preparação típicos de tratamentos psicodélicos.
Cerca de duas horas após a aplicação, quando os efeitos psicodélicos agudos haviam cessado, os pacientes já podiam deixar a sessão de tratamento. A forma sintetizada testada era diferente da droga de rua “bufo”, vendida como veneno de sapo seco e que contém múltiplos compostos psicoativos.
As doses de 12 mg e 8 mg funcionaram melhor que a de 0,3 mg e reduziram os índices de depressão em 5,3 e 6,2 pontos, respectivamente. A maioria dos participantes relatou efeitos colaterais como dores de cabeça, náuseas e desconforto nasal. Quase todos foram leves ou moderados e desapareceram rapidamente após a aplicação.
Apenas um participante apresentou duas crises de pânico graves durante o tratamento. A dose de 8 mg avançará para a fase 3 de testes clínicos por apresentar o melhor equilíbrio entre segurança e eficácia. Como o efeito é prolongado e a administração é menos frequente.
O tratamento oferece vantagens sobre a escetamina e a estimulação magnética transcraniana, que exigem retratamento frequente, e sobre a psilocibina e o LSD, que exigem de quatro a 12 horas de monitoramento devido aos efeitos subjetivos agudos mais prolongados.

O sapo que produz a substância, também conhecido como sapo do Colorado, habita o México e regiões dos Estados Unidos e não é comum no Brasil. A pesquisa foi financiada pela empresa de biotecnologia AtaiBeckley, subsidiária da Eli Lilly and Company. A empresa buscava investigar o potencial antidepressivo de um composto psicodélico raramente estudado de forma controlada.
Os dados abrem possibilidade de uma nova estratégia terapêutica para depressão de difícil tratamento, com perspectiva de acompanhamento clínico contínuo enquanto os testes avançam.
É seguro usar a substância do veneno de sapo em casa ou em rituais informais?
Não. A forma sintetizada e controlada utilizada no estudo é diferente da droga de rua chamada “bufo”, vendida como veneno de sapo seco e que contém múltiplos compostos psicoativos além da mebufotenina.
Doses excessivas da substância fora de um contexto médico monitorado podem provocar ataques de pânico, paranoia, problemas respiratórios e cardiovasculares graves, como parada cardiorrespiratória, além de convulsões e até morte.
O ambiente preparado, o apoio psicológico antes e durante e o monitoramento médico contínuo são essenciais para a segurança do tratamento.





