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Brasileiros que têm esses carros recebem alerta após mudança na gasolina

Por Matheus Chaves
09/07/2026
Quem abastecer a partir deste horário poderá pagar R$ 4,24 na gasolina

Imagem: Magnific (Freepik)

Se o seu carro foi fabricado há mais de duas décadas ou é importado, vale a pena ficar atento a uma mudança que pode entrar em vigor no combustível vendido nos postos brasileiros. Trata-se do aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. Se a alteração realmente for feita, ela deve exigir mais atenção de proprietários de veículos antigos, principalmente aqueles que não são capazes de ajustar automaticamente o funcionamento do motor.

Acontece que integrantes do governos vêm debatendo a meses a possibilidade de aumentar 2% de etanol anidro na gasolina. Atualmente, o combustível recebe 30% da substância. Agora, a ideia é que ele passe a ter 32%. No entanto, a alteração ainda não foi autorizada oficialmente. Inclusive, na quarta-feira (8), haveria uma reunião entre Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para oficializar o incremento do produto, mas ela foi adiada e não há previsão de quando irá ocorrer.

Gasolina com mais etanol muda o funcionamento do motor

O principal fator está relacionado às características dos combustíveis. O etanol possui menor poder calorífico do que a gasolina, ou seja, entrega menos energia durante a combustão. Isso significa que o motor precisa utilizar uma quantidade maior de combustível para gerar a mesma potência.

Na prática, isso significa que o motor precisa consumir um volume maior de combustível para entregar a mesma quantidade de energia. Segundo Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), em entrevista ao G1, a tendência é que o consumo aumente tanto em veículos flex quanto nos modelos abastecidos exclusivamente com gasolina.

A intensidade dessa mudança, porém, depende de diversos fatores, como o projeto do motor, o estado de conservação do veículo, as condições de uso e a manutenção realizada pelo proprietário.

Carros mais antigos podem ter maior dificuldade de adaptação

O principal ponto de preocupação dos especialistas envolve veículos fabricados há duas ou três décadas. Muitos desses modelos foram desenvolvidos para trabalhar com uma concentração menor de etanol na gasolina e possuem sistemas de alimentação mais simples, como carburadores ou injeções eletrônicas com menor capacidade de ajuste.

Nesses casos, o motor pode não conseguir corrigir automaticamente a nova proporção entre ar e combustível. Como consequência, o funcionamento pode ocorrer fora dos parâmetros definidos originalmente pela fabricante.

Entre os possíveis efeitos estão dificuldade na partida, oscilações na marcha lenta, perda de desempenho, falhas durante acelerações e aumento da temperatura de funcionamento do motor.

ECU faz ajustes, mas possui limites de compensação

Um dos componentes envolvidos nessa adaptação é a Unidade de Controle Eletrônico (ECU), presente em diversos veículos com injeção eletrônica. O sistema funciona como o computador responsável pelo gerenciamento do motor.

A ECU recebe informações de sensores que acompanham dados como temperatura, rotação, volume de ar admitido, posição do acelerador e composição dos gases liberados pelo escapamento. Com essas informações, calcula a quantidade adequada de combustível e ajusta parâmetros como a injeção e o momento da ignição.

Nos veículos preparados para trabalhar com diferentes proporções de combustível, esse ajuste acontece de forma mais eficiente. Porém, modelos que não possuem uma calibração compatível podem atingir o limite de compensação da central eletrônica.

Esse cenário também pode ocorrer em alguns veículos importados modernos que utilizam apenas gasolina. Embora tenham sistemas eletrônicos avançados, eles foram projetados para outra composição de combustível e podem registrar aumento mais expressivo no consumo quando a ECU chega ao limite de adaptação.

Componentes do sistema de combustível entram no debate

Além do funcionamento eletrônico, outro ponto analisado é a resistência dos materiais que entram em contato direto com a gasolina. A lista inclui peças como tanque, bomba de combustível, boia, linhas de combustível, bicos injetores, vedações, pistões e componentes da câmara de combustão.

O etanol anidro utilizado na mistura passa por um processo de retirada de água, mas ainda possui capacidade de absorver umidade do ambiente. Essa característica pode favorecer processos de corrosão em peças que não foram desenvolvidas para essa condição.

Segundo especialistas ouvidos pelo G1, os principais riscos estão relacionados ao desgaste e à corrosão de componentes do sistema de alimentação. Em casos mais graves, problemas na bomba de combustível ou nos bicos injetores podem provocar falhas de funcionamento, aumento das emissões e elevação do consumo.

Filtro e sistema de ignição também podem ser afetados

A nova composição do combustível também pode provocar alterações em outros componentes do veículo. O etanol tem capacidade de desprender resíduos acumulados no tanque, o que pode acelerar o entupimento do filtro de combustível.

Outro ponto envolve as velas de ignição. Em motores que não foram calibrados para uma concentração maior de etanol, a combustão pode gerar maior esforço térmico e elétrico, reduzindo a vida útil desses componentes.

Isso não significa que todas as velas apresentarão problemas após a mudança, mas que veículos sem a preparação adequada podem exigir acompanhamento mais frequente do sistema de ignição.

Anfavea defende realização de testes antes da mudança

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma apoiar o uso de biocombustíveis e reconhece a importância do etanol para a redução das emissões da frota brasileira.

A entidade, porém, defende que alterações na mistura sejam acompanhadas por testes técnicos antes da implementação. Segundo Igor Calvet, presidente da associação, o objetivo é garantir que motores, sensores e componentes estejam preparados para a nova concentração de etanol.

A preocupação da indústria está principalmente relacionada aos veículos importados e aos modelos desenvolvidos para operar com proporções menores do biocombustível.

Setor do etanol afirma que testes apontam viabilidade

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a mudança foi construída dentro do programa Combustível do Futuro, com participação de representantes do governo, instituições de pesquisa e setores automotivo e energético.

Segundo a entidade, avaliações realizadas pelo Instituto Mauá de Tecnologia analisaram fatores como desempenho, consumo, dirigibilidade, partida a frio e funcionamento de veículos movidos exclusivamente a gasolina.

A associação afirma que os resultados indicaram viabilidade técnica para a ampliação da mistura e que os testes não identificaram impactos relevantes nos veículos avaliados.

Dessa forma, a possível mudança na gasolina deve ter efeitos diferentes conforme a tecnologia de cada automóvel. Enquanto modelos flex possuem maior capacidade de adaptação, veículos antigos ou importados sem preparação específica podem precisar de atenção maior para evitar desgaste e falhas no funcionamento.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Matheus Chaves

Matheus Chaves

Jornalista e produtor de conteúdo com mais de nove anos de experiência em comunicação digital, produção editorial e jornalismo online.

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