O aquecimento do oceano Pacífico, associado ao El Niño, provocou nebulosidade intensa na região central da Argentina, onde manhãs frias e céu encoberto marcaram a passagem da primavera.
Apesar das temperaturas mais altas em outras áreas do país, Inti Bonomo, especialista em Ciências Ambientais, atribui o contraste à cobertura de nuvens provocada pelo aquecimento do oceano.
Em entrevista à LN+, Bonomo explicou que o aquecimento altera a circulação atmosférica e aumenta a umidade que chega à região central. A cobertura de nuvens bloqueia parte da radiação solar e retarda a elevação natural das temperaturas na primavera, segundo o especialista.
Bonomo prevê que o fenômeno, ainda em expansão, atingirá o auge em dezembro, mas ressalva que a data é uma estimativa sujeita a revisões. A umidade incorporada ao ar durante o processo, segundo ele, pode continuar provocando efeitos até fevereiro, março e abril de 2027.
Nuvens explicam o frio na região central
Segundo Bonomo, o Super El Niño é um aquecimento oceânico que desencadeia mudanças conectadas nos processos marinhos e atmosféricos. O fenômeno favorece o transporte de umidade para a Argentina e forma uma cobertura densa e persistente de nuvens sobre boa parte do território.
Para explicar a relação entre o céu nublado e o calor global, o licenciado recorreu a uma comparação simples: roupas brancas refletem luz solar, enquanto peças escuras absorvem mais energia.
As nuvens refletem parte da radiação solar, impedindo que esses raios aqueçam o solo. Isso ajuda a manter dias mais frescos mesmo com o aumento da temperatura média do planeta. À noite, porém, elas dificultam a perda do calor absorvido pela superfície e moderam a diferença entre os períodos de maior aquecimento e os de perda de energia.
O pico esperado para dezembro
Segundo Bonomo, o aquecimento das águas do Pacífico ainda está crescendo e deve atingir o pico em dezembro, quando a anomalia de calor chegará ao maior nível.

Bonomo ressalvou que sua previsão é uma projeção sujeita a mudanças, não um dado definitivo. Por isso, é preciso acompanhar o início da reversão da tendência e o ritmo dessa mudança nos meses seguintes.
O especialista também alertou que esse pico não equivale, automaticamente, ao mês mais frio ou mais chuvoso em cada cidade argentina. Trata-se do ápice da anomalia térmica no oceano — e os efeitos práticos sobre o clima local tendem a se estender além de dezembro, prolongando-se até fevereiro, março e abril.
Como as nuvens modulam a temperatura mesmo com aquecimento global
As nuvens funcionam como um sistema de dupla ação sobre o calor. Durante o dia, elas refletem parte da radiação solar, assim como roupas brancas refletem luz enquanto peças escuras a absorvem. Essa reflexão impede que uma fatia dos raios solares chegue ao solo, mantendo dias mais frescos.
Mas há um segundo efeito: à noite ou quando o solo já absorveu calor. As nuvens dificultam a perda dessa energia para o espaço, criando uma espécie de cobertor que modera as variações extremas de temperatura.
Esse duplo mecanismo explica por que a Argentina central pode ter manhãs frias e céu encoberto enquanto o planeta aquece em média. A anomalia oceânica do El Niño traz umidade que alimenta essa cobertura nubosa persistente, e ela própria regula o fluxo de calor de forma ativa — não apenas bloqueando, mas também aprisionando parte da energia.
Quando o pico oceânico não coincide com o pior tempo local
O máximo da anomalia térmica do oceano em dezembro não significa automaticamente que esse será o mês mais frio, mais nublado ou mais chuvoso em cada cidade. O pico da medida oceânica não coincide necessariamente com o dos efeitos na superfície.
A atmosfera responde com dinâmica própria e defasada, em parte porque a umidade já transportada continua atuando na região durante meses depois do pico oceânico.
Além disso, os efeitos podem variar significativamente de localidade para localidade dentro da Argentina central. O especialista reforçou que é necessário observar tanto o momento em que a tendência de crescimento se reverte quanto o ritmo dessa reversão — fatores que ainda estão em aberto e sujeitos a mudanças nas próximas semanas de monitoramento.
O papel da umidade na persistência das condições frias
O especialista destacou que o El Niño não apenas aquece o oceano, mas altera toda a circulação atmosférica conectada a esse aquecimento, favorecendo o transporte de umidade desde as águas do Pacífico até o interior da Argentina.
A persistência dessa umidade além de dezembro é particularmente importante porque revela como os efeitos de El Niño funcionam em camadas: primeiro o oceano aquece (crescimento até dezembro). Depois a atmosfera responde com umidade transportada (que segue atuando além do pico), e finalmente as condições começam a se normalizar gradualmente.





