Virar pai ou mãe costuma ser associado a expectativas quase só positivas: amor, descoberta e uma vida transformada para melhor. Mas a paternidade também traz medo e cansaço, e essa dualidade não é uma falha, mas a própria condição de amar profundamente.
O filósofo Francesc Torralba propõe uma perspectiva mais honesta sobre as exigências reais de criar um filho. Para ele, “um filho pode ser um motivo infinito de felicidade, mas também de sofrimento”, disse em conversa com Josef Ajram e em uma reflexão publicada pela La Vanguardia.
A promessa que ninguém pode garantir
Torralba rejeita a visão simplificada em que ter filhos levaria automaticamente a uma vida mais plena e satisfeita. A vivência pode ser intensamente recompensadora, mas junto dela aparecem contratempos, preocupações e a percepção de que o destino do filho não cabe inteiramente nas mãos de quem o criou.
Sem garantia de retorno específico, o adulto entrega tempo, cuidado e energia ao criar alguém, numa forma de investimento incondicional.
Quando esse esforço permite que outra pessoa construa a própria trajetória com autonomia, a alegria surge como resultado natural. Mas essa alegria coexiste com a incerteza de que ninguém controla completamente o caminho que o filho vai seguir, nem as dificuldades que ele enfrentará.
O que não cabe nas mãos dos pais
Uma pessoa mantém suas próprias escolhas, personalidade e trajetória mesmo quando recebe orientação, proteção, referências e limites de quem a criou. Boa parte do desafio está em acompanhar esse percurso sem transformar o cuidado em controle sobre cada decisão, orientar é possível; decidir pela outra pessoa, não.
Essa mudança de lógica transforma a relação: em vez de esperar resultados específicos ou tentar manter o controle absoluto, os pais aprendem a abrir mão do controle enquanto mantêm a proteção. É um equilíbrio frágil, em que a vulnerabilidade de ambos fica exposta.
Dois sentimentos que coexistem
Torralba não trata felicidade e dor como polos que se cancelam dentro da mesma relação. Um vínculo pode gerar satisfação e, simultaneamente, abrigar angústia, frustração ou tristeza.
É exatamente a força do laço que permite essa amplitude: quanto mais alguém se torna relevante na vida de uma pessoa, maior também é o efeito emocional do que acontece com ela.
Isso se manifesta de formas bem distintas ao longo da paternidade. Há contentamento em testemunhar o amadurecimento e a autonomia do filho, mas também fragilidade diante de doenças, decisões difíceis, brigas, distanciamentos e episódios que simplesmente escapam ao que os pais conseguem evitar.






