Melisa Gaona tem 26 anos, nasceu em Bogotá e convive com endometriose desde a infância, depois de mais de uma década sem diagnóstico correto e de a doença evoluir para um estágio grave, ela formalizou em 2025 um pedido de eutanásia na Colômbia.
Numa das muitas vezes em que chegou a um pronto-socorro dobrada de dor, Melisa ouviu de um médico que não era “uma urgência vital” e foi mandada de volta para casa. Em outro episódio, ao insistir que a dor era insuportável, um profissional respondeu que, se ela queria morrer, que se matasse.
O diagnóstico formal da endometriose só chegou em 2024, embora os sintomas tivessem começado ainda na infância. A dor comprometia atividades básicas, como comer, andar, urinar e evacuar.

Com acompanhamento jurídico da DescLAB, organização colombiana que litiga pelo direito à morte digna, Melisa levou o caso à Justiça por meio de uma ação de tutela, recurso usado no país por pacientes que têm o procedimento de eutanásia recusado. Desde então, repete uma frase: “Eu não quero morrer, quero parar de sentir dor.”
Significado do pedido para os médicos
Para o neurocirurgião Pedro Henrique Cunha, especialista em dor crônica, uma frase como essa diz menos sobre desejo de morte do que sobre o tamanho do abandono enfrentado pela paciente. “Na maior parte das vezes, não expressa um desejo primário de morte, mas o limite de uma pessoa que perdeu funcionalidade, autonomia, sono, trabalho, vínculos e esperança de melhora”, afirma.
O pedido foi negado em julho de 2025 por uma junta médica de Bogotá, sob o argumento de que ainda havia alternativas terapêuticas, entre elas uma cirurgia.
No fim de 2025, Melisa passou pelo procedimento para retirar focos de endometriose e relatou melhora significativa, embora a dor não tenha desaparecido por completo. Depois disso, fundou a FECCUM, organização voltada a ajudar outras mulheres colombianas a obter diagnóstico mais rápido e cuidado adequado.

Uma condição comum e pouco reconhecida
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva convivem com endometriose no mundo, uma em cada dez. O tempo médio até o diagnóstico varia de seis a dez anos, atraso recorrente porque muitas pacientes são levadas a tratar dores incapacitantes como algo normal.
No Brasil, o SUS registrou mais de 26,4 mil atendimentos e 8 mil internações pela doença em 2021.
Na Colômbia, a eutanásia foi despenalizada em 1997 e regulamentada em 2015; em 2021, a Corte Constitucional retirou a exigência de que o paciente estivesse em fase terminal para acessar o procedimento. No Brasil, tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido permanecem proibidos.





