Uma onça-parda que se acidentou há anos em uma rodovia, vem chamando a atenção por ter voltado três vezes ao mesmo lugar onde foi resgatada quando era filhote. O animal passou por um processo intenso de recuperação durante mais de um ano e agora já está de volta à natureza e monitorado por meio de radiocolar. A seguir, saiba mais detalhes sobre essa história.
Conforme artigo publicado pela Springer Nature, o caso ocorreu no estado de São Paulo e faz parte de um trabalho científico que acompanhou a reintrodução de uma onça-parda após um atropelamento. Antes de voltar para o ambiente natural, o felino permaneceu durante 16 meses em um centro especializado, período utilizado para tratar os ferimentos e recuperar as condições necessárias para sobreviver por conta própria.
Depois da recuperação, o animal passou por uma etapa intermediária antes da soltura definitiva. Esse procedimento é conhecido como soft release, ou soltura gradual, e permite que o indivíduo se adapte novamente ao ambiente externo sem ser colocado imediatamente em uma situação completamente desconhecida.
Como foi a recuperação da onça-parda
O período de 16 meses não serviu apenas para a cicatrização dos ferimentos provocados pelo acidente. Como a onça havia sido retirada do ambiente natural, também era necessário verificar se ela conseguiria recuperar comportamentos importantes para a sobrevivência, como deslocamento, procura por abrigo e exploração do território.
Para isso, os pesquisadores transferiram o animal para um recinto de pré-soltura. O espaço permitiu uma transição entre o ambiente controlado do centro de conservação e a vida livre, reduzindo a mudança brusca provocada pela reintrodução.
Um dos resultados observados foi uma alteração no padrão de atividade. No recinto de pré-soltura, a onça passou a apresentar comportamento mais próximo daquele esperado para animais selvagens, com maior movimentação durante a noite e nos períodos de transição entre o dia e a noite.
O radiocolar permitiu acompanhar os deslocamentos
Antes da soltura, a onça recebeu um radiocolar. O equipamento permitiu que os pesquisadores acompanhassem seus deslocamentos depois do retorno ao ambiente natural, criando um registro contínuo das áreas utilizadas pelo animal.
Esse tipo de monitoramento é importante porque observar uma onça-parda na natureza de forma direta é difícil. A espécie apresenta comportamento predominantemente solitário e pode percorrer grandes áreas, o que torna o rastreamento por sinais de localização uma ferramenta importante para estudar sua adaptação.
No caso acompanhado pelos pesquisadores, os dados mostraram inicialmente uma preferência por áreas de florestas comerciais, como plantações de pinus e eucalipto. Ao longo do monitoramento, porém, o animal também passou a utilizar áreas de floresta nativa.
Por que ela voltou ao local do acidente
O retorno repetido ao ponto da estrada chama atenção porque esse local estava associado justamente ao acidente que levou ao resgate do animal. No entanto, isso não significa necessariamente que a onça tenha voltado ao trecho por reconhecer o lugar como o ponto onde viveu anteriormente.
A explicação mais provável está relacionada ao funcionamento territorial da espécie. Onças-pardas utilizam grandes áreas para encontrar alimento, abrigo e parceiros, e seus deslocamentos podem fazer com que determinados pontos sejam visitados novamente ao longo do tempo.
A presença de vegetação, disponibilidade de presas e conexão entre fragmentos florestais pode tornar uma determinada região importante para o animal. Dessa forma, o retorno ao mesmo trecho pode estar relacionado às características daquele ambiente e à forma como a onça organiza seu território.
O acidente mostra um problema maior
O caso também chama atenção para um dos principais problemas enfrentados pela espécie. A expansão das rodovias em áreas de vegetação fragmentada aumenta a possibilidade de encontros entre animais silvestres e veículos.
A onça-parda possui ampla capacidade de adaptação e consegue ocupar diferentes tipos de ambientes, inclusive áreas modificadas pela atividade humana. Porém, essa característica também faz com que o animal circule por regiões onde existe maior contato com estradas, plantações e áreas urbanizadas.
Quando uma rodovia corta o território utilizado pelo felino, o deslocamento em busca de alimento ou de novas áreas pode resultar em atropelamentos. Por isso, o monitoramento desses animais também ajuda a identificar trechos que podem representar pontos críticos para a fauna.





